726 – Os Outros (2001)


The Others


2001 / EUA, Espanha, França, Itália / 101 min / Direção: Alejandro Amenábar / Roteiro: Alejandro Amenábar / Produção: Fernando Bovaira, José Luis Cuerda, Sunmin Park, Eduardo Chapero Jackson (Produtor Associado), Miguel Ángel González e Emiliano Otegui (Linha de Produção), Rick Schwartz, Paula Wagner, Tom Cruise, Bob Weisntein, Harvey Weinstein (Produtores Executivos) / Elenco: Nicole Kidman, Christopher Eccleston, Fionnula Flanagan, Alakina Mann, James Bentley


 

O sucesso estrondoso de O Sexto Sentido fez reviver o interesse por histórias de fantasmas no cinema moderno de horror. Após a incursão de Shyamalan no gênero, assim como A Espinha do Diabo de Guillermo Del Toro, outra coprodução espanhola é responsável por ajudar a revitalizar a tradicional história de espíritos zombeteiros em casarões vitorianios mal assombrados. Estou falando do excelente Os Outros, de Alejandro Amenábar.

Os Outros é um exemplar exercício de suspense sobrenatural. Por mais que possa parecer uma história manjada à primeira vista, ela foge completamente da obviedade do gênero casa mal-assombrada, bebendo na fonte de outras obras imortais como Os Inocentes, Desafio do Além, A Casa da Noite EternaA Mansão Macabramas adquirindo o seu próprio toque pessoal.

A direção soberba de Amenábar, que explora todos os quartos, corredores e cantos escuros, com uma ambientação de época impecável e a fotografia sóbria e obscura de Javier Aguirresarobe, fez com que Os Outros se tornasse um novo clássico instantâneo, extremamente assustador, referência no cinema sobrenatural moderno.

Rápida e mortal!

Nicole Kidman (que está perfeita e linda!) interpreta Grace Stewart, uma solitária mulher inglesa, católica fervorosa, que vive em um casarão nas Ilhas Jersey durante a década de 40, pouco depois da ocupação nazista. Seu marido, Charles, foi lutar na guerra e a deixou com os dois filhos pequenos, o amedrontado e frágil Nicholas (James Bentley) e a esperta e birrenta Anne (Alakina Mann).

No começo da fita, Grace está apresentando a casa para os seus três novos empregados que cuidarão das tarefas do lar: a governanta Sra. Mills (Fionnula Flanagan), a ajudante Lydya (Elaine Cassidy) e o jardineiro, Sr. Tuttle (Erick Sykes). O principal aprendizado é um ritual constante que deve ser metodicamente obedecido todas às vezes: a casa sempre deve ficar às escuras com as janelas cobertas por pesadas cortinas e toda vez que se entra em um aposento, deve se trancar com chave antes de percorrê-lo e passar ao próximo. Todo esse cuidado porque Anne e Nicholas sofrem de fotossensibilidade e não podem ficar expostos à luz que seja mais forte do que uma vela.

Pronto, está criado um clima extremamente tenebroso, pois os moradores devem ficar na mais completa penumbra quase que todo o tempo, para preservar a frágil saúde das crianças. E como se não bastasse, a casa é envolta em uma misteriosa neblina que nunca se dissipa, e mal consegue se enxergar um palmo à frente do nariz lá fora. A situação dos personagens começa a se complicar quando estranhos vultos, sussurros e passos começam a ser ouvidos na casa, e aos poucos vai se constatando a presença de espíritos vagando por ali, que batem as portas, tocam o antigo piano e tentam retirar as cortinas das janelas.

Creepy as hell

Creepy as hell

O filme evoca elementos da literatura gótica e das tradicionais histórias de fantasmas, utilizando muito bem o imenso espaço da casa, do qual os personagens e nós espectadores mal saímos, com particularidades muito bem construídas, como os três empregados que apareceram ali misteriosamente e guardam um segredo, a presença de antigos móveis empoeirados e cobertos por panos, a culpa e a expiação católica presente na educação das crianças ou mesmo antigas fotografias emboloradas em tom sépia de pessoas mortas.

E ao prender o espectador em uma agonia sufocante até seus últimos momentos, o final de Os Outros é a cereja do bolo. Ninguém está preparado para o que vai acontecer quando literalmente é jogada uma luz aos fantasmagóricos acontecimentos do casarão. Mais uma daquelas produções que tem uma reviravolta incrível e pega o espectador de surpresa, fazendo você querer assistir de novo ao filme para se ligar nos detalhes. E por mais que possa até parecer previsível visto por uma segunda vez, o surpreendente final nunca chega a soar óbvio e tampouco forçado.

Lembro a primeira vez que vi Os Outros. Fui ao cinema e era madrugada do dia 2 de novembro, o Dia de Finados. Isso por si só já é sinistro. O clima no cinema era tão tenso e assustador que podia se cortar o ar com uma navalha. E o final foi um verdadeiro choque. E acredito que esse sentimento seja igual para todos aqueles que veem a película pela primeira vez. Ao terminar de vê-lo, percebemos que nós também somos os outros, também somos presenças não convidadas da casa, agindo como testemunhas oculares dos fantasmas.

Os Outros foi a primeira produção falada em inglês de Amenábar, diretor chileno radicado na Espanha, que tem em seu currículo os também impressionantes Tesis – Morte ao Vivo e Abra os Olhos, que seria refilmado nos EUA pela mesma produtora de Tom Cruise responsável por esse filme, com o nome de Vanilla Sky. Nicole Kidman foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz e injustamente esquecida pela Academia, já que ela está em um dos melhores papeis de toda sua carreira. Além disso, o filme levou nove prêmios Goya, o Oscar da Espanha, e foi o único até hoje a ganhar o prêmio de melhor filme sem ser dita sequer uma palavra em espanhol.

A lição de hoje é sobre fantasmas


 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] começou em 2001 com A Espinha do Diabo e que atingiu seu auge com o filme de outro espanhol, Os Outros de Alejandro Amenábar. E a grande característica que une o cinema sobrenatural do século XXI […]

  2. […] de filmes de fantasmas que vinham sendo feitos na Espanha até então, como A Espinha do Diabo, Os Outros e O Orfanato e dá um novo gás aos filmes de zumbi e aos found footages. É um filme original, […]

  3. […] O Solar das Almas Perdidas é um verdadeiro clássico do gênero casa mal assombrada. E um dos primeiros a criar uma estética particular para esse tipo de filme e alguns elementos peculiares que seriam copiados e aproveitados futuramente em outras célebres produções do gênero, como Os Inocentes, Desafio do Além e exemplos recentes, como Os Outros. […]

  4. Matheus L. CARVALHO disse:

    FILME NOTA 10!!!!!!!!!!!!
    Um dos mais assustadores do começo dos anos 2000!
    Excelente!!!!!

  5. Onde está o link do download, parceiro? Abs

  6. Rogério Santos disse:

    Amenabar homenageia Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock: o nome da personagem Grace Stewart é a fusão dos nomes de Grace Kelly e James Stewart,

  7. […] e percursor de muitos outros, servindo claramente de inspiração para produções vindouras como Os Outros e O […]

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