781 – O Albergue (2005)

Hostel


2005 / EUA / 94 min / Direção: Eli Roth / Roteiro: Eli Roth / Produção: Chris Briggs, Eli Roth e Mike Fleiss, Daniel Frisch e Philip Waley (Co-produtores), Boaz Yakin, Scott Spiegel e Quentin Tarantino (Produtores Executivos) / Elenco: Jay Hernandez, Derek Richardson, Eythor Gudjonsson, Barbara Nedeljakova


Eli Roth é um sujeito controverso e meio doente. Agora imagine quando ele encontra um sujeito ainda mais doente e conta a sua ideia de um filme onde viajantes são torturadas no leste europeu por pessoas que pagam muita grana para satisfazer esse seu desejo macabro. Acontece que esse outro sujeito é o über cult Quentin Tarantino, que achou a ideia do amigo o máximo e resolveu produzir o filme. Daí surgiu O Albergue, o suprassumo do novo cinema torture porn.

Filhos da cultura grindhouse e do culto ao trash, Roth e Tarantino apresentaram sua ideia para a ascendente Lion Gates, que já estava produzindo a sequência do sucesso Jogos Mortais, e tinham tido uma excelente experiência com Roth, que havia dirigido anteriormente para eles Cabana do Inferno (lançado diretamente em DVD por aqui), um filme gore e com pitadas de humor negro à lá Sam Raimi e Peter Jackson, com uma ninharia de orçamento (1,5 milhão de dólares para ser mais preciso), que faturou 30 milhões ao redor do mundo. O sinal verde foi dado na hora.

Roth entrega uma fita sem firula e nenhuma frescura. É cinema cru e brutal com sangue, tripas, olhos sendo arrancados, membros decepados, uso de furadeiras, alicates, maçaricos e por aí vai. Pega dois americanos babacas, enfia em uma Europa mais estereotipada possível, principalmente tratando-se de leste europeu, e que não querem saber de mais nada além de morte, sexo, tortura, sexo, drogas e eu já falei de sexo?

É das maiores quantidade de litros de sangue e peitos aparecendo no cinema nos últimos tempos. Tanto que ele não fez a menor questão de pegar uma censura menor que R. Aqui no Brasil mesmo, que pegamos classificações mais brandas que nos EUA (por exemplo, o recente Prometheus lá saiu como R e aqui como 14 anos), o filme teve uma censura 18 anos. E o que fez de O Albergue um sucesso absoluto foi todo o marketing trabalhado em cima dele, alardeando aos quatro ventos que era uma produção de Tarantino (Roth ficou até em segundo plano, principalmente no salseiro feito aqui no Brasil) e que era extremamente gráfico e violento, um dos filmes mais polêmicos dos últimos tempos e que nego saía vomitando do cinema nas sessões.

Não vai mais cantar, Zezé!

Enfim, Paxton (Jay Hernandez, clone de Zezé di Camargo) e Josh (Dereck Richardson) são dois americanos em uma eurotrip, viajando junto com o islandês Oli, que como mesmo dizem, estão pouco se lixando com os passeios culturais e visitas a museus no Velho Continente. Querem mesmo é fumar maconha nas coffee shops de Amsterdã, visitar as vitrines do distrito da luz vermelha e tentar ficar o mais louco e conseguir o máximo de mulheres possíveis.

Nessa necessidade compulsiva por sexo, os três acabam conhecendo Alex, que dá a valiosa dica a eles de que se eles querem realmente conhecer as mulheres mais lindas e fáceis do planeta, devem desistir de ir à Barcelona e ir para a Bratslava, capital da Eslováquia. Lá todas as mulheres são deusas do sexo e é só chegar junto que você as leva para cama. Ainda mais por faltar homem por causa dos longos anos de guerra. E se você tiver sotaque americano ainda, pronto, torna-se irresistível. Alex passa o endereço do albergue para se hospedar na cidade e lá vão os três mochileiros.

Ao chegar no local, as promessas de Alex se tornaram realidade. Ao chegar no quarto 237 do albergue, eles já conhecem as estonteantes e nuas Natalya e Svetlana, com que já se envolvem na sauna e na balada na mesma noite. Porém na manhã seguinte, Oli simplesmente faz o seu check-out e aparentemente foi embora com uma outra turista japonesa, que deixou sua amiga também sozinha. Intrigados, os dois começam a suspeitar que algo estranho está acontecendo, mas não o suficiente para passarem mais uma noite na discoteca com as garotas, que os dopa com algo colocado na bebida. Paxton acaba por cair desacordado no depósito da balada e não é encontrado. Já Josh não tem a mesma sorte, e é levado para o quartel general de um grupo que fornece turistas para serem torturados e assassinados por pessoas podres de ricas e com sérios problemas mentais. Paxton vai em busca do amigo e também é capturado, porém consegue fugir e tenta lutar por sua vida e não se tornar a próxima vítima.

1kg de alcatra, 1kg de contra-filé e 1kg de maminha…

Roth tem alguns méritos que fazem seu filme funcionar muito bem, além do grau extremo de violência e maquiagem perfeita. Primeiro é o fato de usar um destino pouco conhecido do grande público, principalmente dos americanos. A Bratslava e os países ex-comunistas do leste europeu nunca foram tão explorados no cinema, então isso dá um certo ar de, podemos dizer, credibilidade, que coisas realmente sinistras podem acontecer por lá, ainda mais por se tratar de países pobres perante os grandes centro econômicos europeus e por terem sido tão castigados pela guerra e pelo comunismo durante tanto tempo. Detalhe que o filme é rodado na verdade na vizinha República Tcheca e não na Eslováquia propriamente dita. E outro importante detalhe crível do filme, é que é sabido como as mulheres do leste europeu são lindas. Além disso, Roth trabalha muito bem seus personagens antes de começar a derramar um caminhão de sangue na tela. Ele vai apresentando cada um deles, mostrando seus defeitos, seus anseios, e faz com que acabem gerando empatia para o público, sem apressar as coisas em uma matança desenfreada, como um filme slasher qualquer.

Na verdade para quem quer só um filme de terror pesado, O Albergue demora bastante para pegar, parecendo muito mais uma comédia adolescente. E esse alívio cômico é uma saída para Roth preparar seus espectadores, deixando os relaxados antes do impacto brutal da sua metade final. Outro desses alívios cômicos é a gangue de crianças que vira e mexe aparece para assaltá-los. Assim como o doidão personagem de Oli, o responsável por algumas boas risadas em sua busca incessante por sneepur (clitóris em islandês). Ainda há espaço para duas pontas especiais no filme, do próprio Eli Roth, que aparcece chapando no coffee shop em Amsterdã e de Takashi Miike, diretor japonês de filmes extremos como Ichi – O Assassino e Audition (certamente uma das grandes influências de Roth para realizar esse filme), que se apresenta como um dos clientes da organização e dá a dica para Paxton não entrar ali dentro, pois ele pode gastar todo seu dinheiro lá. É impagável.

No final de O Albergue, além da violência gratuita e desmedida, Roth ainda tenta colocar um pouco de filosofia no filme, onde nos pegamos nos questionando se realmente existe esse tipo de gente em um mundo tão retardado como esse que vivemos, e se você realmente pode fazer qualquer coisa com dinheiro, rebaixando o ser humano para satisfazer desejos doentios e reduzindo nossa presença na terra a um saco de carne, vísceras e sangue em prol da diversão do outro. Pense nisso!

Ela não vê motivo para toda essa violência!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] horror: turistas em perigo, inclusive que ganhou um ressurgimento nos últimos anos, muito culpa de O Albergue, de Eli Roth. Fora isso, De Repente, a Escuridão mantém-se constantemente baseado em um sólido […]

  2. Matheus L. CARVALHO disse:

    Eu destetei esse filme, Marcão.
    Pode até ser um dos filmes mais elogiados de 2005, mas, eu não gostei nada dele.
    Achei apelativo, de mal gosto, pornográfico… Enfim. Me deixou super desconfortável, me obrigando a virar a cara toda vez.
    Eu acho que o “torture-porn” foi um subgênero que não funcionou. E esse filme é o melhor exemplo disso – junto com “Jogos Mortais”…
    Quando assisti esse filme pela primeira vez, em casa, sai da “sessão” desnorteado, sem noção de nada, e até com falta de apetite – senti a mesma coisa com “Viagem Maldita”, que, é até um filme bacana…

    Bom, Marcão, desculpe a minha honestidade, mas, eu não gosto desse filme…

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  3. […] estamos na metade da década quando o torture porn começou a pegar de vez, Jogos Mortais e O Albergue já haviam chocado a galera e escancarado a porteira, então, a ideia foi manter o nível de gore e […]

  4. Esse Filme é Foda !!!!!!!!!!!!!!

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