77 – As Diabólicas (1955)

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Les diaboliques


 1955 / França / P&B / 114 min / Direção: H.G. Clouzot / Roteiro: H.G Clouzot, Jérome Geronimi (baseado na obra de Boileau e Narcejac) / Produção: H.G. Clouzot, Georges Lorau (não creditado) / Elenco: Simone Signoret, Vera Clouzot, Paul Meurisse, Charles Vanel


 

As Diabólicas é um excelente exercício de suspense e thriller psicológico do diretor Henri-Georges Clouzot. Extremamente bem executado, tenso do seu começo ao fim, essa mistura hábil de terror, suspense, crime, drama, mistério e com pitadas de um viés sobrenatural, é um dos grandes filmes da história da sétima arte e influenciador de diversas outras obras de suspense.

Reza a lenda que o livro que deu origem ao filme As Diabólicas, Celle qui n’était plus, escrito por Pierre Boileau e Thomas Narcejac, por pouco não teve seus direitos comprados por Alfred Hitchcock. Ambos diretores perfeccionistas, dizem que Clouzot conseguiu o direito da obra por uma questão de poucas horas. Hitchcock depois também adaptou um livro da dupla, D’entre les morts, que ganhou o título de Um Corpo que Cai.

Podemos dizer que Hitchcock aperfeiçoou um gênero que Clouzot ajudou a pavimentar. Mas tirando a comparação entre diretores, As Diabólicas é um dos melhores thrillers já feitos. E o melhor de tudo é o momento histórico em que ele está inserido, já que o gênero era bombardeado pelos sci-fis, e aqui o que vemos é uma verdadeira ousadia sem tamanho, fugindo dos padrões do puritanismo Hollywoodiano para escancarar um triângulo amoroso disfuncional, relacionamentos abertos, masoquismo, lesbianismo latente, sexualidade, misantropia e misoginia.

Cantinho da disciplina

Cantinho da disciplina

Na trama, Michel Delassalle (Paul Meurisse) é o diretor de um internato para meninos na França, violento e dominador marido de Christina (Vera Clouzot), de quem se apoderou da instituição e de todo o dinheiro após o casamento. Ele faz a mulher de gato e sapato, humilhando-a em público (vide a cena do restaurante onde ele a obriga a engolir o peixe podre que está comendo) e notoriamente tem outras amantes. Uma delas é Nicole Horner (Simone Signoret), que por incrível que pareça, simpatiza com o drama de Christina, e também não é melhor tratada pelo salafrário.

Cansadas dos maus tratos, Nicole coloca pilha em Christina para ela se separar do marido de uma vez, coisa que não tinha a coragem de fazer, por ser uma mulher medrosa e submissa. A forte Nicole então arquiteta um plano de vingança verdadeiramente diabólico (com o perdão do trocadilho), onde elas irão assassinar Michel, para que as duas fiquem livres do bronco e com toda o dinheiro e controle do colégio. Após misturar um poderoso sonífero na bebida de Michel, as duas enchem a banheira de água e o afogam lá dentro, depois livrando-se do cadáver na piscina na escola em uma noite.

Só que as coisas não saíram como planejado, pois o corpo do desaparecido Michel nunca é encontrado na piscina, mesmo depois de completamente esvaziada, e claramente aquilo começa a levá-las às raias da loucura, jogando uma contra a outra, além de explodir um brutal sentimento de remorso e impotência em Christina. E no decorrer do filme, são ilustradas para os espectadores algumas hipóteses sobre o que realmente está acontecendo, chegando a levantar até uma resolução sobrenatural para o caso. Essas hipóteses começam a ser investigadas pelo comissário Alfred Fichet, que resolve descobrir o paradeiro do diretor sumido. Também reza a lenda que a figura de Fichet serviria futuramente de inspiração para o famoso detetive Columbo, da TV americana. E prepare-se para uma daquelas reviravoltas no final da trama, completamente não usuais para os filmes da época.

Lesbian chic revenge

Lesbian chic

AVISO DE SPOILER. Pule para o último parágrafo ou leia por sua conta e risco. No último ato, após ficarmos intrigados durante mais da metade do filme do que diabos aconteceu com o corpo e o que de fato se passa naquele internato, e de algumas pistas jogadas em cenas realmente singulares, (como a excepcional cena em que um dos estudantes, mentiroso patológico, jura ter visto e encontrado o diretor, que o deixou de castigo após ter quebrado uma janela com um estilingue), vem uma reviravolta sensacional, muito bem trabalhada, em uma sequência verdadeiramente assustadora, daquelas de não tirar o olho da tela, com excelente uso do jogo de luz e sombras, vultos e barulhos, quando finalmente vemos, assim como Christina, o corpo de Michel com seus olhos revirados, levantando lentamente da banheira, colocando a velha de O Iluminado no chinelo no quesito pavor.

Já consumida pela culpa, à beira de um ataque de nervos e com problemas cardíacos, Christina não aguenta ver o marido morto-vivo saindo da banheira e cai dura no chão, morta de susto. É quando vemos Michel tirando as lentes de seus olhos e que ele está vivinho da silva. Na verdade, era um complô orquestrado perfeitamente entre ele e a amante, Nicole, para se livrar de uma vez por todas de Christina e ficar com todo seu dinheiro, já que Michel nunca havia realmente sido dado como morto. Mas o plano não dá certo, pois no mesmo momento eles são desmascarados pelo comissário. Ainda resta uma cena final antes dos créditos, onde fica um quê meio fantasmagórico, quando o mesmo menino (o mentiroso) que havia levado a bronca do diretor que tomou seu estilingue (que nessa altura do campeonato sabemos que estava vivo), está com seu estilingue de volta, e conta que quem o devolveu foi a diretora (que nessa altura do campeonato sabemos que estava morta). Genial.

Claro que antes de mais nada é importante colocar As Diabólicas na perspectiva histórica, depois de termos tido aí quase 60 anos de filmes com reviravoltas no final da trama. Mas esse suspense eterno de Clouzot foi responsável por servir de referência para diversos filmes vindouros do gênero, e sua fórmula copiada à exaustão. E vamos admitir, é um baita de um filme depravado, de relações humanas distorcidas, vingança, mesquinharia, controle e assassinato. Em 1996 ganhou um remake horroroso com a dupla Isabelle Adjani e Sharon Stone nos papeis principais. Passe longe!

Threesome

Ménage à trois


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Carlos Teodoro dos Santos disse:

    Assisti o filme no Art 1
    As Diabólicas de 1955, e fiquei impressionado com a qualidade do filme.Excelente! Apesar de eu ter um bom acervo de filmes antigos de vário gêneros! Suspense e terror tenho bons filmes. Parabéns pela postagem.

  2. Tony Santos disse:

    Assim como o Carlos Teodoro, também assisti a esta maravilha de filme no canal Arte 1, mas ontem (19/04). Simplesmente genial! Recomendo a todos que gostem de um filme digno de nota 10!

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