779 – Abismo do Medo (2005)

The Descent


2005 / Reino Unido / 99 min / Direção: Neil Marshall / Roteiro: Neil Marshall / Produção: Christian Colson, Paul Ritchie (Co-produtor), Ivana MacKinnon e e Keith Bell (Produtores Associados), Paul Smith (Produtor Executivo) / Elenco: Shauna Macdonald, Natalie Mendoza, Alex Reid, Saskia Mulder, Nora-Jane Noone


Abismo do Medo é uma sensacional produção independente britânica e definitivamente um dos melhores filmes da década passada. Entre os três melhores para ser mais preciso! Só o pôster, que é inspirado no quadro In Voluptas Mors de Salvador Dalí, já é fantástico para começo de conversa!

E há três fatores que contribuem para essa obra ser tão assertiva: O primeiro é a ambientação. Ficar preso em uma caverna escura e claustrofóbica por si só já é motivo para se ter medo o suficiente; O segundo é o gore. Quem curte ver sangue, jugulares sendo dilaceradas, peitos sendo abertos, órgãos sendo devorados, fraturas expostas e muita carnificina, não irá se decepcionar; E o terceiro é a construção do clima. Um dos grandes maus que acometem o gênero é que geralmente os protagonistas são simplesmente descartáveis em prol da matança desenfreada, e você acaba não simpatizando e se envolvendo com nenhum deles. Aqui a coisa é diferente. Marshall, que também escreveu o roteiro, vai trabalhando muito bem o psicológico do seu grupo de cinco mulheres e nos envolvendo na trama, não mostrando suas cartas toda de uma vez, para que quando chegue em seu ápice, seja assustadoramente impactante.

O filme começa após Sarah (a excelente Shauna McDonald) sofrer um acidente traumático na estrada que resulta na perda do marido e filha pequena, ao voltarem de um rafting realizado com suas outras três amigas aventureiras. Após um ano afastadas, Juno, Beth, Rebecca, Sam e a novata no grupo Holly, resolvem se reencontrar com Sarah para realizar uma expedição em um complexo de cavernas nas Montanhas Apalaches nos Estados Unidos e tentar reafirmar os laços de amizade, principalmente da parte de Juno, que não conseguiu segurar a barra e se afastou da melhor amiga, até por ter um certo peso na consciência que vamos descobrir mais tarde, mas que já dá para sacar logo no comecinho da fita.

Não dê nem um pio!

Juno decide então, sem consulta prévia, que as cavernas que elas iriam explorar eram entediantes e apenas para turistas, e descobre um novo complexo ainda não catalogado, resolvendo em segredo arrastar todas as mulheres para lá, afim de poderem explorar juntas e talvez até batizar com o nome de Sarah (mais uma vez o sentimento de culpa aparece). Porém, como até uma delas explica durante a trilha para encontrar a entrada, lá embaixo elas estão sujeitas a sofrer de desidratação, desorientação, claustrofobia, ataque de pânico, paranoia e alucinações. Está bom para você?

Tudo está indo bem durante a aventura, até que em um incidente, uma das garotas fica presa em um dos túneis e na tentativa de a socorrerem, acabam provocando um desmoronamento e as cinco se veem presas em uma caverna que não conhecem e não fazem a menor ideia de onde fica (e se há) uma saída. Além da forte tensão humana crescente, que logo vai começar a gerar conflitos e lavagem de roupa suja entre o grupo, Marshall enfia sua câmera em túneis apertados, escuros e deixa o ar rarefeito, criando uma enorme sensação de mal estar nos espectadores.

Após passarem por diversos perrengues para tentar encontrar a saída, faltando pouco mais de 45 minutos para o filme terminar, é que temos o primeiro vislumbre real de que o perigo que elas vão enfrentar nessas cavernas é muito pior. Se você não sabe nada sobre o filme e nunca leu a respeito, não faz a menor ideia do que te aguarda. Ali embaixo, moram horrendas criaturas mutantes carnívoras, completamente adaptadas para viver naquelas condições inóspitas graças a séculos de evolução (ou involução), que vão persegui-las, sendo os responsáveis por um verdadeiro banho de sangue e sequências de sustos e mais sustos.

My precious!

Neil Marshall (que antes já havia feito o ótimo filme de lobisomens Dog Soldiers – Cães de Caça) é brilhante por trabalhar em Abismo do Medo alguns dos piores medos do ser humano: lugares fechados, escuridão e o medo do desconhecido. Trabalhando muito bem o perfil de cada uma das garotas, vemos a desesperada corrida delas pela sobrevivência, que vai levando-as a um estado alterado de loucura e adrenalina para tentarem escapar vivas daquele pesadelo. Principalmente no caso de Sarah, que devido ao histórico de vida, ter que tomar remédios para combater a depressão e tudo mais, para surtar é um pulo. Ela ainda vai sendo banhada de sangue, e até o final do filme, se transforma em uma espécie de Ash de saia.

Outro ponto positivo que Mashall aplicou é foi ter decidido gravá-lo em ordem cronológica, o que difere bastante do jeito de se fazer cinema normalmente. A sequência que vemos no filme é a mesma que as tomadas foram feitas. E com isso, ele também aproveitou para deixar as atrizes trabalharem juntas e começarem a formar seus laços de amizade e afinidade no set, criando essas relações de convivência antes de jogá-las na cova dos leões para enfrentar as terríveis criaturas. E por não ser um filme de estúdio e muito menos de Hollywood, Marshall conseguiu imprimir um final completamente trágico e desanimador.

Volto a repetir: Abismo do Medo é uma das três melhores produções de terror da década. É o filme mais claustrofóbico que vi desde Alien – O Oitavo Passageiro. E mais um que tive o prazer de ver nos cinemas aqui no Brasil, mesmo que com mais de um ano de atraso com relação ao lançamento. Se você ainda não assistiu essa obra prima do gênero, não perca mais tempo e veja agora mesmo. Uma pena que com o sucesso, uma inevitável continuação foi feita. Não é de tudo tão ruim, mas perde o quesito surpresa por você saber o que te aguarda naquele labirinto subterrâneo e principalmente por desperdiçar a genialidade do final do primeiro filme.

Refrescância!


 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=l5I1q4KhKNU]


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. gugu disse:

    acho que com uma produção melhorzinha seria mais interessante… acho meio mal gravado ele >.< n da pra entender oq tá na tela kk

  2. Matheus L. CARVALHO disse:

    Eu gostei pra caramba desse filme!

    Um dos melhores da última década! Assustador pra caramba!

    10,0

  3. Papa Emeritus disse:

    Filmaço!

    Assisti ele a primeira vez em dvd, eu acho. Esse é o tipo de filme que você torce pelos personagens humanos e não pelos monstros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *