679 – O Iluminado (1997)

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The Shining

1997 / EUA / 270 min / Direção: Mick Garris / Roteiro: Stephen King (baseado em seu livro) / Produção: Mick Carliner; Laura Gibson (Produtor Associado); Laura Gibson (Supervisora de Produção); Stephen King (Produtor Executivo) / Elenco: Rebecca De Mornay, Steven Webber, Will Horneff, Courtland Mead, Melvin Van Peebles, John Durbin, Pat Hingle, Elliott Gould

 

Eu sei que eu serei apedrejado em praça pública pelo que irei dizer, mas prefiro essa versão minissérie para a TV de O Iluminado do que o filme de Kubrick de 1980.

Okay, não estou dizendo como cinema, mas sim como adaptação do livro de Stephen King. E todos vocês podem discordar de mim, mas sei que o pai da criança está comigo nessa. Afinal, é público o quanto ele odeia a versão de cinema, e até hoje disparas suas farpas assim que possível. Li recentemente “Doutor Sono”, a tão esperada continuação de seu livro, e em suas considerações o mestre do terror escreve: “Além disso, é claro, há o filme de Stanley Kubrick, que muita gente parece recordar – por motivos que nunca cheguei a compreender – como um dos filmes mais aterrorizantes que já viram. (Se você viu o filme, mas não leu o livro, repare só que Doutor Sono segue este último, que é, na minha opinião, a verdadeira história da família Torrance”.

Bom, sabemos que é uma produção feita para a ABC, ou seja, nunca terá os mesmos recursos visuais e orçamento de um filme hollywoodiano, ainda mais que estamos falando lá dos anos 90 e na TV não existia produções fodidas como da HBO e no Netflix. Sabemos igualmente que Mick Garris é um diretor dos mais meia-boca, que não chega no dedinho do pé da genialidade de um Stanley Kubrick. Então mais uma vez não estou analisando a obra cinematográfica e toda sua experiência visual incrível, design de produção, semiótica, fotografia e tudo que lhe rendeu o status de obra-prima.

Mas a questão é que O Iluminado de Kubrick peca exatamente por não capturar a essência do livro de King, que é sem sombra de dúvida, para mim pelo menos, o melhor que ele já escreveu. Em conversas sobre filmes versus livros, sempre surge na discussão que ambos são duas mídias diferentes, óbvio, e adaptações ipsis literis são praticamente impossíveis e até desnecessárias. Mas uma coisa é você manter a essência da obra impressa, capturar o seu espírito, algo que Kubrick simplesmente estava cagando.

Venha brincar com a gente, beiçola!

Venha brincar com a gente, beiçola!

Aqui não temos um Jack Nicholson, mesmo que caricato com sua ensandecida atuação forçada, mas em seu lugar, um até esforçado Steve Webber como Jack Torrance, mas a construção do personagem (claro, sem levar em conta a metragem) é infinitamente melhor do que do ator consagrado ganhador do Oscar®. Nicholson já CHEGA com cara de louco na entrevista com o Sr. Ullman e tudo já está errado logo a partir daí. Ao que parece, a crise que ele tem no Overlook parece mais um cabin fever do que a ação dos fantasmas ali residentes.

Aliás, o Overlook é personagem central do livro, e tão protagonista quanto a família Torrance, com um histórico de escândalos, suicídios, assassinatos, acertos de contas da máfia. Por isso o lugar é maldito (além de ter sido construído em cima de um cemitério indígena, expediente que King adora!). Tudo isso é mandados às favas em O Iluminado de Kubrick, e aqui muito bem explorado. A Wendy Torrance de Rebecca De Mornay que também é uma atriz série B, engole com farinha a louca histérica, fraca e sem personalidade de Shelley Duvall, talvez uma das maiores reclamações de King, uma vez que ele escrevera uma mulher forte que aguenta o tranco de uma vidinha miserável e de abusos.

Insuportável é Courtland Mead como Danny Torrance. Eu não sei o porquê, mas odeio aquelas bochechas dele, aquela boca dele e a forma manhosa como ele fala às vezes, além da atuação bem abaixo da nota!!!! Odeio!!! Mas pelo menos ele não conversa com o Tony versão dedinho… Aliás, se tem uma coisa que é foda na livre adaptação de Kubrick são os passeios de triciclo de Danny pelos corredores labirínticos do Overlook e a adição das meninas mortas, filhas do antigo zelador. E vai, Jack usar um machado ao invés de um mísero taco de críquete, mas isso já arrebenta com o destino de outro personagem importantíssimo e querido: Dick Halloran.

Muito tempo dentro da banheira dá nisso...

Muito tempo dentro da banheira dá nisso…

King resolveu escrever o roteiro de O Iluminado de 1997 e também é o produtor executivo da bagaça, então veremos uma versão fidedigna de seu livro. E sua maior adição, além de dezenas de coisas que Kubrick deixou de fora (a caldeira, as topiarias, etc), é o fato de explorar o alcoolismo de Jack, e como isso vai levando-o a ruína, sobrepujado pela terrível influência sobrenatural do lugar. Que aliás, foi inspirado no próprio problema alcóolico que o escritor vivia no momento em que escreveu a história.

E esse é o grande barato de O Iluminado. As falhas humanas, os problemas conjugais daquele casal, o desespero de um homem que destruiu sua vida por causa do álcool e tem naquele emprego de merda de zelador de um hotel de veraneio, a última chance de sua vida, completamente sob pressão, sempre vivendo na sombra da desconfiança constante da mulher, e culpando-se pelos traumas em seu filho, que como se não bastasse, tem poderes pré-cognitivos e irá passar o inverno isolado em um lugar MUITO mal-assombrado.

Dispondo de nada menos que 270 minutos de duração, dividido em três partes, King deitou e rolou para mostrar a degradação psicológica de Jack, e isso demora pacas, num perfeito processo de slow burning, e se Steven Webber, seus pares de atuação, a cara de Made for TV e os efeitos toscos das topiarias, e a costumeira apatia de Mick Garris e falta de inventividade na direção não ajudam muito, pelo menos o roteiro, seu desenvolver e toda a trama prendem o espectador no aspecto psicológico, que é o que realmente interessa numa obra de horror. Muito mais que afetados sorrisos de escárnio, imitações de Johnny Carson ou elevadores que cospem sangue.

Sou defensor ferrenho desse O Iluminado. Gosto da versão do genial Kubrick, considero clássico, obra prima do cinema, aula de audiovisual, de meter medo de verdade, pago pau para a insanidade de Nicholson em algumas cenas, mas sou fã para caralho do livro de King acima de tudo, e mesmo que corra o risco de até perder leitores por esse post (que espero ter embasado muito bem todos os meus motivos), reafirmo: prefiro essa obra menor e menosprezada, mas que condiz muito mais ao que o Mestre escrevera.

Who is Johnny?

Who is Johnny?

Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Iluminado está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

25 Comentários

  1. joaoprs disse:

    Aproveito o espaço para indicar o ótimo documentário Room 237 sobre as diversas interpretações do que Kubrick quis dizer com seu filme.

    Ótima crítica, chefe!!! (Também ODEIO as bochechas do moleque…kkk)

  2. Rodrigo disse:

    Vlw cara, obrigado!

  3. Paulo disse:

    Pensei que vc iria malhar esse também. Pelo contrário, vc adora. Sou alucinado por essa versão e pela do Kubrick.

  4. Papa Emeritus disse:

    Não gosto do livro (sim, eu li) e detesto a série. Mas AMO o filme do Kubrick. Da mesma forma que você acha Frankenstein de Mary Shelley mal escrito, mas gosta do clássico com Boris Karloff (que também gosto), acho o livro do King extremamente maçante. Engraçado que eu gosto de “A Coisa” (It) que tem o dobro de páginas do Iluminado, mas gosto é gosto.

  5. “Além disso, é claro, há o filme de Stanley Kubrick, que muita gente parece recordar – por motivos que nunca cheguei a compreender – como um dos filmes mais aterrorizantes que já viram.”
    NOSSA, FALOU O CARA QUE ESCREVEU E DIRIGIU “MAXIMUM OVERDRIVE”!

  6. Sandra disse:

    Acho o filme do Kubrick confuso. Já assisti várias vezes mas sinto que falta alguma coisa, É muito visual e estético mas me passa a ideia de que o diretor não se preocupou em amarrar a história porque todos já a conheciam. Nem acho tão aterrorizante.

  7. Iury disse:

    Eu realmente estou fascinado por esse site, um trabalho incrível, estou muito grato, estou começando a apreciar filmes realmente antigos, filmes que eu não fazia idéia do quanto são bons, obrigado.

    • Oi Iury. Poxa muito obrigado!!!!! Espero que você continue acompanhando e curtindo os filmes antigos e todas as coisas inéditas para você que eu postar por aqui.

      Abs

      Marcos

  8. Mariane disse:

    Gente, adicionem também outro servidor para download. Tipo o MEGA.
    Seria ótimo.
    Obrigada por esse site maravilhoso.
    Sucesso!

  9. Anderson Silva disse:

    Só esse screenshot da mulher na banheira já vai me perturbar por um tempinho! XD
    Já tinha ouvido falar desse filme e nunca dei chance pra ele, mas depois dessa resenha vou dar uma olhada. Sempre é bom uma opinião a mais. Valeu!

  10. Marcio Nunes' disse:

    O link do download não parece com muitas fontes. Tem algum outro? Abraço.

  11. […] da Morte, também de King, e fez a voz do pai de Jack Torrance no rádio, na versão televisiva de O Iluminado, é um repórter de um jornal sensacionalista chamado Inside View, que é tipo um Notícias […]

  12. Matheus L. CARVALHO disse:

    Conheci esse filme no VHS de “Marte Ataca!” – era um dos trailers antes do filme – e me interessei rapidamente.
    Porém, só o conheci de verdade quando o aluguei na locadora perto de casa – era uma caixa de VHS’s duplos da Warner, já que eram duas partes – e, logo de cara, me assustei pra c— com praticamente todas as cenas – destaque para a cena da banheira – , mas, mesmo assim, gostei pra caramba do filme. Sempre aluguei legendado, porque é melhor!
    A partir daquele dia – final do ano de 2002 – alugá-lo e assisti-lo no fim do ano virou uma espécie de tradição até a fita desaparecer de circulação.

    Desde então, passei a procurar como doido, conseguindo algumas vezes, mas, era obrigado a deletar o arquivo.
    Atualmente, tenho a minissérie baixada em meu computador.

    De quebra:
    Comprei e li O ILUMINADO recentemente, e, devo dizer: consegui encontrar MAIS semelhanças com este filme do que com o clássico de Kubrick – apenas uma cena.
    Mas isso não impede nada.

    Quer uma dica:
    LEIA O LIVRO
    ASSISTA AO CLÁSSICO DE KUBRICK
    LEIA O LIVRO
    ASSISTA ESTA VERSÃO

    Super-filme!

    Abraço,
    Marcão!

  13. Leticia disse:

    AMO esse filme, mas fiz o download e ele não veio com legenda :/
    Tentei colocar no player uma que eu tinha aqui porém não deu muito certo também, já que não tá sincronizado.

  14. Nilson Augusto de Oliveira disse:

    gostaria muito de ter ou ao menos assistir o filme O Iluminado 1997. Alguém sabe como consigo ?

  15. Giuliana Lima disse:

    Concordo plenamente com você. O filme é muito vago, sem noção, esquisito e falho, só entendemos bem porque lemos o livro. Geralmente sou revoltada porque acho que os filmes baseados em livros são tremendamente mal feitos, nunca tinha visto um filme baseado em livro que eu gostasse, até essa obra. A minissérie é tremendamente melhor, a única que eu conheço que realmente chegou aos pés do livro.

  16. Thiago disse:

    Cara, que crítica formidável. Concordo contigo em tudo. O iluminado e A Coisa pra mim são os dois melhores livros do King. Gostaria de lhe agradecer por ter disponibilizado essa versão rara de O Iluminado (1997). Foi realmente um serviço de utilidade pública porque já rodei a internet de ponta a ponta e é extremamente difícil de conseguir um torrent válido pra baixar essa versão. Agradeço demais cara. abraço.

  17. Lucas disse:

    Omde eu acho essa versão feita pelo King, não encontrei em lugar nenhum

  18. Juliana Helena de Brito Silva disse:

    Esse filme com certeza é bem mais fiel ao livro que o primeiro.. Simplesmente amo essa versão. Que por mim dá de 10 à 0 na primeira!

  19. Analine Borges Cirne disse:

    Concordo totalmente com você. Na versão de 1997… É como se a gente estivesse lendo o livro! Quando o assisto, tenho as mesmas sensações que tenho com a leitura do livro. O suspense, o terror psicológico se construindo pouco a pouco, nada de pontas soltas. Foi muito mais fidedigno. Eu prefiro um enredo mais bem trabalhado a uma melhor fotografia e audiovisual.

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