780 – Água Negra (2005)

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Dark Water


2005 / EUA / 105 min / Direção: Walter Salles / Roteiro: Rafael Yglesias / Produção: Doug Davison, Roy Lee, Bill Mechanic; Diana Pokorny (Coprodutora); Kerry Foster (Produtor Associado); Ashley Kramer, Todd Y. Murata (Produtores Executivos) / Elenco: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Tim Roth, Dougray Scott, Pete Postlethwaite, Ariel Gade


Se existe uma ÚNICA coisa em que Água Negra é melhor que sua contraparte original nipônica, é a musa, beldade, linda, estonteante Jennifer Connelly.

Vai, para ser sincero, o remake americano, que tem direção brazuca de Walter Salles, também acerta em cortar aquele demorado epílogo de Dark Water – Água Negra de Hideo Nakata, condensando em uma única cena final com um efeito parecido. Mas para por aí.

Não que seja um filme ruim, mas é aquela sensação de déja vú, uma vez que refilmagens do J-Horror costumam ser cópias em carbono com grandes diferenças culturais e estéticas, com exceção de O Chamado, só quem sem o horror sobrenatural pungente e assustador de uma fita asiática. Porém ambas são tristes, daqueles de dar vontade de cortar os pulsos ao subir dos créditos.

Salles mantem a tônica em um drama de horror, claro com sua parcela de sobrenatural, mais preocupado no drama familiar, algo também salientado no filme de Nakata, baseado no livro de Kôji Suzuki, tal qual Ring – O Chamado, e apoiado pela excelente interpretação de Connelly como a mãe solteira, cheia de problemas financeiros e psicológicos que precisa lutar como uma leoa para cuidar da filha, Cecilia (Ariel Gade), que batalha pela sua guarda na justiça com o ex-marido (papel de Dougray Scott), enquanto tem de se mudar para a Roosevelt Island, vizinha pobre de Manhattan, que não para de chover um instante, morando em um condomínio de apartamentos velhos e caindo aos pedaços.

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Mas só chove, choooooove!

Junto de Connelly e toda sua sofrência (como uma mulher tão linda pode sofrer tanto, meu Deus!) está todo um time de excelentes atores, como John C. Reilly, Tim Roth e Pete Postlethwaite, o diretor de fotografia Affonso Beato, a edição de Daniel Rezende e a trilha sonora de Angelo Badalamenti, colaborador de David Lynch e criador da trilha de Twin Peaks, que contribuem totalmente com Salles para que Água Negra seja um filme correto, climático e lúgubre, bem acima da média do mainstream do horror americano e, mais ainda, das fatídicas refilmagens.

A goteira negra que surge no quarto de Ceci e vai causando uma série de fatores de estresse psicológico que vão minando as forças de Dahlia, juntando aí a falta de grana, trabalhar em um emprego enfadonho, ter de lidar com um trauma particular com a própria mãe que a abandonara, o marido que pega pesado no gaslighting e morar em uma pocilga, tira de Connelly uma atuação visceral digna de um Oscar. Para piorar aparece uma nova “amiga imaginária” para sua filha, que é onde entra o elemento do terror sobrenatural, inspirado no filme de Nakata, explorado com o mesmo desfecho, tristeza e melancolia.

Falando em sofrência, o grande diferencial entre a versão americana e japonesa é que os japoneses não são tão melodramáticos e emotivos quando toda a sociedade ocidental, e muito mais religiosos e apegados nos aspectos espirituais e nas metáforas de uma sociedade milenar que tem de se ver às voltas com problemas inerentes do mundo moderno. Dark Water assusta mais. Água Negra emociona mais. Ambos são sabiamente calcados no horror psicológico, com louvor.

A beleza plástica e a carga dramática de Água Negra são mantidas por Salles com unhas e dentes, e muito bem captadas por Connelly, mesmo que no frigir dos ovos, o diretor de Central do Brasil e Diários de Motocicleta renegue a fita por conta de problemas e interferências de produtores, que queriam entupir o filme de efeitos de CGI e jump scare, para funcionar muito bem para o público americano médio. O resultado final é inferior ao original, porém decente.

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Mãe, não usaram tigre…


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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