695 – A Bruxa de Blair (1999)

The Blair Witch Project

1999 / EUA / 81 min / Direção: Daniel Myrick, Eduardo Sánchez / Roteiro: Daniel Myrick, Eduardo Sánchez / Produção: Rob Cowie e Greg Halle, Michael Monello (Co-produtor), Bob Eicke e Kevin J. Foxe (Produtores Executivos) / Elenco: Heather Donahue, Michael C. Williams, Joshua Leonard

 

 

Você se lembra do ano de 1999? Então provavelmente também se lembra do sucesso tremendo que A Bruxa de Blair fez. Como tudo aquilo era novo e realmente assustador. Toda aquela campanha de marketing utilizando a Internet era uma baita novidade. A ideia de que o filme eram as supostas fitas encontradas dos três estudantes de cinema perdidos na floresta era de gelar a espinha.

E estou falando de uma época em que não existia uma enxurrada dos chamados “mockumentaries”, ou falsos documentários, como REC, Cloverfield – Monstro, Atividade Paranormal, e TANTOS outros (e olhe que só estou citando os bons aqui, e não as bombas, tipo A Forca). A única coisa perto dessa ideia de cinema verité que já havíamos visto no gênero era Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato, no início dos anos 80, ou Aconteceu Perto de Sua Casa no começo da década de 90. E a ideia de A Bruxa de Blair era se virar com um orçamento ridículo e subverter a ordem natural do cinema de horror, onde por mais que o espectador buscasse sentir medo e ser ameaçado, ele estava seguro em sua poltrona, com o contato o mais distante possível dos personagens. Aqui você, eu e todo mundo que assiste A Bruxa de Blair é testemunha ocular, está ali vendo (ou melhor, não vendo) o mesmo que os protagonistas, e exposto aos mesmos apuros e medos que eles.

O começo do filme, sem créditos iniciais, sem trilha sonora, já alerta o espectador sobre a origem das filmagens: “Em outubro de 1994, três estudantes de cinema desapareceram na floresta próxima a Burkittsville, Maryland, enquanto filmavam um documentário… Um ano depois as imagens foram encontradas”. Esses três estudantes são Heather, Michael e Joshua, que resolvem fazer o documentário sobra uma antiga lenda da cidade de Burkittsville, ex-Blair. Após o desaparecimento de várias pessoas nos arredores da floresta Black Hills, Elly Kedward, a suposta bruxa, foi tida como responsável e banida em 1785.

Pela estrada afora…

Após seu banimento, várias crianças desapareceram da cidade, o que alimentou a lenda de que elas eram levadas para a cabana da bruxa na floresta, que as matava de duas em duas, sempre deixando uma virada para a parede enquanto executava a outra. Na década de 40, um assassino chamamdo Rustin Parr alega inocência no tribunal dizendo estar mancomunado com o espírito da bruxa. Além disso, há uma testemunha ocular, uma maluca chamada Mary Brown, que jura de pé junto ter visto a bruxa e que ela tinha o corpo todo coberto de pelos, dos pés a cabeça.

Enfim, essa mitologia inteira foi criada pelos diretores Daniel Myrick e Eduardo Sánchez para tentar corroborar ainda mais a tal autenticidade do filme. Os três documentaristas se embrenham na mata em busca de cenas para compor seu trabalho, quando inevitavelmente se perdem e começam a vivenciar experiências assustadoras, como escutar sons bizarros durante a noite e encontrar montes de pedras empilhados do lado de fora da barraca e galhos misteriosos em formato de bonecos pendurados nas árvores. E tudo sem desligar a câmera nervosa, que alterna entre cenas em preto e branco e colorido, mostrando além dos perigos sobrenaturais subentendidos, a degradação psicológica dos personagens, que perdidos e desamparados, partem para brigas e discussões intermináveis, choros e gritos de desespero, que vão aumentando ainda mais a angústia e a tensão dividida de forma igual com o público também imerso naquele ambiente.

Os próprios atores eram ilustres desconhecidos, pessoas comuns como eu você, que usaram até seus nomes verdadeiros como seus personagens. Eles mesmos foram os cinegrafistas e tiveram de aprender a manejar câmera e áudio para aumentar ainda mais a verossimilhança do filme, fora uma quase sádica tática de guerrilha imposta pelos diretores. Os atores foram jogados a esmo na floresta, munidos de um GPS e partes do roteiro. A equipe então se encumbiu de criar todo o clima para meter medo nos coitados (e na gente), fazendo ruídos estranhos, gritos e barulhos durante a noite, e até mesmo atacando a barraca onde eles acampavam. E fora isso, foi dada total liberdade de improviso em diálogos e cenas.

Os estilingues gigantes da bruxa.

Assistir A Bruxa de Blair hoje em dia com certeza não traz o mesmo impacto de vê-lo pela primeira vez lá no final dos anos 90, no cinema. Eu estava lá, um adolescente com seus 17 anos, sozinho no cinema assistindo ao que estava sendo uma baita experiência cinematográfica e compartilhando daquele medo e tensão com todos os outros ali presentes. Quando o filme termina, você fica um pouco perplexo com o final abrupto, mas ao mesmo tempo sente um baita alívio por as luzes terem se acendido. E isso é o grande charme d’A Bruxa de Blair e que o faz ser horripilante.

Hitchcock já havia ensinado que mete muito mais medo o que a gente não vê, do que realmente vê. Não há um monstro maquiado, ou um efeito especial ou sonoro para dar susto. É o medo, cru, primal do desconhecido. E muita gente sentiu esse medo, porque A Bruxa de Blair foi um estouro de bilheteria. Uma produção baratérrima que gastou 60 mil dólares para ser rodado em oito dias, faturou mais de 240 milhões em todo o mundo e tornou-se um verdadeiro fenômeno do horror e uma aula de como fazer uma campanha de marketing, como explorar o poder da Internet e seus grupos de discussão na época (o que hoje seriam as redes sociais) e como fazer o boca a boca realmente trabalhar em prol do sucesso de uma produção.

Mas a maldição da bruxa recaiu sobre os inventivos e originais diretores do filme. Após a enorme febre e o sucesso astronômico, logo foram cotados como os próximos grandes nomes do cinema de horror. Mas o que se veio foi uma malfadada sequência caça-níquel (mesmo que não dirigida por eles), e ambos haviam sido contratados pela FOX para desenvolver uma série no ano seguinte, chamada Freakylinks (alguém lembra?), que foi um fiasco. E até hoje, passados 15 anos não conseguiram engatar sequer um projeto decente no cinema. A bruxa realmente ficou solta.

Desculpe…desculpe…

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] a rodo? Que Já tem até exemplo produzido no Brasil? Foi Deodato o percussor. Pois é, antes de A Bruxa de Blair virar um fenômeno cinematográfico e de marketing, Cannibal Holocaust já trazia esse conceito de […]

  2. […] pela Internet e pelas redes sociais, algo extremamente parecido com o que havia acontecido com A Bruxa de Blair há exatos dez anos, e vendo o enorme potencial da produção em mãos, a Paramount começou a […]

  3. Alá eu, naquele ano de 1999, 18 anos recém-completados, e invento de assistir esse negócio sozinho de madrugada, ainda em VHS (DVD era caro pra burro, ainda estava engatinhando a tecnologia no Braziu e nos rincões do Acre esse tipo de filme não vinha). Resultado: quase uma semana sem dormir direito e um impulso febril de ir até aquela floresta caçar a desgraçada da bruxa que nem forma tinha mas que me povoava os pesadelos. E por anos eu acreditei na história, já que eu não tinha acesso a internet, e só soube do embuste quando alguns amigos me contaram. Saudades de sentir um cagaço daquele tipo. Infelizmente hoje em dia não acho nada que o faça (o mais perto que cheguei foi com o jogo do Slender…), e gore apenas me deixa entediado pela gratuidade, não chocado. xD

  4. Andrigo Mota disse:

    Cara…ficava tonto com o filme, mais do que ja sou, pelas corridas. O fato de não mostrar nada de bruxa, foi frustrante demais.
    Foi o maior golpe publicitario ever.

    Nao era cagaço, e sim o “cade a porra da bruxa?”

  5. Ramon disse:

    Eu acho que sou a única pessoa que odeia esse filme. Kkkk

    • Leonardo disse:

      Eu vi no cinema também e na época foi frustrante. Claro, um pré-adolescente de 12 anos que era fã dos slashers do final dos anos 90, fui esperando ver uma Bruxa matando geral na floresta das piores formas possíveis, dado os comentários de ser um dos filmes mais “assustadores” de todos os tempos. O filme pegou melhor nos EUA, pois lá que teve toda essa campanha na Internet e inclusive foi exibido um documentário sobre a Bruxa dias antes da estreia. Aqui o público foi assistir meio que “a ver navios”, eu pessoalmente na época nao conheci ninguém que foi assistir esse filme e gostou. Só depois no VHS mesmo que fui compreender o real valor do filme, e tempos depois, já na era do DVD, pude assistir ao tal documentário que foi exibido nos EUA antes da estreia, o que me fez gostar ainda mais do filme.

  6. Papa Emeritus disse:

    Eu assisti no cinema, e lembro de ter gostado do filme na época. Mas revendo ele depois de anos ele não é mais atraente. Se ele tivesse algo a mais do que “criar tensão” talvez hoje eu ainda gostasse dele. Mas não, o filme só se resume a criar tensão, e com o tempo a gente sabe que o medo e a tensão se diluem. E o que sobra? Eu ainda gosto de filmes mais clássicos porque esses souberam não apenas trabalhar o medo, mas sim também história, personagens, além de alguns deles usarem linguagem metafórica. E eu sinceramente não consigo ver esses outros atributos em Bruxa de Blair. Em termos de filme de “Bruxas”, ou com bruxaria, eu ainda fico com Suspiria do Dario Argento.

  7. Rafael Diniz disse:

    Eduardo Sánchez fez dois filmes que merecem uma conferida, são eles: Altered, uma ficção científica massa pacas e Exists, ‘O’ filme de Pé Grande.

    Abraços.

  8. guilherme disse:

    por favor, desponibilizem os filmes kill list(2011) e a noite da caçada(1980) são otimos

  9. […] e sucessos de público e crítica lá no seu último ano de década (valeu O Sexto Sentido e A Bruxa de Blair), o filme que abre os 00’s é o thriller alemão Anatomia, que pode parecer bem uma exibição […]

  10. […] O filme que apresenta uma premissa mais do que “original” possuí influência direta de A Bruxa de Blair  e também será nos moldes mockcumentary e obviamente found footage para alegria dos fãs do […]

  11. André Venthura disse:

    Link para baixar está invalido

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