648 – Frankenstein de Mary Shelley (1994)

Frankenstein-1994

Frankenstein

1994 / EUA, Japão / 123 min / Direção: Kenneth Branagh / Roteiro: Steph Lady, Frank Darabont (baseado no livro de Mary Shelley) / Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart, John Veitch; Kenneth Branagh, David Parfitt (Coprodução); David Barron, Robert De Niro, Jeff Kleeman (Produtores Associados); Fred Fuchs (Produtor Executivo) / Elenco: Robert De Niro, Kenneth Branagh, Tom Hulce, Helena Bonham Carter, Aidan Quinn, Ian Holm

 

Em meu último post eu usei a seguinte frase que sou obrigado a repeti-la aqui para falar sobre Frankenstein de Mary Shelley: “Tem a cara da presunção e da cafonice dos filmes dos anos 90, na época de um arroubo de “superproduções” mequetrefes aspirantes a oscarizadas com estrelas de Hollywood”.

Sabe, qual o problema dessa galera dos 90’s, hein? Qual diabo de status que eles queriam dar para o cinema de terror e seus monstros? Era mesmo pegar a ingenuidade e caracterização clássica criada pela Universal durante a Era de Ouro e depois pela competente britânica Hammer e transformar tudo numa paródia de si mesma, sem humanidade, cheia de pompa e megalomania? Foi assim com o Drácula de Bram Stoker do Coppola e é assim com o Frankenstein de Mary Shelley, do shakespeariano Kenneth Branagh.

Olha, eu vou contar aqui um causo pessoal sobre esse filme. Minha irmã mais velha é ligada ZERO em filmes de terror. Eu sempre fui a ovelha negra da família. Eu me lembro quando Frankenstein de Mary Shelly estreou nos cinemas aqui no Brasil e ela foi assistir com seu namorado na época. Ela voltou para casa maravilhada, extasiada com o filme, achava algo lindo, sublime. Poxa, então com certeza eu já sabia que tinha gato nessa tuba. Que para uma garota apaixonada com seus vinte e tantos anos ter gostado da película, é que de terror ela não deveria ter nada, e ser mais um romance dramalhão de época.

Ser ou não ser Frankenstein? Eis a questão!

Ser ou não ser Frankenstein? Eis a questão!

E dito feito. Quando assisti algum tempo depois em VHS, achei um saco. E o pior foi que diabos era aquela criatura de Robert De Niro? Beleza, a caracterização dele está incrível, próximo da realidade, com uma excelente maquiagem (indicada ao Oscar®, diga-se de passagem), mas na minha cabeça o monstrengo era verde, tinha dois pinos no pescoço, cabeça quadrada e cabelo escovinha, como imortalizado por Boris Karloff. Bom, eu era bem jovem, vai. E o pior, era o sujeito falando, trocando ideia e toda aquela cretinice dele aprender a ler e falar com sua afeição por uma família camponesa. Cadê os grunhidos?

Bom, isso era ignorância de quem apenas muitos anos depois teve a chance de ler o romance de Mary Shelley. Que por sinal, é uma porcaria, vai? Muito dos mal escritos, raso, sem profundidade. Certeza que ela perdeu a aposta feita entre ela, Stoker e Lorde Byron, em uma noite de tempestade, de quem criaria a história mais assustadora e tudo mais. Aí foi que eu percebi que havia sido injusto com essa pretensa adaptação fiel ao livro, pois isso de fato, ele é. O monstro realmente se envolveu com aquela família de camponeses, aprendeu a ler, a escrever, orquestrou uma vingança contra o Dr. Victor Frankenstein (papel de Branagh) que levara os dois aos confins gélidos do mundo. Também só mais tarde eu percebi o quanto A Noiva de Frankenstein é também mais próximo ao texto do que o original de 1931 de James Whale.

Mas ainda assim, Frankenstein de Mary Shelley não me desce. E mais uma vez, é por conta da pompa, dos movimentos meticulosamente calculados que o afastam do cerne do cinema de terror para torna-lo um novelão, uma superprodução, um desbunde visual superficial, com grandes atores, grandes efeitos especiais, grandes orçamentos, para serem pretensos blockbusters e arrecadar milhões em bilheterias (tal qual a adaptação “literal” do Drácula de Coppola, que por sinal, é produtor deste aqui) enquanto o gênero cru e autêntico definhava em lançamentos de qualidade duvidosa, despejados diretos nas prateleiras das vídelocadoras.

Ops...

Ops…

O cinema de terror sempre foi marginal, e Frankenstein de Mary Shelley é a antítese disso. Foi feito para levar a namorada incauta se maravilhar com a paixão e o romance entre Frankenstein e Elizabeth (Helen Bonham Carter pré-Tim Burton), com o figurino maravilhoso, os cenários majestosos, os efeitos especiais de última linha (na época), se impressionar com a atuação do De Niro com suas cicatrizes e boca torta pedindo uma companheira para aplacar sua solidão (que não evoca na real nem um pingo da dó que sentimos da incompreensão da criatura eternizada por Karloff há sessenta anos, mesmo que só com seus grunhidos).

Ou seja, não dá para gostar. Ponto. E se você gosta, é pelos motivos errados. É pela estética e por ser um drama de época, e não por ser a transposição de um dos maiores clássicos da literatura gótica de todos os tempos, influentíssimo, o que nesse quesito, ele acerta. Mas não é o suficiente, porque querendo ou não, o livro é fraco, e resvala nas telas em um drama vitoriano, com um cientista louco que não convence nem um pouco, sem um pingo de horror. Tenta ser sujo, mas é asséptico. Deveria ser feio, mas quer ser belo, poético, soando patético ao contrário.

Claro, eu não peço por um sujeito verde, todo quadradão com seus braços estendidos, casaco sujo, botas pesadas de construtor, como em Frankenstein da Universal. E nem a versão mais deformada que Christopher Lee viveu em A Maldição de Frankenstein da Hammer no final dos anos 50. A transposição do texto para as telas é crível, é real, De Niro dá conta do recado, mas Frankenstein de Mary Shelley é feito por pessoas erradas com intenções erradas. O bufante Kenneth Branagh entende de Shakespeare, mas não de um monstro clássico do cinema de terror (ou um Deus nórdico do trovão, falei aqui). Nitidamente queria-se fazer outro sucesso e jogar ao grande público o que fora feito em Drácula de Bram Stoker. Mas falta sombra, falta maldade, falta cadáveres sendo profanados de cemitérios e destroçados em prol de uma experiência terrível na tentativa de se ofender Deus e criar vida. Resumindo, falta o terror…

You talkin' to me?

You talkin’ to me?

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Frankenstein de Mary Shelley está atualmente fora de catálogo. Compre o Blu-ray aqui.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

5 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Marcos, na verdade esse filme não é fiel ao livro não. Em 2004 o Hallmark Channel fez uma minissérie de 2 episódios de 1h30min, que depois foi transportado pra DVD num filme de 3 horas, que é SUPER fiel ao livro. Por exemplo, a tal “noiva” do monstro ganha vida no filme do Branagah, no livro não (e exatamente isso que mostra na produção de TV da Hallmark). Henry Clerval no filme do Branagah conhece o Frankenstein na faculdade, no livro eles são amigos de infância (como mostra também a série que citei). O monstro no livro tem pele amarelada e 2,40 metros mais ou menos (na série, por falta de orçamento, não botaram ele dessa altura, botaram o ator Luke Goss pra fazer o monstro e um ator baixinho pra fazer o Victor Frankenstein). O livro de Mary Shelley não é terror, essa é uma ideia errônea que as pessoas tem. O livro dela é um melodrama gótico. Tem apenas pitadas de terror, mas nada assim tão marcante. E eu acho o livro ótimo, por sinal. Dentro de sua proposta, claro. Por melhor que sejam os filmes da Universal, eles sim é que deram uma visão errada do romance pras pessoas. Contudo, a “A Noiva de Frankenstein” continua sendo meu filme favorito de Frankenstein, hehehehehe. Por dois motivos, por ele ter a roupagem da Universal, e ter elementos fiéis ao livro.

  2. A primeira metade dos anos 90 é tomada de romances góticos pretensiosos e a segunda metade por slashers adolescentes sem nudez.

  3. Eduardo disse:

    Discordo de vc, acho este filme muito bom …. a produção do Coppola além de contar com Robert de Niro, Branagh no elenco a cenas da criação do Monstro são muito bem feitas … geralmente seus post criticam filmes da decada de 90… eu imagino o que temos de bom além disso … ´nada… o Terror atual é pessimo… pouco coisa se salva … Entrevista com o Vampiro tb foi um filme bem produzido e teve elenco que até hoje ainda esta em grandes filmes … Dracula de 1993 e outro que foi duramente criticado … bom eu acho que a pior fase do terror é de 2000 a 2010… pelo menos dai em diante tiveram filmes bons … mas enfim … nos anos 80 o terror tb não foi grande coisa mas foi melhor que a fase 2000 a 2010….

  4. Minha ziquizira não é nem com o fato de ser fiel ao livro ou não, mas sim com retratarem algumas obras de terror da era Vitoriana como novelões dramáticos com clima gótico, e não puro e simples horror. Tudo bem que boa parte das obras daquele tempo eram, de fato, novelões dramáticos com clima gótico, mas, né. Tipo a série Penny Dreadful, que o primeiro episódio é até interessante, mas depois descamba pro dramalhão que nada assusta, como sempre, e fica aquela coisa modorrenta.

  5. […] ignorar completamente o gênero (salvo pretensas superproduções, como Drácula de Bram Stoker, Frankenstein de Mary Shelley, Entrevista com Vampiro, etc) e deixassem de investir no que era sinônimo de fracasso de público, […]

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