741 – O Olho que Tudo Vê (2002)

My_Little_Eye


My Little Eye


2002 / EUA, Reino Unido, França, Canadá / 95 min / Direção: Marc Evans / Roteiro: David Hilton / Produção: Jonathan Finn, Alan Greenspan, David Hilton, Jane Villiers; Christopher Zimmer (Coprodutor Executivo); Tim Bevan, Eric Fellner, Natascha Wharton (Produtores Executivos) / Elenco: Sean CW Johnson, Kris Lemche, Stephen O’Reilly, Laura Regan, Jennifer Sky, Bradley Cooper, Nick Mennell


Taí um daqueles filmes indies de terror pouco conhecido do grande público, que é bem legal. Assisti pela primeira vez O Olho que Tudo Vê no Telecine em uma dessas noites em que mais nada que prestasse passava na TV à cabo, num remoto tempo antes do Now, Netflix e do Popcorn Time, sem dar absolutamente nada, e o resultado acabou me surpreendendo.

Apesar do lançamento deveras tardio no país, e do próprio caminho tortuoso que a produção teve para chegar até a distribuição da Universal Pictures e estreia nos cinemas, sendo que quase foi lançado direto para o vídeo e seu primeiro corte fora um fracasso nos testes de audiência, O Olho que Tudo Vê tornou-se até um semi-hit, se podemos dizer assim, pois surgiu naquele começo do milênio onde os reality shows haviam virado uma verdadeira febre televisiva.

Quem aí não lembra de ficar ligado na televisão nas primeiras edições de Casa dos Artistas, com o Supla e o Alexandre Frota, e os primeiros Big Brother Brasil, que hoje já virou uma carne de vaca insuportável, mas tinha lá sua curiosidade mórbida naqueles tempos. Tudo era motivo de diversas discussões sobre a exploração da imagem, a invasão de privacidade, a busca incessante pelos cinco minutos de fama, a falta de conteúdo desse tipo de programa, o oportunismo e sensacionalismo dos produtores que manipulavam as pessoas em busca de audiência, e por aí vai.

Foi uma sacada das mais interessantes o diretor Marc Evans e o roteirista David Hilton abordarem esses assuntos em um filme de terror. Ainda mais em uma época que o found footage, como os próprios reality shows, não tinham sido copiados à exaustão e tornado-se sempre cada vez mais do mesmo. Hoje isso continua acontecendo com o found footage e os reality shows foram substituídos pelos programas de competições culinárias. E tudo ainda com uma pegada de deep weeb e snuff movies.

Casa dos Artistas!

Casa dos Artistas!

A história é bem simples, e creepy as hell, se você parar para pensar. A produção enxuta, usando o aparato de câmeras espalhadas por uma casa acompanha cinco competidores de um reality show transmitido pela web que devem ficar confinados em um casarão gótico no meio do nada, durante seis meses, e cada pode um levar a bolada de um milhão de dólares. Mas há um detalhe peculiar: se alguém desistir ou abandonar o jogo, todos perdem a grana. O que já vai dar pano da manga para que eles permaneçam juntos, custe o que custar.

Acontece que os seis meses estão se completando e diferente dos BBBs da vida que estamos acostumados, onde rola sempre umas festinhas, culto ao corpo, provas de resistência, pegação generalizada, bebedeira, corpos sarados, banhos de piscina em meio ao verão tropical brasileiro, a Solange cantando “Iarnuou”, o local é completamente ermo, inóspito e faz um frio desgraçado, colocando todos na mais pura provação, e não é sempre que eles vão receber alimentos ou cigarros.

Obviamente os ânimos e nervos vão ficando exaltados, naquele clima de paranoia constante, fora a sensação de sentirem-se sempre observados, além de acontecimentos estranhos devidamente manipulados que vão deixando o ambiente e as reações ainda mais tensas. Certo dia um estranho aparece na casa, dizendo que havia se perdido em uma de suas andanças pela região para praticar esqui, e acaba confidenciando que nunca tinha ouvido falar do programa de Internet que eles estavam participando. E vejam só a surpresa ao rever O Olho que Tudo Vê e descobrir que esse esquiador é na verdade uma ponta de Bradley Cooper, que aparece lá só para causar e trepar com uma das participantes.

Um minuto de silêncio

Um minuto de silêncio

Um dos participantes então consegue hackear uma conexão na Internet e simplesmente não encontra o show na Internet em nenhum website ou sistema de busca. A conta não fecha, pois eles deveriam ter anunciantes e patrocínio, afinal essa é a intenção da exposição de um produto pela Internet que deveria gerar assinaturas e publicidade, e não ser meticulosamente escondido do grande público. Após acessar alguns fóruns, ele descobre que na verdade os cinco desafortunados estão participando de um programa transmitido pela Internet sim, mas que apenas figurões tem acesso e apostam uma nota em qual deles sairá vivo da casa.

Muito mais legal que Big Brother, né? Daí então o filme começa a caminhar para seu tenso clímax, ao melhor estilo caçada humana na aplicação da lei do mais forte, sem contar um tom conspiratório que irá surgir com a mancomunação de um dos participantes e os famigerados representantes da companhia por trás do macabro programa snuff.

Joga contra o longa uma série de situações inverossímeis de furo no roteiro, como, por exemplo, a falta de química entre os personagens que ficaram juntos seis meses vivendo embaixo do mesmo teto e até mesmo a situação de familiares e amigos daqueles participantes, que teoricamente estão em um programa que nem eles conseguem assistir, e isso não levanta nenhuma investigação ou algo do tipo.

Mas em compensação, a percepção na utilização de um tema, que mesmo que não seja inédito, estava em voga e completamente atual, somado as técnicas de filmagem ao melhor estilo cinema verité, a aposta em atores desconhecidos e a construção de uma atmosfera sinistra e claustrofóbica que vai explodir em seu final, acaba fazendo com que O Olho que Tudo Vê torne-se uma película interessante, eficaz quanto experiência de suspense e faz com que o espectador se envolva e entre no clima, até seu final pessimista e desconcertante.

Corta para a dois!

Corta para a dois!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Assisti a esse filme muitos anos atrás, em volta de 2003 ou 2004 acho que dois anos depois da estreia dessa película no cinema – me lembro de ver os sopts TV desse filme na Globo, quando colocava uns 30 segundos de divulgação e a tagline “HOJE NOS CINEMAS”. Considero o “Olho…” um dos filme mais assustadores que já vi. Não pela história em si, mas pela filmagem que dava uma sensação constante de claustrofobia, tanto que eu tive que parar a fita algumas vezes para poder respirar. Só não entendi como um filme tão legal pôde colocar um final patético como aquele. Não digo sobre o final pessimista, que por sinal adoro filmes com finais assim, mas pelo corte abrupto do tom que conduziu o filme todo, com aquela pegada de terror psicológico e que descamba para um cena patética de decapitação, que é esdrúxula.

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