657 – Eclipse Total (1995)

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Dolores Claiborne

1995 / EUA / 132 min / Direção: Taylor Hackford / Roteiro: Tony Gilroy (baseado no livro de Stephen King) / Produção: Taylor Hackford, Charles Mulvehill; Gina Blumenfeld, Michael Kelly (Produtores Associados) / Elenco: Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, Judy Parfitt, Christopher Plummer, David Strathairn, John C. Reilly

 

Kathy Bates ganhou um Oscar® pela sua atuação visceral, assustadora, descontrolada e psicopata da enfermeira Annie Wilkes em Louca Obsessão, baseado em um livro de Stephen King e sabidamente um dos melhores filmes inspirados em sua obra. A atuação monstra da atriz chamou demais a atenção do escritor que se inspirou na própria para criar a personagem Dolores Claiborne de seu livro homônimo, levados às telas pelo diretor Taylor Hackford em Eclipse Total.

Obviamente, ninguém menos que Bates poderia viver a personagem título nesse intrigante suspense, sem absolutamente nenhum toque sobrenatural, mesmo tendo King por trás, que parece que vai ficando melhor com o tempo e a casa nova assistida. Eclipse Total nunca foi um de meus favoritos, mas eu mesmo acabei me surpreendendo com ele ao revisitá-lo, depois de um longo período em que o vi pela primeira vez.

Claro que a atuação de Bates é hors concours, e também estão muito bem a maiorias dos coadjuvantes, como Jennifer Jason Leigh, Christopher Plummer, David Strathairn e a excelente Judy Parfitt como Vera Donovan, indicada, vinda do teatro, pela esposa de Hackford, Helen Mirren. Mas dois aspectos me chamaram demais a atenção que dão um contorno todo especial ao longa: a trilha sonora impecável de Danny Elfman e a ótima fotografia do mexicano Gabriel Beristain (que pesquisando no iMDB tem dois filmes como diretor de fotografia que agora aqui de cabeça me remeteram a esse seu trabalho: O Chamado 2 e Viagem do Medo, e atualmente está na televisão, tendo trabalhado recentemente na séries The Strain, aquela do Guillermo Del Toro e Agent Carter, da Marvel).

Isso porque o filme é quase todo contado alternando o presente e o passado, com uma fotografia azulada, sóbria, quase com total ausência de cor durante a narrativa atual, e mais vívida quando em flashback. E isso sem contar a exímia cena do tal eclipse total do título, quando todas essas partes envolvidas: a atuação de Bates e Strathairn como seu marido abusivo, alcóolatra, molestador, pedófilo e misógino, Joe; a fotografia de Beristain (lindíssima); a direção de Hackford; e a trilha sonora de Elfman, funcionam poderosamente em uníssono.

Fã número um!

Fã número um!

Pois bem, na trama, a importante jornalista Selena St. George (Leigh) deixa Nova York para voltar à sua terra natal, uma ilha no estado do Maine (ah, vá!) ao saber que sua mãe, Dolores, estava sendo acusada do assassinato da mulher de quem era criada e cuidava há 20 anos, Vera (em uma relação que de bate pronto me lembrou de Bette Davis e Joan Crawford em O Que Terá Acontecido com Baby Jane?) . O detetive John Mackey (Plummer) quer por que quer colocá-la na cadeia, pois ainda acredita que ela foi a culpada pela morte do marido há tantos anos, durante uma tarde onde aconteceu um eclipse total solar, e escapou ilesa, sendo o único caso em que o mesmo não condenara um culpado.

Esses acontecimentos levaram a vida de todos para um caminho sem volta de amargura, que será pontuado de forma carregada na conturbada relação entre Dolores e sua filha, que volta cheia de mágoa e ressentimento com sua mãe, potencializados pela perda de uma grande matéria que estava investigando e que lhe renderia um livro, tomando remédios, viciada em bebida e com certa memória seletiva, bloqueando diversas lembranças traumáticas de seu passado com seu pai. Dolores mantém-se firme, forte, decidida a levar tudo até as últimas consequências e tentar reconquistar a afeição da filha à tanto ausente.

Apesar do suspense água com açúcar, Eclipse Total consegue te prender desde a primeira cena, que já é o suposto assassinato de Vera, até sua bombástica revelação de como tudo transcorreu durante o eclipse, com as ações de Dolores friamente calculadas, e principalmente, todas as somas dos motivos que levaram até aquela situação. Bates e Parfitt então vociferam o girl power dos anos 90, que culmina em um tema cada vez mais atual e discutido em nossa sociedade, da mulher se levantar e agir contra problemas extremamente comuns e destrutivos em várias famílias: alcoolismo, abuso, machismo e incesto. Como Vera Donovan diz de boca cheia e instiga: “Às vezes, ser uma vaca é tudo que resta a uma mulher”. É isso que a situação limítrofe e maridos filhos da puta ao extremo levam essas mulheres de pedra a crer e agir como tal.

Uma das coisas mais bacanas de se fazer esse blog, por mais que às vezes levemente dê no saco e consuma um tempo dos diabos, afinal, eu já assisti e resenhei nada menos que 657 filme em praticamente três anos sem parar, é a redescoberta, e foi o caso de Eclipse Total. É um Stephen King acima da média (o que já é motivo de se louvar) onde o texto base do escritor mais uma vez explora muito mais o drama oriundo do verdadeiro terror das relações humanas, muito mais assustador do que monstros, fantasmas, alienígenas e coisas do tipo.

Eclipse total do coração

Eclipse total do coração

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Eclipse Total está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

7 Comentários

  1. JMAbreu disse:

    Se há momentos mágicos, belos e docemente aterradores, este é particularmente um deles. Só a magia de, Stephen King consegue eclipsar-nos e neste turbilhão. Só fiquei com a sensação, que valor da vida é inquestionável, qualquer que seja o drama de cada um.
    Muito obrigado ao “101 horror movies” por este trabalho intemporal. INDISCRITIVEL.
    Assim vale a pena o cinema. ! ! !
    Saudações cinéfilas.

    JMAbreu

  2. Nathalia disse:

    Sinopse e comentários impecáveis como sempre. Parabéns!
    Amo este blog!

  3. reneesalomao disse:

    Esse filme estava passando um dia desses na HBO…. Só que eu peguei já dá metade pro fim, mas nem assistir, mas fiquei com vontade só por causa da KATE BATES… hahhahahaha adoro ela. Agora que vi sobre o filme aqui, já vou assistir só pela resenha… e claro também pelo KING E KATE… E AINDA TAMBÉM POR JENNIFER…. A ETERNA LOUCA DE MULHER SOLTEIRA PROCURA. … HAHAHAHHAHA

  4. reneesalomao disse:

    101 Horror esse site aqui serve tanto para filmes de terror quanto suspense né? RsdsdRsds espero que a lista de filmes não acabe tão cedo… e após chegar na data atual… quais os planos de vocês para o site?

  5. […] o elenco naquela oportunidade).  Três anos depois Hackford (que dirigira anteriormente o ótimo Eclipse Total e mais tarde o Oscarizado Ray) ficou com a cadeira do diretor e com Al Pacino e seu inflamado […]

  6. […] bem guardar um segredo (lembrando que Little Tall é a mesma ilha onde é situada a história de Eclipse Total e os acontecimentos que envolveram Dolores Claiborne, citados no roteiro), para tocar o terror, […]

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