667 – Os Espíritos (1996)

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1996 / EUA, Nova Zelândia / 110 min / Direção: Peter Jackson / Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh / Produção: Peter Jackson, Jamie Selkirk; Tim Sanders (Coprodutor); Fran Walsh (Produtora Associada); Robert Zemeckis (Produtor Executivo) / Elenco: Michael J. Fox, Trini Alvarado, Peter Dobson, John Astin, Jeffrey Combs, Dee Wallace, Jake Busey, Chi McBride, R. Lee Ermey

 

Peter Jackson (que dispensa apresentações) havia adentrado de vez no mercado americano com seu filme anterior, Almas Gêmeas, distribuído por lá pela especialista em indie movies, Miramax, a ponto de finalmente chamar atenção de um grande estúdio (Universal) e de um big produtor (Robert Zemeckis, aquele de nada menos que De Volta para o Futuro) para sua primeira coprodução entre EUA e sua Nova Zelândia natal. O resultado foi Os Espíritos.

Que é um filme bem dos divertidos, que gosto bastante, devo dizer. Claro, não é nada comparado a trasheira mor experimental de Trash – Náusea Total ou dos litros e litros de sangue de porco gastos no escatológico e splatstick Fome Animal. Por se tratar de um filme de estúdio, até com uma pegada mais “família” até certo ponto, com orçamento de 30 milhões de doletas e um astro do calibre de Michael J. Fox como protagonista, nunca aquele gore e nível exagerado de humor negro seria aceito, mas é uma produção que anteviu o domínio de Jackson na narrativa hollywoodiana e na capacidade de sua Weta Digital em mitar nos efeitos especiais, pavimentando o que viria a ser a embasbacante trilogia de O Senhor dos Anéis (e os desnecessários três filmes de O Hobbit).

Afinal, revendo uma fita de 1996, onde hoje, a maioria das produções da década que adoravam abusar na recém-facilidade do CGI parecem terrivelmente datadas (tirando acertos colossais como O Exterminador do Futuro 2, Jurassic Park e vai, até Independence Day), Os Espíritos continua mantendo um nível altíssimo. E fora as situações cômicas pastelão e dos personagens caricatos (até demais), e aquele velho maniqueísmo dos cinema americano, vemos alguns elementos que considero interessantes na obra, no desenrolar da trama que traz a história de um serial killer e sua namoradinha adolescente com seus ímpetos psicopatas que não cessaram com a morte.

Aliás, a história do Johnny Barlett (Jake Busey, absurdamente a cara do seu pai, Gary) e da jovem Patricia Bradley (Nicola Criff quando jovem e a veterana de filmes de horror, Dee Wallace, quando velha) é inspirada no assassino serial Charles Starkweather, que matou 11 pessoas entre o Nebraska e o Wyoming em 1958, acompanhado de sua namorada de 15 anos, Caril Fugate. Detalhe que Barlett era o sobrenome de Velda e Marion, a segunda e terceira vítima do psicopata, e o Johnny se gaba de ter quebrado o recorde do maníaco que o inspirou, matando doze pessoas em um hospital.

De volta para o mundo dos vivos

De volta para o mundo dos vivos

Anos depois, uma série de misteriosas mortes por ataque cardíaco aterroriza uma pacata cidadezinha e acidentalmente o investigador psíquico Frank Bannister (Fox), tido como charlatão pelos moradores, junto de seus parceiros desencarnados, Cyrus (Chi McBride), Stuart (Jim Fyfe) e o Juíz (John Astin), acaba se deparando com uma terrível entidade encapuzada e de foice, que ele julga ser a morte, que vem cravando um número crescente na testa de suas vítimas, e a Dra. Lucy Lynksey (Trini Alvarado), que conhecera após expulsar de sua casa e de seu marido, Ray, (que viria a se tornar uma vítima logo depois), um poltergeist causado por ele mesmo, consta como a próxima a morrer. Claro que vai rolar um casinho aí entre os dois, sempre tem que haver um no cinema mainstream em Hollywood.

Nesse ínterim, descobrimos que a capacidade mediúnica de Bannister surgiu após um acidente de carro que resultou na morte de sua esposa, Debra (Angela Bloomfield), depois de uma discussão, e ele passa a ser o principal suspeito dos assassinatos, investigado pelo estranhíssimo agente do FBI, Milton Dammers (Jeffrey Combs). A ex-namoradinha de Barlett, Patricia, é mantida em cárcere privado por sua mãe, após ser inocentada durante o julgamento que levou à execução do serial killer, e parece estar sendo atormentada por algum espírito maligno, mas vamos descobrir no desenrolar da trama que não é bem assim, e o espírito de Barlett está de volta para continuar sua escalada de chacina, auxiliado pelo seu amor imortal.

Pois bem, temos Michael J. Fox como o mocinho, papel principal e tudo mais (em seu último longa para o cinema, pois logo em sequência ele decidiu abandonar as telonas e se dedicar a sitcom Spin City, antes da deterioração de sua saúdo por conta do Parkinson) mas quem rouba a cena mesmo é Jeffrey Combs! Num papel completamente excêntrico, caricato e despirocado ao limite (muita das ideias foram improvisadas e sugeridas pelo mesmo, incluindo o corte de cabelo à la Hitler e as tatuagens), o ator mais lovecraftiano de todos dá um show. Jackson ficou feliz em tê-lo conseguido no elenco, uma vez que era fã de Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos, que certeza, junto com A Morte do Demônio, o influenciara na sua trajetória cinematográfica iniciada no país do kiwi e seus primeiros longas. Também vale o destaque para Dee Wallace, que da personagem mais dócil da face da Terra – a mãe do Elliot em E.T. – O Extraterreste – se transforma numa maluca psicótica com espingarda de mão cheia!

Dr. West, eu presumo?

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A Universal ficou impressionada com o corte inicial de Os Espíritos e com os efeitos especiais de ponta (que iniciaram a revolução que a Weta Digital sofreria rumo à Terra-Média, saindo de um único computador em seu escritório de FX para 35) que abandonou a ideia de lançar o filme no Halloween de 1996, e antecipou para o verão do mesmo ano, o que fez com que batesse de frente com o arrasa-quarteirão do Roland Emmerich, Independence Day e sua Casa-Branca sendo explodida por alienígenas, resultando num tremendo fracasso de bilheteria nos EUA, conseguindo pouco mais de 16 milhões de dólares.

Entre as curiosidades de Os Espíritos, o papel do fantasma do Sargento Hiles, o militar linha-dura do cemitério obviamente seria uma paródia do Sgt. Hartman de Nascido Para Matar de Stanley Kubrick, e acabou sendo interpretado pelo próprio R. Lee Ermey, uma vez que Jackson não encontrou nenhum neozelandês que se encaixasse; Rick Baker, aquele mesmo de Um Lobisomem Americano em Londres foi o responsável pelos efeitos de maquiagem do Juíz; e tanto Michael J. Fox (que foi a primeira e única escolha de Jackson quando Zemeckis ventilou seu nome para o papel) quanto o compositor Danny Elfman toparam participar do filme devido ao tanto que gostaram de Almas Gêmeas. Além disso, o roteiro originalmente seria para um episódio de Contos da Cripta, mas Zemeckis (que também era produtor executivo da série) gostou tanto que resolveu transformá-lo em um longa.

Os Espíritos é descompromissado e divertido e vale muito bem o tempo gasto em frente a televisão para revisitá-lo (principalmente por Jeffrey Combs!), apesar de se mostrar um tanto quanto água com açúcar e diversão familiar. E prova por A + B que Jackson saberia muito bem o que fazer como Frodo Bolseiro & cia dali a alguns anos depois.

Don't fear the reaper

Don’t fear the reaper

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Os Espíritos está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

3 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Eu gosto desse filme, mas acho ele bem marromeno. Mesmo assim vale dar uma conferida.

  2. Eu acho esse filme bem “méh” mas é divertido, vale a conferida. Bela resenha. Aliás, galera, o ano de 97 está por vir, por favor comentem sobre “O Mestre dos Desejos”. Direção do Robert Kurtzman, produção do Craven e participação do Englund. Queria muito ver vocês falarem desse filme! Continuem esse trabalho FODA! 😀

  3. […] Bom, um dos grandes chamarizes de Anaconda foram os “efeitos especiais”, grande aposta do longa, porque não dá para levar a sério o roteiro vagabundo, das atuações ridículas de todo o elenco e da direção do peruano Luis Llosa (primo do escritor ganhador do Nobel Mario Vargas Llosa), que é um desastre e não consegue nem criar um ambiente assustador no meio da Selva Amazônico em detrimento das panorâmicas ao melhor estilo Discovery Channel ou closes na fauna e flora, com aquela musiquinha de flauta inca ao fundo. Mas fato é que o CGI e o animatronico da sucuri são bisonhos! Não venha me falar que para a época era revolucionário e blá blá blá porque diversos outros filmes contemporâneos ou anteriores tiveram efeitos especiais muito melhores, como Jurassic Park, Independence Day, MIB – Homens de Preto ou Os Espíritos. […]

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