772 – Madrugada dos Mortos (2004)

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Dawn of the Dead


2004 / EUA / 101 min / Direção: Zack Snyder / Roteiro: James Gunn / Produção: Marc Abraham, Eric Newman, Richard P. Rubinstein; Michael D. Messina (Coprodutor); Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss, Dennis E. Jones (Produtores Executivos) / Elenco: Sarah Polley, Ving Rhames, Jake Webber, Mekhi Phifer, Ty Burrell, Michael Kelly, Kevin Zegers


Descobri que cada vez que eu assisto Madrugado dos Mortos, vou gostando menos. Digo isso porque quando assisti ao filme pela primeira vez, com meus 22 anos, em uma última sessão de sexta-feira à meia-noite quando sua estreia no cinema, com minha ex-namorada e mais um casal, claro que em um multiplex de um shopping center, e ao sairmos da sessão o local estava todo deserto, assim como o estacionamento – o que foi uma sensação MEGA FODA – eu havia simplesmente achado o longa do caralho!

Lembro que comprei o DVD em pré-venda ao ser lançado, louco para ver novamente, e fui assistindo no decorrer dos anos, inclusive com minha última namorada, no começo de 2010, quando eu ainda achava demais e queria muito que ela assistisse (ainda não havia o visto), pois achava dos filmes de zumbi mais legais de sempre.

O que aconteceu então que dessa última vez que o vi, eu achei o filme uma droga? Eu acho que tenho três pontos aí para discorrer sobre essa opinião extremamente pessoal. Primeiro, pode ter sido a saturação, de tantas vezes que eu o vi. Mas pera lá, eu já revi muito mais vezes Tubarão, Alien – O Oitavo Passageiro, O Enigma de Outro Mundo, O Exorcista, e claro, toda a hexalogia Star Wars (sim, incluindo a nova, me julguem), e eles melhoram a cada revisita, e não acho uma droga. Talvez tenha o lance da saturação do zumbi também (obrigado, The Walking Dead).

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Quase um Lucio Fulci

Segundo, é o fato de que eu, no decorrer dos últimos anos, comecei a entender muito mais de cinema e de cinema de terror (cof, cof, cof) do que durante todos os meus outros 30 anos de vida, exatamente pelo exercício que escrever nesse blog me trouxe, assim como análise crítica e principalmente por me aprofundar muito mais na obra social e crítica do subgênero, que é mandada literalmente às favas aqui, contradição por se tratar de um remake de um filme tão contundente quanto Despertar dos Mortos de Romero.

A terceira e última é a droga do Zack Snyder, ponto! Não sei se eu peguei ranço do sujeito, mas MANO DO CEU, como ele é um péssimo diretor. Mesmo que aqui tenha sido seu primeiro filme, 300 ser OK e Watchmen aceitável, aqueles pobres recursos visuais de videoclipe com cortes acelerados e as suas malditas câmeras lentas (que aqui no filme ele já praticava à rodo, dando uma prévia do que estava por vir) e todo seu exagero estilístico, transformou uma obra-prima zumbi numa maratona de mortos-vivos corredores desenfreados sem ter o mínimo porquê de existir, de verdade. E isso é triste.

Contribui aqui o raso e fraco roteiro de James Gunn, anos luz aquém do original, mas que pelo menos, depois se redimiu com Seres Rastejantes (dos melhores e mais menosprezados filmes da década passada) e claro, com Guardiões da Galáxia (e nem tem nada a ver com ser “marvete puxa-saco” e Snyder fazer parte da Distinta Concorrência, afinal, é ele que tá CAGANDO NO PAU com Batman, Superman e cia limitada). Enquanto Despertar dos Mortos era um tapa na cara da cultura do consumismo de massa, do capitalismo, da alienação, Madrugada dos Mortos é só um amontoado de personagens rasos presos em um shopping correndo, pulando e atirando para a nova geração videogame (a crítica consumista – verdadeira intenção dele se passar num shopping, caso contrário poderia ser em qualquer outro lugar – é reduzida a uma única mísera cena de humor de seus 101 minutos).

E para mim, a treta nem são os zumbis atléticos, não. Danny Boyle já havia os introduzido no cânone em seu Extermínio, dois anos antes. E nem é nenhum purismo xiita por se tratar de uma refilmagem do Romero, porque a meu ver, são dois filmes completamente diferentes, e não significa que pela versão do Snyder existir, de Romero precisa desaparecer. Simplesmente, tornou-se um filme desnecessário, que hoje nem em seu gore consegue te prender (mais uma vez, obrigado The Walkig Dead).

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Barrados no shopping

São seus personagens mal trabalhados, sem empatia, suas atitudes idiotas (que não culminam em uma merda quando os motoqueiros liderados por Tom Savini invadem o shopping no original, mais uma vez mostrando o quanto os homens são muuuuito piores, e sim na babaquice de uma moleca que quer ser rebelde e vai tentar resgatar seu cachorro sozinha). Os zumbis estão lá apenas para tomarem uma saraivada de balas, sem o menor contexto histórico ou social, algo sempre presente na mitologia do morto-vivo, como se o espectador estivesse do outro lado de um Kinect para tentar alvejá-los naquela correria desenfreada.

Mas pior que tudo isso mesmo, é a direção de Snyder, seus arroubos de exagero, sua visão pobre de cineasta que abusa dos recursos manjados de videoclipe, suas malditas cenas de ação acelerada mescladas com suas irritantes câmeras lentas (a quantidade de cenas que você vê balas caindo com seus cartuchos vazios no chão em slow motion são impressionantes). A cena da garota grávida dando a luz a um bebê zumbi, sem comentários. E aquela tosquíssima em que eles explodem um botijão de gás quando os ônibus reforçados dos sobreviventes do shopping estão completamente tomados por zumbis tentando virá-los, e de repente, depois da baita explosão, todo aquele mundaréu de corpos em CGI desaparece?

Vai, tiro meu chapéu para o começo do filme, de perder o fôlego, com uma das melhores introduções do cinema de terror, fato. Também para a ótima trilha sonora, que vai de Johnny Cash, Stereophonics a Ron Carrol Band, e o excelente personagem escroto, sarcástico e pulha de um Ty Burrell bem antes de Modern Family. E ah, claro, como posso me esquecer das participações especiais dos “originais” Tom Savini, Scott H. Reiniger e Ken Foree, falando exatamente a sua mais célebre frase: “quando não houver mais lugar no inferno, os mortos caminharão sobre a Terra”.

De resto, é uma pena se decepcionar tanto ao revisitar Madrugada dos Mortos, um filme que você adorou de verdade. :/

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Viu o que dá não escovar os dentes direito?



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Já acompanho o blog a muito tempo e o considero um trabalho hercúleo, necessário e atrevido, que sempre compensou largamente o fato de que, em muitas críticas, uma certa ingenuidade juvenil parece comprometer sua visão de certos filmes, tanto pra endeusar como para detonar (por favor, não leve a mal). Mas essa resenha sozinha já colocou o seu blog em outro patamar pra mim, mostrando que – ao contrário de muita gente que prefere morrer a mudar de opinião sobre o que quer que seja – sua capacidade de revisão tornou-se tão afiada quanto sua dedicação e persistência e talvez isso seja até mais importante do que mera erudição. Sem contar que (falando agora bem pessoalmente) é uma delícia ver “Madrugada dos Mortos” (e o cinema do Snider como um todo) finalmente colocado na sua verdadeira proporção, sem a afetividade inflacionada por hypes que sempre o sustentaram. Depois de aturar tanta borracha sobre esse cara vomitada internet afora e não encontrar nunca a menor correspondência disso nos filmes do dito cujo, meu senso de justiça libriano estava quase infeccionado. Ainda viverei pra ver o dia em que a galera vai começar a se tocar que nem 300 foi lá essas coisas e Watchmen foi um dos maiores equívocos da história das adaptações… mas divago.

    Parabéns pelo blog, meu caro. Fico imaginando o que pode acabar aparecendo de novo em críticas antigas quando você entrar numa terceira fase tipo “10.001 horror movies”. 😉

    • Marcos Brolia Marcos Brolia disse:

      Hey Rodrigo. Claro que não levo a mal, e fico mega feliz com seu comentário. É o lance que o blog é um exercício pessoal, e eu tento ser realmente passional em minhas opiniões, para o bem ou para o mal, como se fosse uma conversa de boteco.

      Hahhahahaha, senso de justiça libriano é ótimo! Pois é, os filmes do Snyder não dá, MESMO… A cada revisita, tanto Madrugada, quanto o próprio 300 ou mesmo o Watchmen (Sucker Punch é simplesmente intragável e mal consegui terminá-lo da primeira vez que vi, então não haverá uma segunda chance), eles pioram. Homem de Aço eu já não gostei desde o começo, até porque AQUELE NÃO É O SUPERMAN. Você já viu um vídeo no Youtube que mostra como o filme seria lindo, pelo menos visualmente falando, se ele simplesmente tivesse cor, e ele não fosse afetado pela “Nolanização” que eles querem impor erroneamente na DC/Warner? Batman é Trevas. Superman é luz (e não destrói uma cidade a seu bel prazer em uma treta e quebra pescoço de inimigos). Simples, conceitos diferente e opostos que deveriam ser respeitados. Fora o combo das afetações do Snyder na direção que a gente BEM conhece. Eu cravo que Batman Vs Superman vai ser uma das maiores bombas da história, ele pode até render uma puta bilheteria, mas vai ser detonado por “críticos” e fãs (fã mesmo, não fanboy puxa-saco flame thrower dos Omeletes da vida), e vai cagar todo o esquema e planejamento da DC. Também divaguei agora, mas bom colocar as coisas para fora no final do ano.

      Mas acho que mudar de opinião em revisitas faz parte do nosso amadurecimento como ser humano e como cinéfilo, ou fã de quadrinhos, livros e tudo mais, conforme você vai ganhando mais conhecimento de causa e seus gostos e sua análise vão mudando.

      E cara, fique a vontade sempre para comentar os posts, malhá-los ou qualquer coisa que lhe convenha!

      Abração e muito obrigado. E ah, desculpe a demora por responder.

      Marcos

      • Passando por aqui de novo pra agradecer a resposta ao meu comentário e (também e principalmente) pela divulgação da peça que eu dirigi, o “Memento Mori”. Valeu demais, Marcos! Eu e toda a galera da Companhia da Sombra agradecemos muito. =D

  2. Papa Emeritus disse:

    Fala, Marcão. Agora que encontrei a barra de comentários, eu pensei que tinha sido excluída do site. (Tá bom, eu sou meio burrinho pra procurar as coisas).

    Bom, vamos lá. Eu tenho uma opinião 99,9% igual a sua, com a exceção de que ainda gosto desse filme. Minha história com ele é mais ou menos assim:

    Quando eu vi o remake do Massacre da Serra Elétrica a primeira vez eu ODIEI o filme. E quando eu vi Madrugada dos Mortos pela primeira vez eu ADOREI essa merda.

    Com o passar dos anos eu fui perdendo meu preconceito com o remake do Massacre, que hoje gosto pra caralho, mas por algum motivo cada vez mais eu fui gostando menos desse remake de Despertar dos Mortos. E os motivos pra começar a desgostar do filme são muito semelhantes ao que você postou. Mas… eu ainda gosto do filme porque eu fiz uma separação de “joio do trigo”. Eu simplesmente considero Madrugada dos Mortos um filme de zumbi qualquer e não um remake da obra-prima de 1978. E por incrível que pareça isso funciona. Tem vários filmes de zumbis por aí que são merdas esclerosadas e mesmo assim consigo assistir e gostar de várias dessas coisas.

    Não é que eu ache Madrugada dos Mortos ruim, pra falar a verdade eu acho o melhor filme do Zack Snyder (odeio 300, não suporto Watchmen, e olha que é fiel aos quadrinhos, odeio Sucker Punch, acho a Lenda dos Guardiões apenas legalzinho, e tenho problemas sérios com Man Of Steel). Mas enfim, eu não acho o filme ruim e continuo gostando dele… mas ele já perdeu a graça que tinha quando vi a primeira vez. Simplesmente perdeu totalmente a graça. Por que ainda gosto do filme? Como eu disse, considerando ele um filme de zumbi qualquer, pra fugir de qualquer comparação com o clássico de 1978, eu consigo engolir. Se comparar… aí simplesmente não dá. O filme de 1978 ESMAGA (como diria o Hulk) essa versão do Snyder.

    Abração!

    • Marcos Brolia Marcos Brolia disse:

      Pois é, também acho um filme independente, que nem deveria ser Dawn of the Dead… Mas é isso mesmo, ele perdeu a graça, zumbi saturou, e tem o nosso querido Snyder dirigindo, e não passou pela revisita!

      Abs

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