748 – A Casa dos 1000 Corpos (2003)

house-of-1000-corpses-poster


House of 1000 Corpses


2003 / EUA / 89 min / Direção: Rob Zombie / Roteiro: Rob Zombie / Produção: Andy Gould; Danielle Shilling Lovett (Coprodutora); Joel Hatch, Robert K. Lambert (Produtores Associados); Andy Given, Guy Oseary (Produtores Executivos) / Elenco: Sid Haig, William Bassett, Karen Black, Erin Daniels, Joe Dobbs III, Sheri Moon Zombie, Bill Moseley


Hoje a gente já sabe o que aconteceu com a carreira de Rob Zombie como diretor, né? O roqueiro, que sempre foi um fã ardoroso do cinema de terror e da bagaceira trash talvez seja o único, junto de sua esposa Sheri Moon, que acham que ele tem talento para a coisa. Michael Myers que o diga!

Mas lá no longínquo ano de 2003, ou dois anos depois quando A Casa dos 1000 Corpos foi lançado nas locadoras do Brasil, gerou-se uma tremenda excitação e um burburinho esperando pelo debute do líder do White Zombie na direção. O resultado que vimos em tela não foi dos piores do sujeito, como teríamos o desprazer de ver mais tarde, mas também não era nada daquela expectativa toda, um dos filmes mais violentos, controversos, malditos e neo-obra prima do cinema de horror como se pintou por aí.

A história e a experiência visual de A Casa dos 1000 Corpos é tão confusa e entrecortada e bizarra, que chega a provocar náusea, e algo que poderia render muito se pensado no simples, já que ele queria TAAAAANTO fazer a sua versão de O Massacre da Serra Elétrica e Aniversário Macabro, e toda a ode ao exploitation dos anos 70, como vinha alardeado aos quatro ventos, chega a deixar o espectador até com dor de cabeça no meio de tanto recurso audiovisual desnecessário utilizado.

Família Firefly

Família Firefly

O fato é que Zombie acreditou DEMAIS que ele era um cineasta de verdade, gênio, revolucionário, sujeito que seria aclamado pela Cahiers du Cinéma, e resolveu entupir logo seu primeiro filme de um monte de esquizofrenia que faz perder todas as outras referências ao cinema de terror, que transforma aquela brutalidade toda e demência que ele queria imprimir em um verdadeiro pastiche, e deu no que deu: gente bradando aos ventos que ele era gênio, e outra parte achando um lixo e que o sujeito era demente. Caso típico de oito ou 80.

Verdade que o caminho de A Casa dos 1000 Corpos foi bastante tortuoso, uma vez que originalmente a Universal deveria lançar o filme nos cinemas, mas pediu ao roqueiro metido a diretor para fazer duas versões: uma mais branda para o lançamento nas salas de cinema e outra uncut para o home vídeo. Isso lá no ano de 2000. Acontece que no final das contas a Universal desistiu de lançá-lo nas telonas, Rob Zombie causou, e os direitos foram parar na MGM, que em 2002 também desistiu do lançamento no cinema, e gerou outro surto do músico que levou o filme para a pequena e independente Lions Gate, naqueles tempos, e finalmente a fita chegou aos exibidores em 2003.

Só que eis que a Lions Gate, vendo o potencial fracasso nas bilheterias do filme que levaria um NC-17 em letras garrafais, encarecidamente pediu para que Zombie cortasse algumas cenas, e fomos agraciados por essa colcha de retalhos praticamente ininteligível em alguns momentos que conhecemos hoje em dia. Não por menos ele é carinhosamente chamado de “A Casa dos Mil Cortes”. Zombie comeu o pão que o diabo amassou com as dificuldades durante a produção e seu lançamento, interferência do estúdio e tudo mais, mas isso não o exime completamente da culpa do filme que entrega. E está aí a sua continuação, Rejeitados pelo Diabo, que não me deixa mentir.

Fato é que Zombie abusa (desnecessariamente) de lentes, filtros, granulação, cortes rápidos, cenas de uma viagem lisérgica das bravas, imagens sobrepostas e entrecortadas, filmagens amadores em cores terrivelmente saturadas ou em P&B, e por aí vai. Toda a atuação é exagerada demais, caricata, que tenta quase que desesperadamente recriar a família do Leatherface que Tobe Hooper construíra de forma tão simples e sem firulas muitos anos antes. Tem até o Bill Moseley no elenco! Tem também o Sid Haig, a Karen Black, uma pá de ator do gênero que está lá apenas para personificar personagens que forçam a barra ao extremo. Aliás, Zombie não se decidir pelo humor camp ou pela depravação total, o que também prejudica o andamento do filme, que por vezes parece três ao mesmo tempo.

Dr. Satan

Dr. Satan

Isso resulta na velha história clichê (mas não era para revolucionar o cinema de terror?) dos quatros jovens passeando pelo interior dos EUA (completamente molóides e dispensáveis, que não criam o mínimo de empatia com o público) que vão se deparar com um bando de malucos loucos psicopatas, que claro, formam uma família e tem até um avô na parada, até sobrar a final girl que passará por todo tipo de provação até um final completamente esculhambado sem o menor sentido.

Aliás, o filme passa por tantas situações desconexas (tem o museu de horrores que é um tourist trap subaproveitado, tem um tal de Dr. Satan, tem umas cheerleaders sequestradas pela família psicótica…), enxertando personagens, situações inverossímeis, aqueles footages malucos que Zombie fez (provavelmente chapado) em 16mm no porão da sua casa, um bando de  estereótipos clichês, principalmente da família Firefly, que se salva apenas o Otis de Mosley e o querido Capitão Spaulding de Haig (que vai, são bons personagens), que fica difícil acompanhar tudo e criar a mínima linha de raciocínio para que você aprecie um filme como se deve de verdade.

Tudo bem, Zombie quis fazer um filme grotesco, nefasto, pesado com cenas de assassinato, mutilação, gore, escalpelamento, para chocar geral, teve seus problemas lá com edição e cortes para não tomar bomba na bilheteria, algumas cenas realmente são incríveis, mas o conjunto da obra é realmente de cair o cu da bunda, e assim Zombie, não dá para te defender.

Assistir A Casa dos 1000 Corpos pela primeira vez é uma experiência indigesta e lisérgica. Um potencial desgraçadamente desperdiçado. Só que o GRANDE problema é que a estreia de Zombie na direção, hoje em dia, mais de 12 anos depois, acaba virando sem querer sim “uma obra-prima do cineasta” perto do que ele faria depois, principalmente com o amado filme de John Carpenter (e As Senhoras de Salem também é RUIM E CHATO de doer, e já prevejo o PIOR no vindouro 31). E sempre vale lembrar o quanto Rejeitados pelo Diabo é ótimo, e aí você vê que, Zombie, meu querido, às vezes, menos é mais. Mesmo se sua esposa te disser o contrário…

Bem-vindos à Casa dos Mil Cortes!

Bem-vindos à Casa dos Mil Cortes!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Ingra disse:

    Foda-se eu amo os filmes do rob zombie :3

  2. Leandro disse:

    A proposta desse filme é outra… não da pra comparar com a seriedade e tensão que os filmes dos anos 70 possuem. Não acho Zombie gênio nem revolucionário, e nem sou seu defensor. Mas A Casa dos 1000 Corpos pra mim é um puta filme divertido.

  3. andre dias disse:

    sabe eu como sou fã de filmes de terror, nossa achei esse filme sem contexto algum, parece que foge da trama algumas partes do filme, é bem sem nexo o roteiro do filme, eu nao me lembro do genero do filme se era comedia e terror eu tinha locado o filme ainda tinha locadora,mas eu nao assisto essa porcaria de novo, achei um filme xato demais, o final do filme então que decepção, vlw galera

  4. Mari Castro disse:

    Olha, eu como fã do Rob Zombie cantor , sinceramente achei esse filme lixo. Mas como amo ele, ainda tenho esperanças de rever algum dia e quem sabe, mudar de ideia ueheuheuehueh

  5. […] pelo Diabo como o filme mais perturbador e escroto já feito, é óbvio o quanto ele remete A Casa dos 1000 Corpos em sua construção estética, com o uso de granulado, emulsão, filme sujo, fotografia estourada, […]

  6. […] Zombie é oito ou oitenta. Ou você ama ou odeia. Digo isso pelo fato de ter dirigido filmes como A Casa dos 1000 Corpos e o ótimo remake de Halloween (sarcasmo mode on, viu). Depois do fraquíssimo As Senhoras de […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: