792 – Menina Má.com (2005)

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Hard Candy


2005 / EUA / 104 min / Direção: David Slade / Roteiro: Brian Nelson / Produção: Michael Caldwell, David Higgins, Richard Hutton; Brian Nelson, Hans Ritter (Copordutores); Ellora Chowdhury, Barney Jeffrey (Produtores Associados); Jody Patton, Paul G. Allen, Rosanne Korenberg (Produtores Execuitvos) / Elenco: Patrick Wilson, Ellen Page, Sandra Oh, Odessa Era


Ignorando o completo desserviço que a distribuidora nacional do filme prestou colocando o título de Menina Má.com, até porque dá um PUTA sentido pejorativo – que parece nem raspar a superfície da questão delicada que leva a menina a ser, hã, má, – o hypado terror indie com uma jovem e promissora Ellen Page e magistralmente dirigido por David Slade, faz jus a todo seu falatório na época de seu lançamento.

Sensação em Sundace, que gerou uma baita polêmica e controvérsia, Hard Candy (RECUSO A ESCREVER O TÍTULO NACIONAL DURANTE O RESTO DA RESENHA) é uma espécie de torture porn soft, se é que isso existe. Mas fato é que lançado na mesma época que o subgênero estava ganhando espaço, muito por conta de Jogos Mortais e O Albergue, a grande diferença é que aqui a violência gráfica, recurso que sempre explode nas telas nesse tipo de filme, fica completamente off screen, subentendida, o que é uma tacada de mestre de todos os envolvidos, sendo que a agonia é ainda muito maior, pelo menos, se você for homem.

Aliás, tema espinhoso esse de Hard Candy, hein? Suscita aquele tipo de discussão moral tão tênue sobre os motivos e atitudes da personagem Hayley, de Page, que anda cada vez mais atual, em tempos em que participante de BBB se mostra pedófilo em frente as câmeras e ainda aparecem advogados da Rede Globo para defende-lo no programa matutino do dia seguinte de sua eliminação, em que gente escrota posta ofensas gravíssimas machistas e pedófilas no Twitter por conta de Master Chef Júnior, e do próprio levante do movimento feminista, contra o patriarcado e emporderamento feminino.

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Deixa a Lorraine saber que você tá saindo com as 9inhas!

Mas ainda assim, a pedofilia (e suspeita de assassinato, ou de pelo menos, cumplicidade) do fotógrafo Jeff Kohlver, do ótimo Patrick Wilson, abre o precedente para que Hayley execute justiça pelas próprias mãos? Cabe a ela – ALERTA DE SPOILER – torturar uma pessoa e induzi-la a tirar sua própria vida? Bem, não quero entrar nesse mérito de discussão aqui, mas rende um debate amplo e completo, mas claro, que em nenhum segundo, envolva qualquer tipo de inocência, defesa ou passada de pano em um nojento criminoso sexual como Kohlver.

Aliás, o roteiro escrito por Brian Nelson foi inspirado em casos reais acontecidos no Japão. O produtor David Higgins leu reportagens onde colegiais japonesas estavam emboscando homens que surfavam em chats da Internet em busca de garotas menores de idade. Que é o que acontece em Hard Candy, logo na primeira cena. Kohlver se encontra com Hayley, de apenas 14 anos em um local público, uma cafeteria, com quem ele tentara marcar e impressionar há um bom tempo, e no final acaba levando-a para sua casa, tudo por conta de um MP3 gravado ao vivo em um show do Goldfrapp, que Hayley dizia adorar. Eu confesso que pelo menos para mim, todo o date deles, até a menina se mostrar uma verdadeira psicopata (independente dos seus motivos, aquilo é comportamento de psicopata) é de um constrangimento absurdo.

David Slade é um PUTA diretor. Oriundo do universo do videoclipe, como muitos, ele conseguiu misturar essa linguagem da geração MTV com um tipo de filme independente e mais intimista, com doses cavalares de tensão da metade para frente. Só que antes disso, a câmera dele é invasiva, ele filma os dois atores sempre de perto, em quase closes de seus rostos, como se fossemos testemunhas encabuladas muito próximas daquele encontro proibido, que dá uma tremenda sensação de mal estar, mais uma vez, principalmente se você é homem adulto. Hayley provoca propositalmente (a cena de seu lábio sujo de ganache é o auge disso), e Kovhler, homem, idiota, primitivo e irracional por concepção, vai dando cada vez mais corda para se enforcar (literalmente – desculpem o trocadilho).

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Um date eletrizante!

O ritmo que Slade imprime no filme, ora frenético, ora contido, somado com duas atuações fortes, de Page, exigindo o máximo de sua capacidade física (afinal, há uma parte de suspensão de descrença que um homem adulto não conseguiria fisicamente subjugar uma garota de 14 anos, ou 17 que seja, a idade da atriz) e também de Wilson, em um papel bem espinhoso de covarde, manipulador e mentiroso. Com recursos e budget limitado, primeiro por ser um filme independente, e depois por não querer interferência da Lions Gate, o longa se desenvolve com esses três pilares fundamentais, que deveria ser de fato o mais importante em toda produção cinematográfica: direção, roteiro e atuação, e acerta como um dos mais interessantes thrillers dessa safra

Menina Má.com é apelativo apenas dentro de seu limite e em seu conceito, diferente do torture porn convencional, onde, por exemplo, mostraria uma cena muito mais visceral na operação de castração (que talvez nem fosse falsa), aqui saindo-se muito melhor e mais sofisticado usando essa fórmula quase hitchockiana, e deixando muita coisa subentendida, assim como a própria participação do fotógrafo no estupro e assassinato de garota menor de idade que incitou a caçada de Hayley, quanto o final quando ele salta do telhado.

E bom carnaval aí pra vocês! Voltamos na quinta-feira, se a ressaca deixar!

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Bondage



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Gosto desse filme, acho mais interessante que muito “torture porn” por aí.

  2. Miguel Carqueija disse:

    Para mim é uma obra-prima e Hayley Stark não é uma psicopata mas uma heroína, que esbanja sabedoria em seu discurso. Kohlver teve o que merecia.

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