79 – O Mensageiro do Diabo (1955)

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The Night of the Hunter


1955 / EUA / P&B / 93 min / Direção: Charles Laughton / Roteiro: James Agree (baseado na obra de Davis Grubb) / Produção: Paul Gregory / Elenco: Robert Mitchum, Shelley Winters,  Lilian Gish, James Gleason, Evelyn Varden


 

O sinistro O Mensageiro do Diabo é o único filme do grande ator Charles Laughton (o Dr. Moreau de A Ilha das Almas Selvages) com diretor, e é uma fita pesada e perturbadora, que escancara a maldade humana travestida da fé, trazendo um brilhante Robert Mitchum no papel de um dos mais significativos (e horripilantes, por que não?) vilões do cinema.

Baseado no romance homônimo de Robert Grubb, infelizmente O Mensageiro do Diabo foi um fracasso retumbante de bilheteria, o que acabou cortando pela raiz a recente carreira de Laughton como cineasta. Uma verdadeira pena, pois o jeito que a história é contada, seus ângulos inusitados para os padrões Hollywoodianos de época, a linda fotografia em preto e branco, melancólica e quase expressionista, somada também ao bom e velho jogo de luz e sombra, torna a fita em um dos mais importantes exercícios da sétima arte e do suspense, tornando-se um clássico cultuado apenas anos depois de seu lançamento (como é de costume).

Pode se enganar quem pensar em uma trama demoníaca ao pé da letra pelo título em português do filme. Não, não é nada disso. Mas assistindo ao filme fica aquela certeza de que em uma das raras vezes na história, o título que a película ganhou no Brasil ficou muito melhor do que sua tradução literal, que seria A Noite do Caçador.

Porque o assustador reverendo Harry Powell de Robert Mitchum é realmente um mensageiro do diabo. Psicopata, ladrão, e implícito serial killer de mulheres pecaminosas nas horas vagas, utiliza da palavra de Deus, cânticos religioso, sermões enfurecidos e de todo seu charme e lábia repugnante para trazer nada mais que o mal puro. Sua caracterização é perfeita, com seus costumes pretos, chapéu estilo puritano e tatuado nos nós dos dedos da mão direita AMOR e da esquerda ÓDIO.

TIpo O Exorcista...

TIpo O Exorcista…

A trama toda gira em torno de 10 mil dólares roubados por Ben Harper (Peter Graves) durante um assalto a banco na Virgínia do Oeste em plena Depressão. O motivo do roubo? Um dos mais nobres. O pai cansado de ver crianças vagando com fome e maltrapilhas pela América durante aqueles tempos, resolve fazer o pé de meia dos filhos, John e Pearl, os únicos que sabem onde o dinheiro foi guardado. O pai deles é preso e condenado à forca por uma morte durante a escapada. Na prisão ele conhece Powell, que descobre sobre a fortuna (sim, 10 mil dólares era um fortuna naquela época).

Ao sair da prisão, a primeira coisa que o reverendo faz é ir até a cidade de Harper, decidido a conseguir colocar a mão na grana, custe o que custar, nem que para isso se case com a viúva Willa Harper (Shelley Winters), transformando-a em uma cristã fervorosa para depois matá-la com seu canivete, e coagir os dois meninos de qualquer forma, para descobrir onde está o dinheiro. E parece que Mitchum adora esse lance de personagens que saem da prisão e vão em busca de vingança / dinheiro / assassinato, pois ele também interpretou o Max Cady original em Círculo do Medo, mais tarde refilmado por Martin Scorcese como Cabo do Medo, trazendo Robert De Niro no papel.

Acuados, os pequenos John e Pearl fogem rio à baixo, sempre com Powell no encalço, para encontrar abrigo no lar de Rachel Cooper (Lilian Gish), a força motriz que representa o bem neste filme, que cuida de algumas crianças carentes. Powell então seduz uma das jovens protegidas de Cooper e continua sua perseguição às crianças até o rancho da Sra. Cooper, montando tocaia e cantando “Confie em Jesus”, em uma das cenas mais climáticas do filme.

Auxiliado pela belíssima fotografia de Stanley Cortez, O Mensageiro do Diabo é sempre comparado com uma espécie de fábula infantil, em um ensaio sobre ganância, psicose e fé. É uma versão humana e macabra do conto da Chapeuzinho Vermelho, com o personagem de Mitchum fazendo às vezes de Lobo Mau. E durante toda a projeção, algumas cenas são simplesmente memoráveis, como: a queda de braço de Powel com ele mesmo, contando a história da eterna luta entre Amor e Ódio / Bem e Mal; a descida das crianças fugitivas pelo rio, sempre perseguidos pelo trotar lento de Powell em seu cavalo, visto em uma perspectiva da gigante fauna e flora às margens (dando luz ao quanto os pequenos estavam indefesos); a cena em que Willa está dando seu testemunho milagroso na tenda que Powell armou para pregar na cidade; ou mesmo a poética tomada aquática quando o corpo de Willa jaz no fundo do rio, empurrada com carro e tudo, pelo seu novo marido psicótico.

Mesmo sendo um filme amoral, o final de O Mensageiro do Diabo é uma mensagem de esperança, de que na queda de braço fictícia daquele homem que (como muitos por aí) usa a palavra de Deus para ludibriar as pessoas, escondendo o lobo em pele de cordeiro, o mal acaba por sucumbir, afinal era o que podia se entregar para a plateia naqueles tempos. E em toda a dança que envolve psicose, manipulação, fé e assassinato, o repulsivo reverendo está convicto de tudo aquilo que faz, desde sua obsessão por dinheiro, mentiras compulsivas e seus jogos psicológicos, realmente fazendo jus ao título nacional do filme.

Amor. Ódio.

Amor. Ódio.


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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