727 – O Pacto (2001)

Suicide_Circle_(2002)

Jisatsu sâkuru / Suicide Club / Suicide Circle


2001 / Japão / 99 min / Direção: Shion Sono / Roteiro: Shion Sono / Produção: Seiya Kawamata, Junichi Tanaka, Toshiee Tomida, Seiji Yoshida; Atsushi Numata, Toyoyuki Yokohama (Produtores Executivos) / Elenco: Ryo Ishibashi, Masatoshi Nagase, Mai Hosho, Tamao Satô, Takashi Nomura


O Pacto é mais um dos filmes orientais WTF. Olhe, e bote WTF nisso! A começar logo pela primeira cena do longa do diretor/ poeta Shion Sono, uma das mais emblemáticas (e sanguinolentas) do J-Horror, onde um grupo de garotas estudantes simplesmente se jogam nos trilhos à frente do metrô, suicidando-se, e o ato faz esguichar uma quantidade abundante (olhe, bote abundante nisso) de sangue nos demais passageiros da estação.

É uma cena de uma violência, de um gore, e de um descalabro tão grande ao mesmo tempo, que a nós, reles espectadores, só nos resta rir. Rir de nervosismo e rir pelo tom cômico de humor negro que Sono imprime na cena. E um festival de bizarrices e situações de nonsense irão se seguir pelo resto da fita, que tem como pano de fundo central: o suicídio.

Três pontos a salientar sobre o texto embutido em O Pacto. O suicídio entra a população infanto-juvenil é a principal causa mortis entre indivíduos dessa faixa etária no Japão, sendo até um problema de saúde pública. Fora isso, a Terra do Sol Nascente tem uma das maiores taxa de suicídio entre os países desenvolvidos (perde só para a Coreia do Sul), sendo que no ano passado, mais de 25 mil pessoas tirara a própria vida. Outro dado: de 1972 a 2013, mais de 18 mil adolescentes se suicidaram, e o 1º de setembro, dia de volta às aulas, é historicamente a data com maior incidência.

Não estação Sé na hora do rush isso nunca aconteceria...

Não estação Sé na hora do rush isso nunca aconteceria. A turma nem chegaria na plataforma…

Outra questão é o senso de coletividade dos japoneses. O eu costuma sempre ser visto perante o coletivo à sociedade. O suicídio quebra o elo dessa cadeia, e acaba tornando-se uma escolha completamente individualista (talvez a mais individualista de todas), em detrimento do coletivismo. Entre os casos recentes, o senhor de 71 anos que ateou fogo em si mesmo dentro de um trem-bala, que vivia sozinho, sem emprego, em uma situação límitrofe e relato de vizinhos que ouviam com frequência a televisão ligada.

Para finalizar essa linha de raciocínio pegando essa última informação da “vida real”, voltamos na questão adolescente e sua relação com a televisão, a música pop, a Internet, que cria dependência e uma válvula de escape para jovens de uma sociedade coletivista, e acabam influenciando-os e fazendo com que eles influenciem também uns aos outros. O ponto de crítica social que reflete esse subtexto é a constante apresentação do grupo de música pré-adolescente Dezaato, ou Dessert, Dessart, Dessret, Desert e todas as diversas pronúncias que são feitas durante o filme.

É aquela música chiclete, que toca a todo momento na rádio e na TV, recheada de boas e velhas mensagens subliminares que podem estar causando aquela onda de suicídio em massa, misturado com boataria de fóruns de Internet (há um site que contabiliza o número de suicídios femininos – com bolas vermelhas – e masculinos – com bolas brancas) e a busca pelo imediatismo.

Master chef

Master chef

Ainda assim, os jovens de O Pacto trabalham em prol do coletivo, uma vez que todas as adolescentes dão as mãos e se jogam na frente do trem ao mesmo tempo, e essa avalanche de suicídios acaba tornando-se pop, quer ser imitado pelos demais adolescentes, que passam a se jogar da laje das escolas e por aí vai. Em meio a diversas cenas repletas de baldes e baldes de sangue, há um fio condutor, do detetive Kuroda (Ryo Ishibashi) e da força policial que acredita sim haver algum ato criminoso por trás dos suicídios e que os adolescentes estão sendo instigados a isso.

Fora, há uma outra subtrama bizarríssima onde pedaços da pele dos jovens são retiradas e formam um grande rolo de pele de 10 metros de comprimento, encontrados dentro de bolsas brancas de couro nos locais dos acontecidos. Nesse ínterim, as ondas da televisão e da Internet vão afetando não só jovens, mas também famílias inteiras, embasbacadas a ponto de, por exemplo, cortar os próprios dedos (em outro festival gore) enquanto assiste a teta de vidro, e mesmo desestabilizando uma família aparentemente funcional, como a do detetive Kuroda, mas que prefere se juntar na frente da telinha e ver o grupo pop adolescente cantar suas músicas na mesa de jantar, do que conversar, trocar diálogos e experiências. A conta fatalmente irá chegar.

Toda essa crítica velada e as metáforas dos problemas da sociedade japonesa, entre um absurdo e um banho de sangue e outro, carregam O Pacto (um parêntese para a péssima escolha de título em português, uma vez que O Clube do Suicídio cairia como uma luva) de simbolismos e de uma força pungente, criando uma excelente/ excêntrica fita, provando na tela de prata o frutífero momento cinematográfico que o país vivia naquele começo de século XXI.

Uma aula de coletividade!

Uma aula de coletividade!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. AndreiaPassos disse:

    Você tem o filme”de carona com a morte”?
    POxa o formato anterior do site era mais legal 🙁

  2. Rafael disse:

    Esse é meu filme japonês favorito, simplesmente espetacular.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: