703 – O Sexto Sentido (1999)

The Sixth Sense

1999 / EUA / 107 min / Direção: M. Night Shyamalan / Roteiro: M. Night Shyamalan / Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall e Barry Mendel, Sam Mercer (Produtor Executivo) / Elenco: Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette, Olivia Williams, Trevor Morgan, Donnie Wahlberg, Mischa Barton

 

 

O Sexto Sentido foi um verdadeiro marco do horror, trazendo de volta o interesse no terror psicológico com elementos sobrenaturais, e sendo um sucesso incrível de bilheteria por todo o globo, exatamente por trazer um tema universal: a vida após a morte. Fora que o final é uma das maiores reviravoltas da história da sétima arte.

O diretor indiano M. Night Shyamalan despontava forte como o novo mestre do suspense, amplamente influenciado por Alfred Hitchcock, graças a essa intrincada e muito bem elaborada produção que assustou muita gente, e fez com que cada um que terminasse de vê-la pela primeira vez, quisesse assistir de novo só para entender como deixou todas aquelas mensagens passarem batido e claro, tentar procurar furos no roteiro, que realmente não há.

O grande achado de O Sexto Sentido é Haley Joel Osment, que rouba o filme com uma atuação impecável no papel do torturado garotinho Cole Sear, que tinha o ingrato dom de “ver pessoas mortas, todo o tempo” e a capacidade de se comunicar com elas. Sua química perfeita com o canastríssimo Bruce Willis, que interpreta o psicólogo infantil, Dr. Malcom Crowe, e o papel forte e arrebatador de Toni Collette, que interpreta Lynn, a mãe do garoto, misturado com o roteiro, os simbolismos e a direção de arte e fotografia, transformam O Sexto Sentido e um verdadeiro neoclássico do horror.

Venha brincar com a gente Dann... ops....

Venha brincar com a gente Dann… ops….

Somos apresentados ao Dr. Crowe e sua esposa Anna (Olivia Williams) na noite em que ele acaba de ganhar um prêmio da cidade de Filadélfia, onde vivem, pelo seu trabalho e estão comemorando em casa, quando Vincent Gray (Donnie Whalberg, 21 quilos mais magro), um antigo paciente de Crowe, com quem havia falhado, invade a casa e atira no psicólogo, antes de atirar em sua própria cabeça. Passam-se três meses e com o fracasso lhe atormentando, Crowe conhece Cole, um garoto de seis anos, mesma idade que tinha Vincent durante o tratamento, que parece ter os mesmos problemas. Compelido a ajudá-lo, o doutor e o garoto vão desenvolvendo uma estreita relação, até que em uma noite após uma experiência traumática em uma festa de aniversário, Cole revela seu segredo, que é essa capacidade mediúnica de ver os mortos.

Após várias aparições assustadoras das presenças para o menino, com a ajuda de Crowe ele acaba entendendo que na verdade eles só querem se comunicar e pedir ajuda, como acaba descobrindo quando uma menina aparece em sua barraca de dormir (uma jovem Mischa Barton, antes de virar surtada), na cena mais apavorante do filme, lhe pedindo ajuda para entregar uma fita ao pai, que denunciava o verdadeiro motivo dela ter adoecido. Bom, problema resolvido é hora de o menino ajudar ao bom doutor, que passava por um problema conjugal e seu casamento estava muito distante, com sua esposa agindo de forma fria e tomando antidepressivos, além de parecerem estranhos um ao outro.

Bom, acredito que você já tenha assistido a O Sexto Sentido, pelo amor… Se não assistiu, primeiro, shame on you, e segundo, aí vai um SPOILER, que continua no parágrafo seguinte. É aí que o filme realmente te dá um tapa na cara, pois Crowe está morto na verdade, tendo sido assassinado na mesma noite que levou o tiro lá no começo do filme. É simplesmente fantástico e você fica embasbacado da primeira vez que assiste. Eu me lembro boquiaberto na sala de cinema quando a verdade é revelada. E aí que você quer de qualquer jeito assistir de novo e tentar pegar todos os detalhes.

Na sua idade eu já fazia “A Gata e o Rato”

Primeiro que o personagem de Bruce Willis passa o filme todo usando a mesma roupa, aquela com qual foi assassinado, apenas alterando essas peças entre si. Segundo que ele não troca uma palavra com ninguém o filme todo, nem com a mãe do garoto e nem com sua esposa, apesar de parecer que o faz na cena do restaurante, mas na verdade ali acontece um monólogo. Terceiro que toda vez que ele vai abrir a porta do porão, ela está trancada (imagina o susto da esposa toda vez ver aquela porta que ele deixa aberta?). Isso além da reação de espanto de Cole quando o vê pela primeira vez, ou na segunda quando está em sua casa. E finalmente, o frio que sua esposa sente quando ele está por perto e ela deixa a aliança cair, na cena que desvenda todo esse mistério. Daí você pensa: como diabos eu não percebi isso antes? Essa é a força do roteiro de Shyamalan.

E ainda há outros detalhes bem curiosos no filme. Um é a questão da queda de temperatura, que acontece toda vez que há a presença de um espírito irritado, maldoso ou inquieto. Isso não acontece quando Malcom está ao lado de Cole porque ele sempre está calmo e tentando ajudar. Na cena final, por exemplo, Malcom está afetado pela descoberta e confuso, por isso a queda brusca de temperatura também. Outro detalhe curioso é o uso da cor vermelha. Ela somente aparece indicando a presença de um fantasma ou algum acontecimento ou objeto que tenha uma relação direta com eles. Fora isso, perceba que a cor vermelha não é usada mais nenhuma vez no filme todo. E claro que Shyamalan coloca na história todo um simbolismo, de não sabermos lidar direito com a morte e a perda, de só enxergarmos aquilo que queremos ver e que devemos abrir a mente e o coração para ouvir o que os outros têm a dizer e tudo mais.

O Sexto Sentido faturou mais de 600 milhões de dólares em todo o mundo. Foi a segunda maior bilheteria americana de 1999, perdendo somente para Star Wars Episódio I – A Ameaça Fantasma e ganhando até de Matrix. No Brasil, foi o filme mais visto daquele ano. Foi indicado a seis Oscars: melhor ator coadjuvante (Osment), atriz coadjuvante (Collette), diretor, edição, filme e roteiro original. Não ganhou nenhum (esse tipo de coisa acontece só uma vez a cada 100 anos, como ocorreu com O Silêncio dos Inocentes).

Apesar do grande sucesso, pode parecer irônico, mas O Sexto Sentido acabou atrapalhando um pouco a vida de Shyamalan dali para frente, exatamente por ter sido tão superestimado. Nunca mais conseguiu fazer um filme realmente decente, e todos eles geraram uma tremenda expectativa para se tornar um novo O Sexto Sentido com um final tão arrebatador quanto, e o indiano infelizmente falhou miseravelmente em todos eles, principalmente nos seus lançamentos seguintes como Corpo Fechado, Sinais e A Vila.

I see dead people…

 Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Sexto Sentido está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] sucesso estrondoso de O Sexto Sentido fez reviver o interesse por histórias de fantasmas no cinema moderno de horror. Após a incursão […]

  2. […] a grande reviravolta do final (não sei, mas parece que todos os filmes que eu tenho escrito desde O Sexto Sentido, tem tal reviravolta no final, né?), vem de forma avassaladora e você percebe o quão meticuloso […]

  3. […] para quem tem o mínimo de bagagem cinematográfica de terror e àqueles que pertencem à geração O Sexto Sentido. Ainda mais por conta das “viagens” dimensionais de Mary, entre dois mundos, aquele em que […]

  4. Alexandre disse:

    Acho que a grande sacada de “O sexto sentido” é a maneira como as elipses são construídas. Na verdade, todo o filme é construído em cima do pacto que se constrói entre o espectador e narrativa, de como as elipses sustentam algo que não ali. A surpresa surge exatamente pelo fato de preenchermos erroneamente as lacunas que a narrativa oferece. Isso se deve pelo fato de estarmos condicionados a fazer elipses o tempo todo e assim a montagem narrativa se torna natural para nós. Shyamalan percebeu como estamos condicionados a preencher esses espaços vazios e “escondeu” a verdadeira história sob essa que achamos ser a certa. Nesse sentido, o filme pode ser analisado como uma grande crítica sobre como somos levados, de forma impessada, a não prestarmos atenção àquilo que temos à nossa frete ou como nossos pré-conceitos criam o mundo que queremos ver.

  5. Andrigo Mota disse:

    sim o final eh epico…esse filme e aquele outro do Bruce willis indestrutivel sao os unicos filmes desse diretor bauns pra valer.

    resto eh so merda q ele fez, uma bosta pior q a outra…sempre sera lembrado por este filme ae…somente por este

  6. a kra mas o final d corpo fechado tbm é foda….n supera o sexto sentido mas…

  7. Alfred disse:

    Não tive tanta sorte … estava eu na última sessão do dia de estreia desse filme nos cinemas e quando o público saiu do cinema da sessão anterior um rapaz gritou bem alto o grande spoiler do filme para toda a fila ouvir …. todos entraram no cinema desanimados e para mim infelizmente a sessão não teve graça nenhuma.

  8. […] anos 90 (valeu, Pânico) e sucessos de público e crítica lá no seu último ano de década (valeu O Sexto Sentido e A Bruxa de Blair), o filme que abre os 00’s é o thriller alemão Anatomia, que pode parecer bem […]

  9. […] no começo da década em questão, estavam rolando vários filmes nessa pegada sobrenatural, como O Sexto Sentido, Ecos do Além e por aí vai. Mas revendo, ele é […]

  10. […] de Alfred Hitchcock, com uma pitada de M. Night Shyamalan (que até então tinha emplacado O Sexto Sentido e Corpo Fechado), com um Matthew McConaughey que já mostrava como poderia ser bom ator se não […]

  11. […] sucesso estrondoso de O Sexto Sentido fez reviver o interesse por histórias de fantasmas no cinema moderno de horror. Após a incursão […]

  12. […] antes mesmo de ter qualquer conhecimento do longa de Nakata. Fato também é que esse é, junto com O Sexto Sentido, O FILME DE TERROR de toda uma geração. Responsável por meter medo, mas muito medo numa molecada […]

  13. […] é uma infeliz vítima de seu próprio sucesso. Quando ele arrebatou público e crítica em O Sexto Sentido e seu mais que lendário plot twist final, o indiano, cria de Alfred Hitchcock, talvez NUNCA […]

  14. […] Shyamalan é uma vítima de seu próprio sucesso. Quando ele arrebatou público e crítica em O Sexto Sentido e seu mais que lendário plot twist final, o indiano, cria de Alfred Hitchcock, talvez NUNCA […]

  15. […] O Sexto Sentido: Um garotinho que consegue ver os espíritos dos mortos é constantemente atormentado enquanto um psiquiatra assombrado por uma tentativa de assassinato tenta ajudá-lo à colocar os espíritos para descansar. Outra vez, não é um filme de terror… é um “Suspense, drama sobrenatural.” […]

  16. […] de duas horas dedicado ao terror, com curadoria de ninguém menos de M. Night Shyamalan, diretor de O Sexto Sentido, que recentemente voltou ao gênero (e a forma) com o found footage A […]

  17. […] Haley Joel Osment, o Cole Sear de O Sexto Sentido: […]

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