732 – O Chamado (2002)

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The Ring


2002 / EUA / 115 min / Direção: Gore Verbinski / Roteiro: Ehren Kruger (baseado no livro de Koji Suzuki) / Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes; Christine Iso (Coprodutora); Benita Allen (Produtora Associada); Neal Edelstein, J.C. Spink (Coprodutores Executivos); Roy Lee, Mike Macari, Michele Weisler (Produtores Executivos) / Elenco: Naomi Watts, Martin Henderson, David Dorfman, Brian Cox, Jane Alexander, Lindsay Frost, Amber Tamblyn, Rachael Bella, Daveigh Chase


Se posso apontar uma vez que os americanos acertaram em uma refilmagem de um J-Horror, e das poucas vezes que acertaram em refilmagens em geral, é O Chamado.

Claro, Ringu de Hideo Nakata ainda é MUITO superior, mas o grande trunfo de O Chamado é que, apesar de suas mudanças pontuais e artifícios pensados especificamente para o público americano, que não tem a mesma veia religiosa dos japoneses e gostam de todos os detalhes explicadinhos quase que de forma mobral, dispõe de uma impressionante beleza técnica e visual e excelente construção de clima para a fita.

A direção sóbria de Gore Verbinski é excelente (e dá uma pena do sujeito nunca mais ter dirigido um filme de terror, e se metido com o exagero escandaloso de Piratas do Caribe e a bomba O Cavaleiro Solitário), construindo o filme em um ritmo impressionante, até dos mais desacelerados para o padrão yankee, auxiliado pela belíssima fotografia da sempre chuvosa Seattle em cores frias, predominantemente azulada, do iugoslavo Bojan Bazelli (de Encaixotando Helena e Kalifornia – Uma Viagem ao Inferno) e claro, a trilha sonora minimalista e hipnótica do monstro Hans Zimmer.

No fundo do poço...

No fundo do poço…

Coloque também na conta positiva de O Chamado a incrível Naomi Watts, cuja lindeza e seus olhos azuis chegam ser estonteantes, vivendo a jornalista Rachel, que investiga a morte da sobrinha sete dias depois que assistiu a uma fita VHS, assim como a trama do original de Nakata e o livro de Koji Suzuki. Ela chega até a cabana onde sua sobrinha se hospedou e encontra o tape. Logo depois, o telefone toca e lhe dá sua sentença de morte. Rachel é mãe solteira de Aidan (David Dorfman), moleque irritante que se acha adulto autossuficiente. Ela pede auxílio ao pai do garoto e ex, Noah (Martin Henderson), videomaker e técnico de vídeo, para tentar juntar as pistas antes que a contagem regressiva se expire.

Nessas investigações ela acaba chegando até Samara Morgan (Daveigh Chase), a versão americanizada da Sadako. É exatamente esse subplot que conta a história da menina com poderes paranormais, envolvendo sua mãe e pai, cavalos, uma maldição, uma ilha com um farol e um rancho, que O Chamado perde um pouco do brilho em relação ao seu par nipônico.

Rachel é levada a destrinchar todas as informações e detalhes para chegar ao já bem conhecido poço e a morte da menina, envolvendo aí dramas familiares e de toda uma comunidade, a relação conturbada com o pai, suicídio dos cavalos do rancho e infortúnio da família, querendo explicar o porquê do desejo vingativo, ao invés da quase poética e simples sequência do japonês que retrata os dons paranormais e a pecha de bruxaria e poderes telepáticos em volta ao redor Sadako e sua mãe.

Outro ponto bem dos discutíveis e que acaba fazendo com que O Chamado derrape em pequenos detalhes bobos com relação ao original, é o apelo para alguns sustos fáceis e efeitos especiais de vultos e sombras passando, e claro, a emblemática saída de Samara da televisão, que enquanto o balé macabro de Sadako faz nego cagar nas calças pelo seu realismo manual e a falta de truques em CGI, o americano apela para os efeitos especiais (dos bem feitos, diga-se de passagem) e aquele close no rosto de Samara que mais parece a Regan McNeill em O Exorcista, para criar um efeito de jump scare.

Tem uns vídeos que a gente assiste que deixa assim mesmo...

Tem uns vídeos que a gente assiste que deixa assim mesmo…

Mas isso não desmerece o belo, potente e assustador filme que é O Chamado. Inclusive para muitos, que como eu, ficaram impressionados e o viram no cinema, antes mesmo de ter qualquer conhecimento do longa de Nakata. Fato também é que esse é, junto com O Sexto Sentido, O FILME DE TERROR de toda uma geração. Responsável por meter medo, mas muito medo numa molecada que das duas uma: ou ficou viciado no cinema de terror, ou então simplesmente parou de assisti-los, principalmente esses com pegada sobrenatural, por ter ficado traumatizado de tanto horror. Conheço pessoas de ambos os casos.

O Chamado foi um sucesso ESTRONDOSO faturando quase 250 milhões de dólares no mundo todo (contra um orçamento de 48 milhões), dando uma PUTA grana de retorno para a Dreamworks, e para o bem ou para o mal, teve uma importância crucial em outro aspecto, pois abriu as portas do J-Horror para o mercado ocidental.

Ao mesmo tempo em que as produções originais começaram a chegar às locadoras e cinemas, inclusive aqui no Brasil, praticamente TODOS os filmes asiáticos de terror ganharam sua versão americana. E desses TODOS, somente O Grito que consegue se destacar, pois foi dirigido pelo próprio Takashi Shimizu e na medida do possível é quase uma cópia em carbono de Ju-On, só que com mais grana. Outros exemplos, como Chamada Perdida, O Olho do Mal, Água Negra, Imagens do Além e outros, são completamente execráveis ou dispensáveis, não chegando próximo do impacto de suas inspirações vindas do outro lado do mundo.

A minha voz continua a mesma, mas meus cabelos...

A minha voz continua a mesma, mas meus cabelos…



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Renata disse:

    A primeira vez que eu vi este filme levei o maior susto com esta menina dentro do armário… Tenso!

  2. Filipe Roque disse:

    Pera aí… foi de Cabana do Inferno direto para O Chamado? Não teremos crítica de Halloween: Ressurreição?

  3. Fiz questão de assistir no cinema. Fui sozinha, me achando porque, afinal de contas, sou a rainha do filme de horror, a tal! Gente, que medo. Vi por entre os dedos de tão apavorada. E o vídeo que está na fita VHS, então? Assustador, angustiante.
    Filmão!!!

  4. […] sinistro, assustador, estranho, atmosférico e bizarro, que lembra muito aquele vídeo creepy de O Chamado. É esse aí do game The Tape, que está sendo desenvolvido pelo russo Kazakov Oleg, criador […]

  5. […] americana de um J-Horror, O Grito tem alguns diferencias pontuais que fazem com que, junto de O Chamado, de Gore Verbisnki, figure como os dois únicos que realmente prestam, perante a enxurrada das […]

  6. […] costumam ser cópias em carbono com grandes diferenças culturais e estéticas, com exceção de O Chamado, só quem sem o horror sobrenatural pungente e assustador de uma fita asiática. Porém ambas são […]

  7. […] época em que ter o nome de Ehren Kruger no roteiro, ainda mais depois do sucesso acachapante de O Chamado, era sinônimo de coisa boa vindo por aí (hoje em dia, bem, ele escreveu os três últimos […]

  8. Anderson Morgan disse:

    cheguei agora no seu site e você acaba de ganhar mais um fã ‘o’
    seus textos são muito bem escritos e tomam um cuidado imenso que atualmente não costumo ver
    parabéns pelo trabalho

    • Marcos Brolia Marcos Brolia disse:

      Hey Anderson. Mil desculpas pela demora por responder (minha vida tá uma loucura ultimamente), mas muitíssimo obrigado pelo elogio! Feliz por ganhar mais um fã.

      Abs

      Marcos

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