663 – Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995)

Se7en

1995 / EUA / 127 min / Direção: David Fincher / Roteiro: Andrew Kevin Walker / Produção: Arnold Kopelson e Phyllis Carlyle, Stephen Brown, Nana Greenwald e Sanford Panitch (Co-produtores), Lynn Harris, Richard Saperstein (Co-Produtores Executivos), Michele Platt (Produtora Associada), Dan Kolsrud, Anne Kopelson e Gianni Nunnari (Produtores Executivos) / Elenco: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, Kevin Spacey

 

Como gosto de enfatizar sempre aqui no blog, eu considero o terror um gênero muito mais amplo do que a maioria gosta de rotulá-lo. Para ser um filme de terror, não precisa exatamente seguir uma fórmula ou padrão pré-determinado. Não precisa ter um monstro, como um vampiro ou um zumbi, ou então um assassino que persegue adolescentes em sonhos ou acampamentos, fantasmas em casas mal-assombradas, ou um culto satânico. O thriller para mim é um subgênero do terror, pois é mais denso e pesado que o suspense convencional e também muito mais assustador e chocante que um filme policial onde detetives perspicazes perseguem um assassino. E Seven – Os Sete Crimes capitais é a obra prima dos thrillers.

O diretor David Fincher assusta muito mais com seu serial killer que utiliza a religião e baseia seu modus-operandi nos sete pecados do que muito filme por aí que bate no peito e se vangloria de ser uma produção de terror genuína. Afinal, diferente de monstros rastejantes, sabemos que tem loucos à rodo assim no mundo.

E toda a fotografia escura do filme (genialmente conduzida por Darius Khondji), toda a inteligência e pencas de citações do roteiro, a ambientação em uma cidade cinza, chuvosa e sem esperança, o clima soturno e imundo criado pelo diretor, as mortes cruelmente executadas e planejadas, assim como a sintonia fina entre a dupla de protagonistas, Brad Pitt e Morgan Freeman, faz de Seven um filme definitivo. Já faz quase 20 anos que foi lançado, e ainda é atual e novo, além de nunca ter existido um filme parecido, com uma narrativa tão impressionante, roteiro tão inteligente e um final tão avassalador.

Orgulho e preconceito…

Dois detetives, o veterano William Sommerset (Freeman), que está há sete dias de se aposentar, e o novato recém-chegado à cidade, David Mills (Pitt) se veem envolvidos na investigação de um terrível assassino, que como já disse, mata suas vítimas inspirado nos sete pecados capitais. A primeira vítima encontrada, que já mostra como o conteúdo que está por vir é realmente pesado, é um sujeito enorme, que está morto com os pés e mãos amarradas e o rosto enfiado dentro de um prato de macarrão.

Durante 12 horas, ele foi obrigado a comer até seu estômago literalmente explodir. Esse foi o pecado da gula. Daí para frente é ladeira abaixo. Após executar outros quatro dos seus crimes, cobiça, preguiça (um dos mais chocantes, onde ele deixa um sujeito por um ano amarrado, deitado em uma cama, definhando e criando escaras, porém mantido vivo por todo esse tempo), vaidade e luxúria, o assassino que utiliza o nome de John Doe (algo como o termo Zé Ninguém utilizado pela polícia de lá) se entrega para enfim trazer a tona a angustiante e terrível cena final, e concretizar seu verdadeiro plano.

Os diálogos do filme são realmente primorosos. Brad Pitt está ótimo e aqui começa a mostrar mesmo que não era apenas mais um rostinho bonito de Hollywood e que poderia fazer papeis incríveis, como posteriormente vimos em Os 12 Macacos, Clube da Luta (também dirigido por Fincher) e Snatch – Porcos e Diamantes, entre outros. A química entre ele e Freeman, que faz o velho policial cansado que tenta controlar o ímpeto do seu substituto, carrega todo o filme nas costas, e até uma atriz que eu acho péssima, a Gwyneth Paltrow, que interpreta Tracy, esposa de Mills, está bem e nos poucos minutos que aparece em tela, consegue trazer uma importância imensa para a trama, principalmente a cena em que ela confidencia a Sommerset que está grávia e o seu medo de trazer uma criança à vida naquela cidade violenta.

Sabe o termo: comer até explodir?

No final do filme, claro que quem rouba a cena é Kevin Spacey, que já havia levado um Oscar por Os Suspeitos nessa altura do campeonato, explicando os motivos que o levaram a praticar aqueles atos hediondos, julgando fazer o trabalho de Deus (afinal, “Ele escreve certo por linhas tortas”, como o próprio assassino frisa) e questionando a real inocência de todas as vítimas, o glutão, o advogado, o traficante, a prostituta, e por aí vai.

Para completar toda essa minha rasgação de seda, há muito de se dar o crédito ao texto do filme, com toda sua conotação religiosa, onde o assassino é culto, estuda livros como Paraíso Proibido de John Milton e A Divina Comédia de Dante Alighieri, além de nos convidar a  tentar entender os seus porquês, a escolha pontual de suas vítmas, admirar toda sua paciência, e assistir apático a tentativa em vão dos detetives em penetrar no labirinto sombrio que é a mente do assassino e antecipar seus passos.

David Fincher para mim é um dos melhores diretores do cinema atual. Eu já havia gostado muito da visão suja e claustrofóbica que ele havia criado em seu longa de estreia, Alien 3. Seven – Os Sete Crimes Capitais é a potencialização das suas aptidões atrás das câmeras. No seu currículo há também os ótimos Cluba da Luta, Zodíaco, e os recentes O Homem Que Não Amava as Mulheres e A Rede Social, para deixar claro como é um diretor inventivo. Claro que teve algumas escorregadas no decorrer da carreira, como em O Quarto do Pânico e O Curioso Caso de Benjamim Button, mas nada que não possa ser relevado.

Aposto que o Sommerset em algum momento pensou: “Estou muito velho para essa, merda”!

Serviço de utilidade pública:

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E o Blu-Ray aqui.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

13 Comentários

  1. […] coisa tivesse a ver com a outra e os dois filmes não fossem completamente diferentes, sendo que Seven – Os Sete Crimes Capitais, continua sendo muito mais filme que Jogos Mortais. Mas ambos com méritos diferentes. Você quer […]

  2. Papa Emeritus disse:

    Aí sim, um filme do Fincher que gosto muito (junto a Clube da Luta e Zodíaco).

    • Só curte esses três, Papa? Eu gosto bastante do trabalho do Fincher. Até Garota Exemplar eu curti!

      • Papa Emeritus disse:

        Eu curto outros, mas esses 3 eu acho acima da média. Só Alien 3 é que eu não gosto. Alien 3 é o tipo de filme que eu já dei várias chances mas ele não desce de jeito nenhum. Sério, não sei qual é o meu problema com Alien 3. Ele não é detestável como Alien Resurrection e os crossovers com o Predador, mas ainda assim é um filme que não consegue me prender.

        • Ah, você até comentou no post do Alien 3 que não gosta dele! Mas acontece, tem vezes que a gente pega ranço de filme e não gosta mesmo. Tipo eu e Drácula de Bram Stoker!

          Abs

          Marcos

  3. Leandro disse:

    Filmaço que não pode faltar na coleção de quem gosta do gênero. Aproveitando, queria dar uma sugestão para os próximos episódios de HorrorCast. Gostaria de ver vocês comentando A Lua Sangrenta de Olaff Ittembach. Abraços

  4. Rafael Diniz disse:

    Filmaço esse. Mas qual o diretor que nunca dá uma derrapada? É raro não ter tropeços no percurso… O Fincher é um dos melhores mesmo, mas Alien 3, pra mim, não é bom não. Passa bem longe disso hehehe… Parabéns pelo blog, Marcos. Sou fanzaço. Abraço.

    • Eu já escrevi aqui no blog, na resenha de Alien 3 o quanto eu gosto desse filme e os meus motivos. Você chegou a assistir o Director’s Cut? Esse com certeza não passa nem perto de uma unanimidade.

      Valeu, Rafael.

      Grande abraço.

      Marcos

      • Rafael Consul disse:

        Eu ando com dificuldade de achar um filme de terror que eu goste como alguns poucos que assisti (e na maioria das vezes só vejo filmes americanos) e queria umas dicas. Gosto de filmes que deixem um suspense bem grande. Um bom exemplo de um filme desse tipo que eu gosto é o filme Identidade onde várias pessoas ficam presas num hotel por que a chuva trancou as ruas ao redor e tem um assassino entre elas que pode ser qualquer um. Sem contar que no filme isso fica implícito mas na realidade não tem um assassino em especial. E sem contar também a história psicológica por trás disso tudo. Agradeço desde já.

  5. Rafael Consul disse:

    Gosto também de A Casa de Cera e A Casa dos Mil Corpos

  6. […] resumir Ressurreição – Retalhos de um Crime de forma tacanha, é só taxa-lo como uma cópia de Seven – Os Sete Crimes Capitais. Afinal temos aqui uma dupla de detetives da polícia de uma Chicago que chove a todo instante, […]

  7. […] Então beleza, vou analisar Hellraiser: Inferno de duas formas. Uma pensando como um filme da franquia, e outro pensando como uma produção independente. Como Hellraiser, é bomba! Como um outro filme qualquer, ele tem seus momentos interessantes se praticarmos um pouco a criatividade e imaginá-lo sem cenobitas e todos os elementos da mitologia de Barker, como um suspense mais parecido com a linha de 8mm, e pitadas de Seven – Os Sete Crimes Capitais. […]

  8. […] coisa tivesse a ver com a outra e os dois filmes não fossem completamente diferentes, sendo que Seven – Os Sete Crimes Capitais, continua sendo muito mais filme que Jogos Mortais. Mas ambos com méritos […]

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