736 – Extermínio (2002)


28 Days Later


 2002 / Reino Unido / 113 min / Direção: Danny Boyle / Roteiro: Alex Garland / Produção: Andrew MacDonald / Elenco: Cillian Murphy, Naomie Harris, Christopher Eccleston, Brendan Gleeson


 

Dany Boyle é um dos meus diretores preferidos. Desde Cova Rasa e Trainspotting, até seus mais recentes Quem Quer Ser Um Milionário e 127 Horas, Boyle sempre vem fazendo ótimos filmes (claro, com excessões como Por Uma Vida Menos Ordinária), todos eles com uma excelente edição e trilha sonora. Extermínio foi sua incursão única e definitiva no gênero de terror, e logo foi responsável por mais uma vez, reinventar o gênero de zumbi.

O grande ponto positivo de Extermínio é ele ter conseguido atingir o cinema mainstream, sendo produzido e distribuído pela poderosa Twentieth Century Fox, e alcançar tanto sucesso crítico quanto comercial sem perder sua aura independente. Gravado em vídeo digital, de forma rápida, com baixo orçamento, Extermínio mantém um tom documental de filme de guerrilha disfarçado de cinema de estúdio, tendo a honra de ser a primeira produção britância do gênero (com muitos dólares americanos injetados, é claro).

E o que faz esse filme fugir da curva dos tradicionais filmes de zumbi, é que Boyle e o roteirista Alex Garland deixam de lado o conceito do morto-vivo que se alimenta de carne humana e tem sua capacidade motora reduzida, para transformá-lo na vítima humana de um poderoso vírus mutante da raiva, que a deixa incontrolável e extremamente rápida, dando uma dinâmica alucinante ao filme com dezenas de cortes por segundo e estética de videoclipe.

Se correr o bicho pega…

Os zumbis não-zumbis de Extermínio surgem quando um grupo de ativistas dos direitos dos animais invade um laboratório da universidade de Cambridge para libertar chimpanzés que vinham sendo usados como cobaias na criação de um vírus sintético da raiva. Esse poderoso vírus transforma suas vítimas em rápidos 20 segundos após uma mordida ou contato direto da mucosa com sangue ou saliva contaminada. Um dos símios sai do controle e acaba mordendo uma das ativistas, que passa o vírus para outro colega ao vomitar sangue em sua cara e por aí vai, até que depois de 28 dias (daí o título original), toda a Inglaterra foi praticamente dizimada por essa mortal epidemia.

Passado esse tempo é quando o mensageiro Jim (interpretado por Cillian Murphy) acorda do coma, após ter sofrido um acidente de trânsito. O rapaz encontra Londres deserta, e vai desfilando por ruas às moscas, lojas saqueadas, pontos turísticos fantasmas e uma Picadilly Circus sem uma alma viva (em uma cena bastante impressionante, por sinal). A cidade toda se tornou uma gigante área de risco. Junto de Selena, o motorista de táxi Frank e sua filha adolescente Hannah, sobreviventes que encontra pelo caminho, resolvem seguir uma transmissão de rádio amadora do exército que oferece abrigo e proteção militar para outros sobreviventes.

Porém ao chegar no bloqueio militar, os homens do exército ali confinados ficaram obviamente paranoicos e frustrados com o andar da carruagem da destruição da humanidade. Como não existem mais leis e as convenções sociais se desintegraram, eles resolvem usar as duas garotas para fins sexuais sob o falso pretexto de perpetuação da espécie e detonam uma crise interna, com Jim e as duas tendo que lutar por suas vidas, regredindo o rapaz ao estado mais primitivo da selvageria humana, canalizando toda essa raiva insana nos soldados, que também devem se preocupar com os zumbis que invadem o local, sendo que um deles era um ex-companheiro mantido como prisioneiro ao ser infectado, libertado pelo próprio Jim.

Zumbi ou não zumbi? Eis a questão!

Extermínio parecia ser o filme de terror perfeito para explorar o medo e paranoia dos pós-11 de setembro. Armas biológicas criadas em laboratório, pandemias globais mortíferas (o lançamento do filme coincidiu com o pânico gerado em torno da epidemia do vírus SARS, a primeira do século XXI), o totalitarismo e abuso de autoridades do exército e a sociedade mergulhando no mais completo caos anárquico. Fora isso, os zumbis não-zumbis de Boyle refletem uma metáfora dos medos e problemas modernos: a epidemia de raiva natural, sem um agente biológico causador, que está em todo o lugar, como nas brigas de trânsito, no fundamentalismo religioso, nos arrastões, nas brigas de gangues, no canibalismo corporativo. Tanto que no começo do filme, centenas de imagens desse tipo são exibidas para os chimpanzés de teste para alimentar ainda mais seu descontrole e fomentar o poderio do vírus, como se eles estivessem naquela experiência de Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, só que ao contrário.

Com a fotografia digital escura, quase que documental, como se fosse filmada por um correspondente de guerra e imitando o granulado do circuito interno das milhares de câmeras de segurança que se espalham pela capital inglesa, Boyle transforma a paisagem urbana corriqueira em uma sucursal do inferno e espalha pilhas e pilhas de corpos por entre as ruas, igrejas, hospitais, deixando claro que a coisa toda saiu do controle e não há mais governo, não há polícia, e não há cura. Isso se reflete perfeitamente em uma das pixações que Jim encontra na igreja logo ao sair do coma, onde está escrito: “O fim do mundo está perto para caralho”.

O maior defeito de Extermínio é seu final. Apesar de todos esses óbvios detalhes que jogam na cara do espectador que tudo está perdido, por pressão de estúdio, Boyle abre mão de um final ainda mais pessimista e apocalíptico e coloca os três sobreviventes em uma fazenda, tecendo enormes letras para pedir ajuda a um avião que sobrevoa frequentemente a região, o que mostra que a epidemia ficou limitada apenas a Grã-Bretanha enquanto o resto do mundo vivia sua vida calma e tranquilamente. Isso abriu precedente para uma continuação, Extermínio 2, que se passa 28 semanas depois da infecção, quando os Estados Unidos transformam a Inglaterra em uma área militarizada de contenção e tem a missão de reconstruir e repovoar o local (uma analogia clara à presença americana no Iraque e Afeganistão).  Boyle recentemente disse que volta para dirigir a terceira parte. Esperemos!

Panic on streets of London!

Panic on streets of London!


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Alexandre disse:

    Eu sei q esse final é muito otimista, mas encaixa tão bem no filme

  2. Alexandre disse:

    auhauhuahuahu
    nem parece o mesmo cara q fez o “quem quer ser um milionário”, mas voltando, eu gosto do final feliz pq em nenhum filme explica o que acontece com os zumbis quando acaba a comida, alem disso dava a oportunidade fazerem um filme que realmente mostrasse os zumbis dominando o mundo [como no livro World War Z]

    mas realmente pensando em impacto esse final é muito melhor!

  3. […] pela dupla de diretores. E diferente do conceito clássico de zumbis, aqui eles lembram muito mais Extermínio de Danny Boyle, onde um surto de raiva criado através da mutação de um vírus, foge de controle […]

  4. Claudio disse:

    Olá gente! Estou adorando o site, muito bom mesmo. PS: Esse link para o torrent esta quebrado. Adoraria ver este filme obrigado!

  5. Pedro disse:

    Bem Alexandre não parece o mesmo diretor que fez o filme “quem quer ser um milionário” porque no filme do “extermínio” é só o Danny Boyle que dirige agora no “quem quer ser um milionário” são 2 diretores.

  6. Algo que sempre me irritou nesse filme, é justamente aquele começo mostrando o macaco. Pra mim, sem aquela cena, o espectador seria jogado na mesma situação do protagonista e, assim como ele, iria descobrindo o que aconteceu aos poucos. Tirou todo o estranhamento da situação para o público. Podiam tê-la colocado no final, para satisfazer quem gostaria de uma explicação para o início da epidemia.

  7. Papa Emeritus disse:

    Possivelmente esse é o melhor filme de “zumbi” dos últimos 13 anos, e um dos melhores desse subgênero em todos os tempos. É sempre bom quando um gênero tem uma reinvenção.

  8. […] a treta nem são os zumbis atléticos, não. Danny Boyle já havia os introduzido no cânone em seu Extermínio, dois anos antes. E nem é nenhum purismo xiita por se tratar de uma refilmagem do Romero, porque […]

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