720 – A Espinha do Diabo (2001)


El espinazo del Diablo / The Devil’s Backbone


2001 / Espanha, México / 106 min / Direção: Guillermo Del Toro / Roteiro: Guillermo Del Toro, Antonio Trashorras, David Munõz / Produção: Augustin Almodóvar, Bertha Navarro; Michel Ruben (Produtor Associado); Rosa Bosch (Co-Produtora); Pedro Almodóvar, Guillermo Del Toro (Produtores Executivos) Elenco: Marisa Paredes, Eduardo Noriega, Federico Luppo, Fernando Tielve


“O que é um fantasma? Um evento terrível condenado a repetir-se eternamente?” Essa pergunta é o início de A Espinha do Diabo, e o que guia a ideia e os personagens desse excelente drama sobrenatural do renomado diretor mexicano Guillermo Del Toro, produzido pelo aclamado Pedro Almodóvar.

Uma produção pouco usual, que ao invés de apelar para sustos baratos e aquele velho clichê de uma história corriqueira com um espírito vingativo, trabalha muito bem seus personagens em uma sintonia fina, ligando todos eles em uma intrincada teia, onde o tal fantasma é apenas um elemento do filme, que serve como uma metáfora para os horrores da guerra e a desilusão humana, presas para sempre em um espaço tempo contínuo, onde pode parecer impossível se livrar dele.

Explico: Durante a terrível Guerra Civil espanhola, que tirou a vida de milhares de pessoas que lutavam contra a terrível ditadura do general Franco, há um orfanato localizado literalmente no meio do nada, que serve de abrigo para os filhos dos combatentes. Ali as crianças são deixadas sobre os cuidados da diretora Carmen e do professor de ciências e médico Dr. Casares, que vivem uma espécie de paixão platônica não consumada, que chega até a doer na gente. Carlos é o filho de um desses revolucionários que morreram no front e é levado por seu tutor para ficar no orfanato.

Ao chegar ao local, Carlos começa a fazer amigos e ao mesmo tempo arrumar desavenças com Jaime, o típico garoto mais velho valentão. Sem arregar e sem deixar de se impor, Carlos aos poucos vai conseguindo controlar a situação. Isso com os vivos, porque ele também começa a vislumbrar a presença de um fantasma no local, conhecido pelos meninos como “aquele que sussurra”.

Árido horror

O fantasma é na verdade de Santi, um garoto que perdeu a vida sob circunstâncias misterioras, que só serão reveladas no terceiro ato. Além das crianças, também vivem no orfanato Jacinto, um faz tudo, que tem uma relação com Conchita. Os quatro personagens adultos desenvolvem uma espécie de quadrilátero amoroso, pois Jacinto é uma espécie de michê de Carmen, que desde os 17 anos, é responsável por dar prazer a ela.

O desenvolvimento da relação desse quadrilátero, e a cobiça inescrupulosa de Jacinto, que na verdade está interessado em roubar o ouro que os revolucionários deixam ali guardado para manter a causa, é que vai ser determinante para o futuro do orfanato e afetará a vida das crianças, depois que uma terrível tragédia se abate ao local, quando o tutor de Carlos é capturado e executado e o Dr. Casares decide organizar uma fuga às pressas.

Muito mais preocupado em desenvolver o potencial humano de seus personagens e jogá-los em rodas de sentimentos díspares, Del Toro magistralmente vai construindo uma narrativa arrastada, como todo bom filme de fantasma deve ser, sem cair na armadilha de sustinhos fáceis, trabalhando de forma muito sóbria o contraponto entre luz e sombra e os nuances de cores das áridas e ensolaradas manhãs e tardes com as frias, escuras e sinistras noites nos corredores e aposentos do orfanato, por onde Carlos tem seus assustadores encontros com Santi, que como todo bom fantasma que se preze, está sedento por vingança.

O medo é a grande força motriz de A Espinha do Diabo. A presença de Santi, por mais amedrontador, é apenas mais um sintoma de viver em um país desolado, sem esperanças e com uma população sem direitos.  E esse meio-ambiente hostil gera uma grande carga dramática em seus personagens, já que cada um carrega seu demônio pessoal, que pode vir na forma da própria violência da guerra, da inocência perdida, de uma paixão não correspondida, da vergonha, ou da ganância, e todos esses sentimentos aflorados e potencializados por um confinamento forçado, levam a atitudes extremas. E seja através da presença de um espírito ou do próprio conflito, a morte e nossos traumas estão sempre ali presentes, como um inseto preso no âmbar.

Acredita em fantasma? Hein?


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] de fantasmas no cinema moderno de horror. Após a incursão de Shyamalan no gênero, assim como A Espinha do Diabo de Guillermo Del Toro, outra coprodução espanhola é responsável por ajudar a revitalizar a […]

  2. […] continuação natural do cinema de fantasma espanhol que o próprio mexicano começou em 2001 com A Espinha do Diabo e que atingiu seu auge com o filme de outro espanhol, Os Outros de Alejandro Amenábar. E a grande […]

  3. […] REC foge do script de filmes de fantasmas que vinham sendo feitos na Espanha até então, como A Espinha do Diabo, Os Outros e O Orfanato e dá um novo gás aos filmes de zumbi e aos found footages. É um filme […]

  4. hereoutsidemywindow disse:

    link quebrado!!

  5. Papa Emeritus disse:

    Fiquei surpreendido com esse filme. Ele foge totalmente dos clichês de filmes de fantasma.

  6. Rauldouken disse:

    Aonda eu baixo esse filme aqui?

  7. […] de fantasmas no cinema moderno de horror. Após a incursão de Shyamalan no gênero, assim como A Espinha do Diabo de Guillermo Del Toro, outra coprodução espanhola é responsável por ajudar a revitalizar a […]

  8. […] filmes como O Labirinto do Fauno, O Orfanato e A Espinha do Diabo, e também alguns livros em seu currículo, Del Toro criou um museu onde vive e escreve seus […]

  9. […] 1 A ESPINHA DO DIABO (“El Espinazo del Diablo”, 2001, 108 min.) De Guillermo Del Toro. Com Marisa Paredes, Eduardo […]

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