723 – Kairo (2001)

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Kairo / Pulse


2001 / Japão / 118 min / Direção: Kiyoshi Kurosawa / Roteiro: Kiyoshi Kurosawa / Produção: Ken Inoue, Seiji Okuda, Shun Shimizu, Atsuyuki Shimoda, Hiroshi Yamamoto; Yasuyoshi Tokuma (Produtor Executivo) / Elenco: Haruhiko Katô, Kumiko Asô, Koyuki, Kurume Arisaka, Masatoshi Matsuo


Dentre da prolífica leva dos J-horror da primeira metade do século, sem dúvida Kairo é um dos melhores exemplares e um dos grandes clássicos do subgênero, apesar de ser menos conhecido e muito mais marginalizado que seus pares mais famosos, como Ringu – O Chamado, Ju-On – O Grito e Dark Water – Água Negra, por exemplo.

Fato é que Kairo é um perfeito J-horror em sua construção, atmosfera assustadora e mensagem subliminar a ser passada, excelentemente construída de forma minimalista e repleto do que hoje chamamos de “clichês do gênero”, pecando somente por se estender demais na sua metade final, com um seríssimo problema de ritmo em seus trinta minutos finais que acaba por estragar o andamento da fita.

Como li por aí, Kairo faz pela Internet o que Ringu fez pelas fitas VHS, e acrescento, o que Telefone fez por celulares e Dark Water por prédios de apartamento. É a constante luta do Japão, e dos países orientais, tradicionalistas ao extremo, com preceitos religiosos ancestrais, contra o moderno, tecnológico, cosmopolita.

De castigo

De castigo

Kairo transborda, muito mais do que uma história de fantasmas asiáticos, um grito da sociedade nipônica contra a solidão e a alienação digital. E olhe que estamos falando de um filme de 2001, onde o vício de se estar conectado nem era tão frenético como nos dias de hoje, sem redes sociais, smartphones e tablets. Enquanto a tecnologia vindoura de aparelhos elétricos, circuitos e sinais de rádio traz facilidades para a vida moderna, nos diminui como sociedade e extenua nosso medo pela solidão, tal qual a própria morte o faz.

Tratando-se do cinema asiático de terror, ou em geral, o excêntrico toma forma, ganha gosto e ideias bizarras mostram-se malucamente aceitáveis, como a trama base de Kairo, onde basicamente os espíritos encontraram o meio mais improvável de chegar ao mundo dos vivos: pela Internet. Uma teoria gira em torno do fato de que uma hora, o além, ou o que quer que seja que exista no pós-morte, vai estar sobrecarregado, por ser de capacidade finita, e então os fantasmas começarão a procurar qualquer tipo de meio de comunicação e conexão para transbordar para outro mundo assim que sua dimensão atingir o estado de massa crítica.

Doidera que o diretor e roteirista Kiyoshi Kurosawa, baseado em seu próprio livro homônimo, começa a preparar seguindo duas linhas de história paralelas que irão se convergir no final: Duas jovens ficam preocupados com o sumiço de um colega que trabalhava em um disquete e deixara de atender suas ligações. Quando Michi (Kumiko Asô) vai visita-lo, o sujeito até outrora perfeitamente normal e sem crises de depressão, se suicida. Pronto, esse é o estopim para que suas presença fantasmagórica passe a rondar a Internet, assim como de outros que passam a cometer suicídio ao se conectar ou tornarem-se vítimas do pulso.

Deep web

Deep web

O estudante de economia Kawashima (Haruhiko Katô), uma verdadeira anta digital, resolve assinar um provedor e se conectar a Internet, e descobre que ela está infestada de espíritos e pede ajuda para a professora de computação Harue (Koyuki). Só que a mesma, assim como os outros, se verá obcecada pela força sobrenatural dos bits and bites, e toda uma escalada de acontecimentos e aparição de diversos fantasmas genuinamente assustadores, daquele jeito que só o J-horror soube fazer durante muito tempo, levará a humanidade que conhecemos ao caos absoluto, quase como uma hecatombe tecnológica, uma vez que estamos todos conectados e dependemos da informática, da tecnologia e da eletricidade.

Kairo é absurdamente climático, enervante, assustador. Além de toda a sua originalidade, e bizarrice obviamente, ele vai cozinhando o espectador em banho-maria e aterrorizando-o de acordo, misturando brilhantemente a boa e velha tradição xintoísta dos filmes do subgênero, momentos de silêncio, computação gráfica, e efeitos sonoros bem creepy. Só que como disse lá em cima, sua meia-hora final são quase que completamente descartáveis acometendo o público a uma entediante sequência de acontecimentos descartáveis e sem desenvoltura que quebra completamente o ritmo e choque iniciais.

Bom, como todo filme de terror asiático de sucesso naqueles tempos, Kairo obviamente teve sua versão americana lançada na Terra do Tio Sam, Pulse, lançado em 2006, com a eterna Veronica Mars, Kristen Bell, no elenco, e que vejam só, teve como co-roteirista, o saudoso Wes Craven. É uma verdadeira porcaria, só para constar, e ganhou mais duas sequências direto-para-o-vídeo distribuídos pela Dimension Extreme. Prefira o original, sempre.

Conectada

Conectada



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Pense num filme que me deu um cagaço medonho quando vi, lá por volta de 2006, 2007. Um dos mais assustadores que vi. xD

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