716 – A Sombra do Vampiro (2000)

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Shadow of the Vampire


2000 / EUA, Reino Unido, Luxemburgo / 92 min / Direção: E. Elias Merhige / Roteiro: Steven Katz / Produção: Nicolas Cage, Jeff Levine; Jimmy de Brabant, Richard Johns (Coprodutores); Norman Golightly, Orian Williams (Produtores Associados); Paul Brooks, Alan Howden (Produtores Executivos) / Elenco: John Malcovich, Willem Dafoe, Udo Kier, Cary Elwes, Catherine McCormack, Eddie Izzard


Em 1922 o diretor alemão Friedrich Wilhelm Murnau criaria o filme sobre vampiros definitivo, Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror, a pedra angular do gênero, assustadora e inimitável até hoje, curiosamente sendo a mais perfeita representação nas telas da criatura idealizada por Bram Stoker (chupa, Copola), mesmo tendo os direitos da adaptação do livro negada pela esposa do autor irlandês.

Muito do poder de Nosferatu deve-se a visceral interpretação de Max Schreck como o Conde Orlok (uma vez que o nome Drácula não poderia ser usado). Naqueles idos da década de 20, um rumor espalhou-se durante a produção do longa, a ponto de se tornar uma lenda, de que Schreck de fato era uma vampiro de verdade, por isso o grau fidedigno de atuação. Lógico que isso não faz o menor sentido, uma vez que o ator havia surgido nos teatros alemães, fez parte do grupo de atores inovadores de Max Reinhardt e fez outros filmes até sua morte em 1936.

Luz, câmera, ação

Luz, câmera, ação

Mas o poder dessa lenda, assim como o próprio poder de sua interpretação e a importância histórica de Nosferatu, não só para o cinema de terror, mas também para a sétima arte, inspirou a criatividade do diretor E. Elias Merhige e o roteirista Steven Katz em realizar A Sombra do Vampiro, que se passa durante as filmagens do longa seminal, e dar um excêntrico toque de veracidade fictícia, colocando Schreck como um vampiro de fato assim como o “pacto com o diabo” feito por Murnau para a criação de sua obra-prima.

De um lado da balança temos o eloquente John Malcovich vivendo um excêntrico, perfeccionista, destemperado, arrogante, viciado em morfina Murnau, que abusa dos membros de sua equipe e dos atores em busca das tomadas perfeitas, colocando-os em situações insalubres e mantendo-os no escuro quanto aos seus métodos peculiares. Do outro, temos Willem Dafoe, absolutamente fantástico como Schreck (indicado ao Oscar® e Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante) perfeito em todos os trejeitos, postura corporal, entonação de voz, sotaque e na excelente maquiagem (também indicada ao Oscar®) que o deixou irreconhecível, porém uma fotocópia do vilão vampiresco.

A sombra de Schreck recai como uma mau agouro por todos os atores e membros da produção. Alguns começam a desconfiar nos motivos escusos do ator só filmar durante a noite e não sair do personagem sequer durante um minuto, e principalmente por sua obsessão pela atriz Greta Schröeder (Catherine McCormack), gerando um contínuo clima de humor forçado (como o brilhante diálogo de Schreck apontando o erro sobre o ridículo erro de Drácula não ter criados no livro de Stoker, ter vivido séculos em reclusão e ainda assim ter a habilidade de preparar uma mesa farta para Jonathan Harker em seu castelo na Transilvânia), desconfiança e pavor, sustentado pelos surtos de Murnau e o perigoso jogo que é obrigado a jogar com o suposto vampiro e suas barganhas, colocando em risco sua integridade, dos demais, e principalmente, de sua atriz principal, tudo em nome da arte.

Making of

Making of

Outro ponto interessantíssimo é exatamente a homenagem a um dos períodos mais férteis e imaginativos do cinema de terror (e do cinema em geral), o expressionismo alemão, que driblava a falta de recursos da época abusando de técnica e criatividade, e dando ao público uma chance de acompanhar os meandros de uma produção cinematográfica da década de 20. Além disso, a incrível fotografia misturado com a encenação de trechos do filme como cópias em carbono, até mesmo abusando dos tons de sépia e misturando com cenas reais de Nosferatu, dá uma sensação quase documental ao filme de Mehrige.

A Sombra do Vampiro também consegue a proeza, de utilidade pública tremenda nos dias de hoje, de chamar a atenção para o clássico e despertar o interesse daqueles que ainda não tiveram a oportunidade de serem impressionados (e assustados, por que não?) por Nosferatu – Uma Sinfonia de Terror. Obviamente ele funciona muito melhor para quem já viu a fita de Murnau, e assim poder captar de verdade a magnânima atuação de Dafoe (para quem o papel foi escrito sob medida), mas ao mesmo tempo funciona como um farol para que as novas gerações, que podem ter certos problemas em acompanhar o ritmo de um filme alemão da primeira metade do século passado e acostumado com arroubos de mediocridade do Crepúsculo da vida, descubram o mais sensacional filme sobre as criaturas da noite já feito.

Grandes parças

Grandes parças



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Matheus L. CARVALHO disse:

    Isso aí, Marcão!!!!!!!!!!
    O blog está legal, nesse novo formato. Belo trabalho.

    A SOMBRA DO VAMPIRO é um filme foda!!!!!!!! Assustador, dramático e tenso!
    Seus dois protagonistas dão um show de interpretação – difícil dizer qual é o melhor!
    Mesmo como obra de ficção, consegue ser autêntico, em todos seus aspectos!
    Enfim, um dos últimos filmes de vampiro descentes – depois veio DEIXA ELA ENTRAR, que ressuscitou, mesmo que por pouco tempo, o filme de vampiro de verdade!
    Brilhante, um filme Nota 10!!!!!

    Abraço!!!!

    • Valeu Matheus!!!! Continue aí comentando e deixando sempre suas impressões! Aliás, tô abrindo espaço para colaborações. Você é um dos que sempre comenta e manda textos muito bons aqui, de repente, vamos conversando para colaborar com o 101. 😀

      Abs

      Marcos

      • Matheus L. CARVALHO disse:

        Orra, Marcão!!!!!!!!!!!
        Aí, sim, meu velho!!!!!!!!!!
        Se quiser, mando meu e-mail.
        Pode ser?
        Abraço!!!!!!!!!

  2. Podia jurar que ia rolar alguma piada com a produção do Cage HAHAHAHA

    Brincadeiras a parte, eu assisti esse filme em VHS ainda pirralho e nunca havia entendido o porque de toda a história envolvendo o filme. Anos depois, após descobrir Nosferatu, lembrei desse filme e vi que as coisas faziam sentido. Ainda é uma experiência e tanto assistir Nosferatu e Shadow of the Vampire na sequência, recomendo isso pra todos.

    E pra completar, ficou tudo lindaço, Marcos. Baita upgrade, sucesso pra ti e pro blog, meu velho, vida longa ao cinema de horror! 😀

  3. Papa Emeritus disse:

    Excelente filme!

  4. […] Bizarro, não é? Existe até um filme bem legal sobre a produção de Nosferatu, que se chama A Sombra do Vampiro, trazendo John Malkovich como Murnau e Willem Dafoe (espetacular, diga-se de passagem), como […]

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