66 – O Monstro do Ártico (1951)

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The Thing from Another World


1951 / EUA / P&B / 87 min / Direção: Christian Nyby, Howard Hawks (não creditado) / Roteiro: Charles Lederer (baseado na obra de John W. Campbell Jr.) / Produção: Howard Hawks; Edward Lasker (Produtor Associado) / Elenco: Margaret Sheridan, Kenneth Tobey, Robert Cornthwaite, Douglas Spencer, James Youg


 

Chegamos aos anos 50. A década em que o cinema de horror e de sci-fi andaram de mãos dadas, cheio de suas invasões alienígenas, animais gigantes e monstros espaciais e/ou radioativos para ajudar a enfiar na cabeça dos americanos e de uma geração inteira de baby boomers, a iminente ameaça nuclear e o temores do comunismo em tentar destruir o precioso american way of life. E O Monstro do Ártico é o primeiro dessa lista.

Clássico absoluto da ficção científica, a fita produzida por Howard Hawks (e dirigida, de forma não creditada) para a RKO Radio Pictures é baseada na história Who Goes There? de John W. Campbell Jr., publicada na revista Astounding Stories e refilmada 30 anos depois por John Carpenter, resultando na obra prima do terror alienígena O Enigma de Outro Mundo.

Lançado em plena Guerra Fria, claro que a história de um alienígena maligno é uma metáfora para os comunistas, quase como todos os filmes do período, funcionando como uma verdadeira propaganda ideológica macarthista. Junto com o igualmente famoso Vampiros de Almas e O Dia Em Que a Terra Parou, O Monstro do Ártico é um dos filmes que mais ganhou conotações políticas (até talvez mais do que fosse sua real intenção), graças a seu enredo que caiu como uma luva no sentimento xenofóbico obscuro e negativista dos americanos nos anos pós bomba atômica, apresentado por meio de uma forma de vida implacável que se alimenta de sangue, predisposto a eliminar o status quo e instalar o medo e paranoia no mundo.

Caçando a coisa

Caçando a coisa

Bom, para não colocar a carroça na frente dos bois, uma forma de vida alienígena vegetal caiu na terra há milhares de anos e ficou em animação suspensa congelada em um bloco de gelo em pleno ártico, até ser encontrado por homens da força aérea americana, liderados pelo capitão e piloto Patrick Hendry (Kenneth Tobey), que vivem isolados em uma base militar no continente gelado e um grupo de cientistas, chefiados pelo Dr. Arthur Carrington.

Ao ser levado para a base, o monstro descongela e acorda do seu sono milenar, morrendo de fome e sedento por sangue humano. Andando indestrutível pelos corredores, os cientistas descobrem que a coisa do outro mundo (título original do filme) na verdade vem de um planeta onde a evolução foi diferente da nossa, e os vegetais estavam no topo da escala evolucionária, e aquela super cenoura (como um dos próprios cientistas o descreve), pode se adaptar tranquilamente do meio inóspito e se reproduzir de forma acelerada e assexuada, tal como os vegetais, e podendo assim infestar todo o mundo, se escapar do local.

Enquanto Hendry quer dar cabo da criatura antes que tal mal aconteça, o Dr. Carrington quer tê-lo como objeto de estudo e encontrar uma forma de pacificação com a raça alienígena. Claro que o plano do Dr. Carrington vai para as cuias e o voto é pela destruição do monstro, que na verdade é extremamente resistente a tiros e fogo. Um verdadeiro titã do espaço sideral.

Ciranda, cirandinha...

Ciranda, cirandinha…

Apesar de alegadamente ser um filme B, o visual da criatura é realmente assustador, talvez pelo fato de nãa aparecer frequentemente de forma explícita na tela, o que com certeza seria um desastre, mas de ficar andando e espreitando pelos corredores escuros, alimentando o temor dos espectadores e ser visto apenas de relance e em meio à sombra, auxiliado pela opressiva fotografia preto e branca, que aumenta ainda mais o sentimento de clausura e impotência contra o monstro vegetal (interpretado por James Arness). Ponto também para a ótima utilização dos efeitos sonoros em prol do medo, tanto no constante uivar do vento polar lá fora, quanto os urros assustadores da criatura.

A crueldade do alien implacável também é um dos pontos altos do filme, já que ele não tinha a menor dó de acabar com a vida de seus caçadores, tanto que lá paras tantas vamos encontrar dois cientistas mortos, pendurados como carne do açougue, de cabeça para baixo, com todo seu sangue extraído para servir de alimento ao vilão espacial. Além disso a sequência final do filme é muito bem executada, após os envolvidos, militares, cientistas e civis debaterem muito sobre a melhor (e talvez única) forma de conseguir destruir o alienígena: eletrocutando-o.

Claro que O Monstro do Ártico não funciona tão bem como O Enigma de Outro Mundo de Carpenter, ainda mais pensando na plateia de hoje, já que o filme de 1982 tirou toda a aventura e o heroísmo para criar uma obra claustrofóbica e extremamente pessimista, com a criatura tendo o poder mimético de se transformar em outros seres humanos, jogando os homens isolados um contra os outros. Mas ainda assim é um importante exemplar da amálgama entre terror e sci-fi que seriam produzidos a rodo durante essa década, e um dos mais bem sucedidos filmes do período, servindo de referência e influência para diversas obras vindouras.

Frankenstein de outro planeta

Frankenstein de outro planeta


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] de sobrevivência de sua espécie, e dane-se o que pode acontecer com a raça humana, assim como em O Monstro do Ártico, a podreira Robot Monster e o classudo Vampiro de Almas, por […]

  2. […] máxima experiência em terror alienígena. John Carpenter pegou um sci-fi dos anos 50, chamado O Monstro do Ártico, inspirado no livro Who Goes There? de John W. Campbell, e transformou em um dos cinco melhores […]

  3. […] por exemplo, A Mosca, remake de A Mosca da Cabeça Branca e O Enigma de Outro Mundo, remake de O Monstro do Ártico. Todos eles são viscerais, violentos e com doses cavalares de sangue e nojeira, algo que seus […]

  4. […] uma loja de fantasias pela produção do filme. Um dos filmes que Laurie e as crianças assistem é O Monstro do Ártico, que quatro anos depois, seria refilmado por Carpenter, e ganharia o título de O Enigma de Outro […]

  5. […] assim de cabeça, posso citar Os Invasores de Corpos (Vampiro de Almas), O Enigma de Outro Mundo (O Monstro do Ártico), A Mosca (A Mosca da Cabeça Branca) e A Bolha Assassina (A Bolha). Viagem Maldita é mais um que […]

  6. […] da Aranha e O Monstro do Mar e lista entre seus preferidos Frankenstein, O Templo do Pavor, O Monstro do Ártico e O Terror que Vem do Espaço. Isso é bastante […]

  7. […] seus originais. Os outros dois exemplos são O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, remake de O Monstro do Ártico e A Mosca, de David Cronenberg, baseado em A Mosca da Cabeça Branca com Vincent […]

  8. Antonio disse:

    o link para o torrent não esta funcionando

  9. […] em letras garrafais! O mestre John Carpenter pegou outro sci-fi B dos anos 50, O Monstro do Ártico, mais uma alegoria da paranoia comunista, para fazer um filme claustrofóbico, gore, nojento e DO […]

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