692 – Ring – O Chamado (1998)

Ringu / Ring

1998 / Japão / 96 min / Direção: Hideo Nakata / Roteiro: Hiroshi Takahashi (baseado no livro de Kôji Suzuki) / Produção: Takashige Ichise, Shin’ya Kawai  e Takenori Sentô, Makoto Ishihara (Produtor Associado), Masato Hara (Produtor Executivo) / Elenco: Nanako Matsushima, Miki Nakatani, Yûko Takeuchi, Hitomi Satô, Hiroyuki Sanada

 

Nada consegue se comparar a experiência assustadora de ver Sadako saindo da televisão da primeira vez que se assiste Ring – O Chamado, ou Ringu, no original. E foi através desse sucesso de bilheteria no Japão, que ganhou uma tremenda força internacional, que o cinema de terror oriental tornou-se um fenômeno pop e deu origem ao subgênero conhecido como J-Horror, sinônimo de ótimas e tenebrosas produções no final dos anos 90 até meados dos anos 2000.

A porteira que Ring – O Chamado abriu fez com que uma enxurrada de filmes orientias fosse produzida, alguns simplesmente excelentes, outros só mais da mesma história das meninas fantasmas cabeludas, e obtessem seu espaço no mercado ocidental e consequentemente, ganhassem suas refilmagens americanas, já que o povo da terra do Tio Sam detesta assistir filme em outra língua e legendado. E foi isso que aconteceu com essa produção, baseada no livro de Kôji Suzuki, uma espécie de Stephen King nipônico: ganhou um remake, O Chamado, muito mais conhecido que sua versão original. E apesar de ser um excelente filme também, não se compara ao clima sinistro que a versão japonesa carrega, que não apela para efeitos especiais e sustos baratos com o aumento repentino do som.

Dirigido por Hideo Nakata, que também seria responsável por outro hit do J-Horror, Dark Water – Água Negra (igualmente refilmado pelos yankees, dessa vez com o brasileiro Walter Salles na direção), a trama do filme gira em torno de uma lenda urbana, onde aqueles que assistem uma determinada fita VHS recebem um telefonema anunciando que morrerá dentro de sete dias. E após uma semana passada, é batata: a pessoa morre e é encontrada com uma terrível expressão de medo no rosto. E é exatamente isso que acontece com duas adolescentes logo na primeira cena do filme, sendo que uma delas viu a fita com mais três amigos em um chalé e ela, assim como os demais, morrem nessas circunstâncias misterioras.

Reiko Asakawa, jornalista tia da garota que morreu, resolve começar a investigar o caso ao encontrar conexões da morte da sobrinha com essa lenda urbana. Para ir a fundo na sua investigação jornalísitca, hospeda-se na mesma cabana e assiste a tal fita, que mais parece um pesadelo sintonizado de alguém. Claro que o telefone toca e ela recebe a mórbida notícia que só tem mais sete dias de vida. Junto com seu ex-marido, o professor Ryuji Massami, a quem também mostrou uma cópia da fita, resolvem tentar descobrir uma forma de impedir a maldição, principalmente depois que o filho do casal, o pequeno e independente Kôichi, assiste acidentalmente ao vídeo.

Carol Anne???

Diferente da sua versão americana, o ritmo de Ring – O Chamado é muito mais lento, e isso é uma característica do cinema oriental em si, o que pode desagradar àqueles que estão acostumados com o jeitão enlatado norte-americano. Mas em compensação é muito mais tenso e assustador. A investigação dos dois protagonistas é sempre pontuada por simbolismos e elementos sobrenaturais, inclusive um certo poder pós-cognitivo de Ryuji, que dá uma forcinha para o roteiro andar e que se consiga chegar a algumas respostas para eles tentarem salvar suas peles. No final, de uma forma nem um pouco óbvia, as pontas vão sendo amarradas para que seja apresentada ao espectador a assustadora Sadako, mas sem uma explicação manjada.

Sadako é fruto das próprias lendas japonesas, influenciadas por sua religião, em grande parte budista e xintoísta, transportada para o mundo moderno, passada de gerações a gerações de distintas formas, desde contos sobrenaturais orais até dramatizações no próprio teatro Kabuki. Ela personifica a presença do fantasma vingador, vítima detentora de uma força implacável, onde encontrar seu corpo, recitar um cântico ou parar para ouvir e entender seus desejos, não será o suficiente para impedir essa entidade maligna, muito mais poderosa e longe de qualquer alcance da nossa compreensão mundana. Tanto que o final é extremamente pessimista e você vê que os personagens estão em um círculo sem fim, onde para conseguir aplacar essa fúria, são obrigados a passar a maldição para frente, condenando outras pessoas ao mesmo infortúnio.

E a tal mítica cena de Sadako saindo de dentro do poço, com seu longo e escorrido cabelo negro jogado sobre o rosto, caminhando de forma bizarra, quase como se fosse um efeito especial corporal ambulante, e rastejando como uma contorcionista para fora do tubo da televisão, é um das mais assustadoras de toda a história do cinema. Você não está preparado para aquilo. Por mais que já tenha assistido toneladas de filmes de terror, o impacto daquela cena é de gelar a espinha de qualquer um.

Se você nunca assistiu ao Ring – O Chamado original, está perdendo uma verdadeira obra prima do terror moderno.

TV 3D!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Ring – O Chamado está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] sucesso de Ring – O Chamado de Hideo Nakata foi o responsável pela popularização do gênero J-Horror não só no Japão como […]

  2. […] diferente do que vínhamos vendo até então nas narrativas mais estendidas e sóbrias como em Ring – O Chamado e Ju-On – O Grito, por exemplo. E quando chega no terceiro ato e você pensa que está tudo […]

  3. […] do stablishment causado pelo J-Horror moderno, principalmente após o sucesso estrondoso de Ring – O Chamado de Hideo Nakata, O Gato Preto é calcado em uma elegância visual peculiar, investe no terror […]

  4. Diego disse:

    O link não funciona mais.
    Dá pra concertar?

  5. joaoprs disse:

    Não me lembro de quase nada desse filme, mas tenho a lembrança (vaga) de que não gostei muito.

    Acho a versão americana tão legal que talvez tenha feito comparações entre dois produtos. Os dois tem a mesma premissa, mas são – culturalmente – muito distantes.

    Adoro a fotografia azulada/acinzentada de Seattle, adoro a chuva que não para, adoro a Naomi, adoro a direção do Gore, adoro a trilha do Hans Zimmer…Deu para perceber como curto a versão americana. Kkk

    Vou me permitir redescobrir essa versão de “O chamado” agora que estou um pouco mais “maduro” (bem pouquinho) para apreciar as sutilezas que eu não entendia.

    Obrigado, Chefe!

    • Depois conte o que achou ao assisti-lo novamente! 😀

      • Numa era pré-internet banda larga, é óbvio que eu assisti esse depois da versão americana. Mas, como sempre fui familiarizado com o cinema oriental desde criança, graças aos tokusatsus (volta e meia algum longa oriental chegava nas locadoras, e como eu curtia coisas de lá, corria pra alugar), definitivamente esse aqui é muuuuito mais assustador. Primeiro, porque não apela pra efeitos digitais fajutos pra causar medo (a aparência da Sadako-cover é simplesmente intragável após ver esse aqui, e sem falar na expressão dos cadáveres. Esse original deixa claro que as vítimas morreram do mais puro e terrível medo, diferente de sua contraparte, com aquela bocarra escancarada e azulados), e segundo porque, justamente por conta da própria personagem ser baseada no folclore japa, coisa que estou familiarizado, diferente daquela pataquada que foi o roteiro gringo, sem falar nas atuações, muito mais contidas e condizentes com uma situação tão absurda quanto um fantasma que sai matando gente por aí. Gosto muito do ocidental, apesar de não sentir medo com ele, mas quando vi esse aqui… cagaço total. xD

    • Gisele Vicentim disse:

      Assisti esses dias e infelizmente não me agradou muito, talvez isso porque assisti a versão americana e o filme prende muito mais do que o original, t lvez sim seja porque já sabia a história, mas o filme é bem lentinho, de forma que não prende a atenção, mas vale assistir por ser o original

  6. Papa Emeritus disse:

    Vi em VHS esse filme. Ótima película. E vou confessar uma coisa, eu NUNCA vi a versão americana. kkkkkkkkkkkkkkk. Acontece que a versão japonesa chegou as minhas mãos antes do remake americano e até hoje tenho receio de assistir ao que os americanos fizeram. Mas já que você tá dizendo que é bom, acho que vou finalmente conferir o remake.

    Abraços!

  7. Andrigo Mota disse:

    cagaço master esse filme

  8. […] apesar de ser menos conhecido e muito mais marginalizado que seus pares mais famosos, como Ringu – O Chamado, Ju-On – O Grito e Dark Water – Água Negra, por […]

  9. […] 2) Ring – O Chamando (1998) […]

  10. […] Ringu de Hideo Nakata ainda é MUITO superior, mas o grande trunfo de O Chamado é que, apesar de suas […]

  11. […] diferente de seus pares do mesmo período, incluindo aí o próprio Ring – O Chamado, igualmente dirigido por Nakata e baseado em um livro de Kôji Suzuki, o tal “Stephen King […]

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  13. […] tecnologia em contraponto das tradições milenares orientais (nesse caso o telefone celular, como Ring – O Chamado já havia feito com as fitas VHS e Dark Water – Água Negra com prédio de apartamentos), seu […]

  14. […] supera Ring – O Chamado de Hideo Nakata e muito menos a Sadako saindo da televisão, mas a versão americana de Gore […]

  15. […] diferente do que vínhamos vendo até então nas narrativas mais estendidas e sóbrias como em Ring – O Chamado e Ju-On – O Grito, por exemplo. E quando chega no terceiro ato e você pensa que está tudo […]

  16. […] até meados dos anos 2000. Dois desses filmes ficaram extremamente famosos para o resto do mundo: Ring – O Chamado e Ju-On – O Grito, tanto que até ganharam versões na terra do Tio […]

  17. […] uma série de filmes de terror japoneses (ah, vá), produzidos por Takashige Ichise (o produtor de Ring – O Chamado, responsável por começar a porra toda), onde ele escolheu seis diretores diferentes para cada um […]

  18. […] já vou avisando de antemão: se você é fã do J-Horror moderno, graças a fitas como Ring – O Chamado e Ju-On – O Grito, e principalmente suas refilmagens americanas e estiver esperando um filme […]

  19. […] familiar, algo também salientado no filme de Nakata, baseado no livro de Kôji Suzuki, tal qual Ring – O Chamado, e apoiado pela excelente interpretação de Connelly como a mãe solteira, cheia de problemas […]

  20. Anderson Morgan disse:

    Ótimo review
    só um toque! Esse filme não está fora de catálogo! Pode ser encontrado em vários sites aqui no Brasil… Foi lançado pela Focus Filmes e conta inclusive com uma versão dublada ‘o’

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