746 – Alta Tensão (2003)


Haute Tension / High Tension / Switchblade Romance


2003 / França / 91 min / Direção: Alexandre Aja / Roteiro: Alexandre Aja, Grégory Levasseur / Produção: Alexandre Arcady, Robert Benmussa; Mehdi Sayah  (Produtor Assistente); Luc Besson  (Co-Produtor não creditado); Andrei Boncea (Produtor Executivo) / Elenco: Cécile De France, Maïwenn, Phillippe Nahon


 

O cinema de terror é um fenômeno cíclico. De tempos em tempos, surge uma nova escola que é responsável por nos entregar as melhores produções do gênero. No começo do século passado, era o expressionismo alemão. Nos final dos anos 70 e início dos anos 80, foi o ciclo splatter italiano. Ainda nos anos 80, o slasher americano. No final dos anos 90 até meados dos anos 2000, foi a vez do J-Horror. Atualmente a bola da vez são as produções francesas, as mais alucinadas, sangrentas e violentas do cinema de terror atual. E o começo dessa nova safra de diretores e películas se deu em 2003, com Alta Tensão de Alexandre Aja.

Hoje em dia, Aja é conhecido por seus filmes extremamente brutais e gráficos, gastando litros e litros de sangue para cobrir tanto suas vítimas quanto protagonistas, tingindo a película de vermelho. E foi Alta Tensão que revelou ao mundo esse apreço gore do diretor francês e de seu fiel escudeiro, Grégory Lavesseur, inspirado claramente no cinema de terror dos anos 70.

E nesse momento em específico do novo século, o cinema sobrenatural havia tomado de assalto o gênero, principalmente com a invasão dos filmes japoneses. Alta Tensão resolveu voltar ao básico, como uma espécie de O Massacre da Serra Elétrica moderno: uma trama bastante simples (mas que se torna diferenciada em seu final), um assassino impiedoso com sede de sangue, uma garota tentando escapar com vida, e muita, mas muita tensão, como seu próprio nome sugere.

Mulher macha!

Marie e Alexia são duas amigas universitárias, que resolvem passar o final de semana na casa de campo dos pais de Alexia, que fica exatamente no meio do nada, perto de um milharal, para poderem se focar em seus estudos. Enquanto as duas pegam a estrada a caminho do local, já temos um ínterim para lá de bizarro, quando um sujeito dentro de um furgão estacionado nas proximidades está recebendo um belo de um boquete. Até aí tudo bem, se esse boquete não estivesse sendo realizado por uma cabeça decapitada!!!! Vai vendo…

Um dos pontos chaves para entender o desenrolar do enredo é que vamos descobrindo que rola uma queda de Marie pela amiga, nutrindo certo desejo lesbo-platônico por ela. Tanto que durante a noite, ela fica espiando a amiga tomando banho e vai para seu quarto ouvir um reggae no seu MP3 player e se masturbar. Só que a calma e tranquilidade do local é quebrada com a súbita visita de um tiozinho caminhoneiro-assassino-piscopata-pervetido (aquele mesmo da cabeça decapitada), que gratuitamente começa a caçar e matar a família de Alex sem a menor piedade. Primeiro ele enfia a cabeça do pai no vão da escada e a decapita empurrando com toda força um pesado móvel contra ela. Depois ele abre a jugular da mãe e corta sua mão fora. Ainda mata o irmãozinho mais novo com um tiro de espingarda à queima roupa. Tudo isso com galões de sangue jorrando na tela.

Marie então tenta se esconder para conseguir libertar Alex, que foi feita de prisioneira pelo assassino. E todo o decorrer da cena que se passa dentro da casa, é de doer o estômago, tamanho o grau de tensão e adrenalina que Aja consegue alcançar. Seguido por uma música minimalista que vai aumentando de intensidade conforme o assassino se aproxima, qualquer ruído, respiração ofegante, gota que cai na pia é o suficiente para te deixar com os nervos em frangalhos. O assassino rapta Alex e vai embora com ela em seu furgão. Marie se esconde no veículo e segue junto até ele parar em um posto de gasolina para abastecer. Ela bem que tenta pedir ajuda para o balconista, que é igualmente morto pelo maluco com uma machadada bem no peito. E tome mais coração na boca quando ele vai até os banheiros procurar por Marie, que por pouco consegue se safar mais uma vez. Marie chama a polícia e resolve ir atrás do cara para acertar as contas, enquanto a música New Born de um Muse antes de fazer trilha sonora para A Saga Crepúsculo vai comendo solta durante uma perseguição de carro.

Tiozinho-caminhoneiro-assassino-psicopata-pervertido

Aí vem a grande reviravolta do filme, que faz você olhar para a tela e soltar um CA-RA-LHO bem alto! Tome SPOILER. Aconselho a pular para o próximo parágrafo ou já sabe, leia por sua conta e risco. Quando a polícia chega ao posto de gasolina e recupera a fita da vigilância eletrônica, eles veem Marie acertando o balconista com o machado. Pronto, daí que descobrimos que na verdade o tal tiozinho caminhoneiro é a garota, completamente surtada, que matou toda a família da amiga em uma crise psicopata passional para que ela seja para sempre só sua. O que se segue é uma atuação visceral das duas atrizes e muito mais banho de sangue por vir até o desfecho. Mas aí você começa a pensar: mas esse filme tem um monte de furos no roteiro. É impossível que tudo que tenha acontecido na casa e no posto de gasolina tenha alguma conexão lógica com Marie e o assassino ser a mesma pessoa. É aqui que está o pulo do gato de Aja. Se você voltar no comecinho da fita, você vai perceber que Marie está internada no hospício e pergunta se já começou a gravar. Ou seja, ela está contando a versão da história que estamos vendo, conforme aconteceu na cabeça dela. O tiozinho assassino era só uma dupla personalidade, uma espécie de válvula de escape da sua mente distorcida para não levar a culpa sobre as atrocidades e loucuras que vinha cometendo.

Pois bem, Alta Tensão é um tipo de filme dúbio, que é oito ou 80. Ou você ama, ou você odeia, principalmente por causa de seu final controverso. E ao mesmo tempo, foi elevado ao status de filme cult e contribui para esse sucesso a excelente fotografia de Maxime Alexandre, com um toque bem peculiar do cinema francês e a maquiagem do lendário Giannetto de Rossi, parceiro de Lucio Fulci em seus filmes mais memoráveis, como Zumbi 2 – A Volta dos Mortos e Terror nas Trevas, que é simplesmente incrível e extremamente realista.

Para concluir, podemos apontar dois principais resultados do lançamento de Alta Tensão. Primeiro foi o nome de Alexandre Aja despontar como um dos mais promissores do gênero, logo raptado para Hollywood e responsável pelos ótimos Viagem Maldita (remake de Quadrilha de Sádicos de Wes Craven), Piranha 3D e a produção executiva do thriller P2 – Sem Saída. Claro que teve também algumas escorregadas, como o sofrível Espelhos do Medo, com Kiefer Sutherland. Produziu também o remake do clássico slasher dos anos 80, O Maníaco. O segundo foi a enxurrada de filmes transgressores franceses, conhecidos como new french extremety, que surgiram ali no começo dos anos 2000, todas ótimas produções, algumas das melhores do cinema de horror da até o final década passada.

Uh lá lá, o goooooooooore…


 

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] e violenta do francês Alexandre Aja. Após ter surpreendido o mundo do terror com o neo-cult Alta Tensão, aquele promissor diretor chamou a atenção de Craven que o levou para Hollywood para a refilmagem […]

  2. […] na medida do possível. Primeiro é bom falar que é um autêntico gore francês, ao melhor estilo Alta Tensão e A Invasora, que flerta muito bem com o exploitaition e o torture porn. É um filme o qual é […]

  3. Jardel disse:

    Parabéns pelo conteúdo, nunca encontrei um site ou blogue que trata-se de informar tão fundamentalmente as coisas, só de alinhar as décadas e as “safras” de filmes correspondentes de terror já tem o meu respeito e admiração.

    • Olá Jardel.

      Muitíssimo obrigado pelo elogio. É exatamente essa a intenção do blog, o maior número de informção, textos, organizar tudo para os fãs de horror como nós! 😉

      Continue acompanhando.

      Grande abraço.

  4. Bruno Rafael disse:

    O filme por si só já é muito bom, e você ainda explicou de uma maneira simples e que deu para entender todos os detalhes que haviam passado da minha percepção no filme.
    Ótimo trabalho.

  5. Kelly disse:

    Crítica perfeita. Acabei de assistir ao filme e achei realmente muito bom! Terror francês tá com tudo,rs…Também gostei bastante de “A Invasora”; o próximo será Martyrs.

    Beijos e bom fim de semana;)

    • Obrigado, Kelly. Que bom que você curtiu Alta Tensão! Adoro esse filme! A Invasora também é demais! Sim, cinema de terror francês rules!!! Assista Martyrs e recomendo também A Fronteira!

      Bjos

      Marcos

  6. marischeel disse:

    Já conhecia o filmes antes de ler seu post. É um dos meus preferidos! Martyrs também é mto bom.

    Bjs

  7. Elaine disse:

    Oi boa noite..onde clico p baixar o filme alta tensao via torrent?

    • Elaine disse:

      Consegui baixar o arquivo..porem qdo extrair…a legenda srt veio em torrent e o filme em saprk torrent…ai a legenda nao baixou n utorrent deu erro..o q faço..p q venha os dois em utorrent??

      • Oi Elaine.

        A legenda não baixa pelo torrent, ela vem junto com o arquivo zipado, em srt. No torrent vem mesmo só o filme, e caso venha legenda, não é em português. Considere então essa que vem zipada na pasta.

        Abs

        Marcos

  8. Marcus Vinicius disse:

    Uau. 2002 foi um ano cheio, hein? Conheci vários filmes que nunca tinha ouvido falar. Mas senti falta de Malditas Aranhas. Sei que não é nenhuma obra-prima, mas é um clássico trash. E sempre é citado na piada das fotos quando tem alguma aranha envolvida.

  9. Papa Emeritus disse:

    Um dos melhores filmes dessa safra francesa.

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