790 – Jogos Mortais 2 (2005)

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Saw II


2005 / EUA, Canadá / 95 min / Direção: Darren Lynn Bousman / Roteiro: Leigh Whannell, Darren Lynn Bousman / Produção: Mark Burg, Gregg Hoffman, Oren Koules; Greg Copeland, Daniel J. Heffer (Coprodutores); Peter Block, Jason Constantine, Stacey Testro, James Wan, Leigh Whannel (Produtores Executivos) / Elenco: Tobin Bell, Shawnee Smith, Donnie Wahlberg, Erik Knudsen, Franky G, Glenn Plummer, Emmanuelle Vaugier, Dina Meyer


O primeiro Jogos Mortais, dirigido pelo hoje estrelado diretor de terror, James Wan, e escrito por Leigh Whannell (dobradinha que depois nos brindaria com Sobrenatural) foi um hype só quando lançado, dando o pontapé inicial em um dos subgêneros modernos deste século, o torture porn, angariando elogios de público e crítica. Tão certo como 2+2 = 4, que a Lions Gate se aproveitaria do sucesso para uma sequência, que depois se tornou uma franquia, com um filme lançado todo ano.

Jogos Mortais 2 chegou com uma tremenda expectativa, como uma expansão da mitologia do Jigsaw de Tobin Bell, o mais novo (e marcante) movie maniac do século, e novas daquelas armadilhas, geringonças terríveis, para aqueles que não dão valor a vida tentarem lutar por sua sobrevivência. Era o alvoroço do momento no cinema de terror, e quando ele chegou aos cinemas, onde fui conferir no mesmo ano do lançamento atrasado do primeiro longa pela Paris Filmes aqui no Brasil, enquanto TODO mundo havia adorado e achado o segundo melhor que o original, minha opinião não havia sido bem essa.

Hoje, passados mais de dez anos e depois de pelo menos umas duas revisitas, atesto com mais veemência o quanto não gosto de Jogos Mortais 2, por três motivos bem claríssimos, pelo menos para minha pessoa. O primeiro deles (mas não o pecado mortal do longa), é o roteiro, obviamente. Darren Lynn Bousman – que criou a história original dessa sequência, outro nome que até hoje se beneficia de seu envolvimento na franquia, claro que anos luz de distância do sucesso que Wan atingiu – na verdade escreveu o roteiro de um filme completamente independente, rejeitado diversas vezes pelas produtoras por ser considerado “muito violento”.

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Eis que Jogos Mortais hypou em Sundance, estreou como um estouro nas bilheterias, o torture porn começou a bombar e a Lions Gate, que lembrou daquele roteiro que era a cara do filme, chamou Bousman para transformá-lo na sequência, trazendo mais tarde Whannell ao barco com as suas ideias originais para uma continuação apropriada, principalmente trazendo um pouco da história de Jigsaw, nas últimas por causa do câncer em seu cérebro, e a construção de seu legado para a personagem Amanda Young de Shawnee Smith.

Até aí tudo bem, é uma prática comum de Hollywood recauchutar roteiros que sai mais barato que contratar alguém para escrever todo um novo, mas o grande problema é a quantidade absurda de furos desse roteiro. Enquanto no primeiro filme, o brilhante Jigsaw tinha ali toda sua situação sobre controle, com o confinamento de duas pessoas em um banheiro e desenvolvendo ali o seu jogo, aqui, oito indivíduos são sequestrados e presos em um prédio abandonado, inalando um gás tóxico, similar ao utilizado nos atentados do metrô do Japão, que em duas horas irá mata-los se eles não encontrarem os antídotos espalhados pelo local.

Uma quantidade de variáveis absurdas poderia ter ocorridos com aquelas oito pessoas, sem o menor controle de John Kramer, nome de batismo de Jigsaw, mas tudo sai milagrosamente como o planejado, incluindo aí todas as ativações das armadilhas mirabolantes, sem nenhum percalço no caminho, ou mesmo o fato que Amanda, que convenhamos, apesar de estar lá para tentar ser o equilíbrio da situação e manter o roteiro do serial killer que tecnicamente não é um serial killer, em perfeito funcionamento, passar quase incólume, sendo que poderia muito bem ter tido uma sorte pior. Vamos só supor que por algum segundo, alguma coisa saísse errado, uma vez que você está lidando com um grupo díspar de pessoas? Muito provável que isso acontecesse certamente, mas não nesse caso. Tudo ocorre às mil maravilhas, conforme combinado, com as doses cavalares de buracos no roteiro. Jigsaw não tem qualquer poder manipulador naquela situação pelo menos, algo que foi brilhante no primeiro longa.

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Tá tranquilo, tá favorável

O segundo problema de Jogos Mortais 2 é que aqui foi inserida a estética que seguiria os filmes até sua exaustão, jogando a originalidade e o choque do primeiro no ralo, apenas para se reciclar a cada continuação e inventar a armadilha mais sanguinária, criativa, devassa, até a fórmula se esvair e os filmes virarem remendos com histórias cada vez piores, sempre com um plot twist tacanho em seu final, que serve como cliffhanger para o lançamento do filme posterior no ano seguinte. É a típica fórmula que acabou com os slasher movies nos anos 80. Dá para se fazer um paralelo com as mortes espetaculosas de Freddy Krueger, que tentava se superar uma Hora do Pesadelo após a outra, se distanciando cada vez mais do espírito original. Ou é também o que aconteceu com outra franquia do mesmo período, Premonição, onde o que importava era o acidente maior que o anterior. Aqui substitua pela engenhosidade, sangue e violência gráfica explícita.

Agora o terceiro e mais grave problema de Jogos Mortais 2 é justamente e direção afetada de Bousman. Aquela edição frenética epiléptica de videoclipe chega a dar náusea e você percebe claramente como é um recurso narrativo dos mais pobres, fruto de um diretor medíocre, que quer utilizar essa linguagem para os jovens do começo do século, e que foi arrastando essa identidade até a quarta parte dirigida por ele, e em seus péssimos filmes posteriores. E sem contar aquele final ridiculamente didático, repetindo cena por cena e com uma cacetada de flashbacks, julgando a inteligência do espectador, parecendo mais o MOBRAL do que um filme, não deixando absoluta margem para interpretação ou dedução do público.

Mas bom, eles entregaram o americano médio enlatado queria ver, fez a galera sair agoniada do cinema por causa da cena do buraco cheio de seringas, a reviravolta final que deixou todo mundo boquiaberto – isso é de tirar o chapéu, principalmente a armadilha que ele montou para o Detetive Eric Matthews (Donnie Wahlberg), a única que ele tinha de verdade o controle da situação e foi genial como de costgume, e o fato das cenas exibidas nos monitores serem gravadas e o filho do policial, um dos raptados e peças-chave de todo aquele jogo, hã, mortal estar dentro de um baú no próprio esconderijo de Jigsaw – e faturou impressionantes 31 milhões de dólares no seu final de semana de estreia de Halloween (foram gastos 4 milhões de orçamento), chegando a mais de 147 milhões no mundo todo, quase 50 milhões de doletas a mais que seu predecessor.

Bom, daí sabemos que a partir de Jogos Mortais 2, a franquia foi ladeira abaixo, só dando CTRL C+ CTRL V nas suas fórmulas até o lançamento de seu último filme só em 2010, com a qualidade caindo vertigionsamente um após o outro, com exceção do terceiro filme, que subvertendo a lógica, é muito melhor que o segundo, e único da cinesérie que vale a pena, além do primeiro, é claro. Mas isso fica para uma discussão e devaneios num futuro próximo.

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It’s a trap (não canso dessa legenda!)



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. oscar_b disse:

    A título de curiosidade, vale conhecer a teoria maluca de que o Jigsaw é a criança de “Esqueceram de Mim” crescido. Segue os links com mais detalhes:
    http://grantland.com/hollywood-prospectus/did-kevin-from-home-alone-grow-up-to-be-jigsaw-a-deadly-serious-investigation/

  2. Neto Ribeiro disse:

    Até curto esse filme, pra ser mais preciso, os três primeiros são os únicos que eu consigo assistir de boas. Mas concordo com as falhas. Boa crítica!

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