798 – Wolf Creek – Viagem ao Inferno (2005)

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Wolf Creek


2005 / Austrália / 104 min / Direção: Greg McLean / Roteiro: Greg McLean / Produção: Greg McLean, David Lightfoot; Matt Hearn (Coprodutor); George Adams, Martin Fabinyi, Michael Gudinski, Gary Hamilton, Matt Hearn, Simon Hewitt (Produtores Executivos) / Elenco: John Jarratt, Cassandra Magrath, Kestie Morassi, Nathan Phillips


No começo de absurdamente ótimo Wolf Creek – Viagem ao Inferno, os caracteres alardeiam que 30 mil pessoas desaparecem na Austrália todos os anos. 90% dessas pessoas são encontradas em um mês, mas algumas delas, nunca mais são vistas. A real é que o país da Oceania é um dos mais inóspitos, brutais e selvagens do nosso globo terrestre.

A informação é totalmente factual e verídica, uma vez que turistas e mochileiros podem ser surpreendidos se perdendo na vastidão dos outbacks e pântanos, até mesmo devorados por animais selvagens que habitam a fauna da região, pegos em uma tempestade de areia do deserto (Mad Max feelings) ou então, poderiam entre os anos de 1989 e 1992, terem sido assassinados pelo infame Ivan Milat, conhecido como “Assassino de Mochileiros”, mais notório serial killer australiano.

Milat foi condenado pelo assassinato de sete jovens, e seu modus operandi consistia em raptar suas vítimas, geralmente turistas e mochileiros, e fazia jogos com elas, deixando-as fugirem para depois caçá-las com armas de fogo e facas (Zaroff feelings). Seus corpos eram descartados em Belanglo, uma floresta a sudoeste de Sidney. Mick Taylor, o personagem interpretado de forma nada menos que estupenda por John Jarratt é vagamente baseado em Milat, e a trama, escrita por Greg McLean, também diretor do longa, igualmente se apropria de outro caso real, do mochileiro Peter Falconio, assassinado por Bradley John Murdoch.

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Viagem idílica

Tirando o lance do “arte imita a vida”, Wolf Creek é um daqueles thriller tensos ao limite, de assistir agarrado no braço da cadeira do cinema (ou do sofá), repleto de uma sujeira violenta ao melhor estilo dos filmes dos anos 70, mas com aquela pegada do tortune porn em voga naquela metade da década passada, colocando a imensidão desoladora do outback como cenário, em uma lindíssima fotografia de Will Gibson, mostrando o infortúnio de duas turistas inglesas, Liz e Kirsty (Cassandra Magrath e Kestie Morassi) e um rapaz de Sidney, Ben (Nathan Phillips) nas mãos do sádico psicopata.

O filme, mesmo com seu começo regado a praias, festas, bebedeiras e romances, já incomoda, muito por conta da câmera próxima e do tom documental impresso por McLean, pois aquela sensação de gosto de cabo de guarda-chuva na boca de que alguma coisa muito ruim vai acontecer, até por já sermos alertados por isso antes do filme se iniciar, se espalha e mantém-se etérea no ar, quase como se você conseguisse cortá-lo com uma faca de rocambole.

Esses três jovens resolvem voltar para Sydney em uma road trip de carro, passando pelo extenso deserto australiano, e se metem em um local chamado Parque Nacional de Wolf Creek, cratera formada pelo impacto de um meteorito no oeste da Austrália. Lá resolvem absorver a maravilha natural, mas acabam não contando com a formação magnética da rocha, uma vez que seus relógios param (lembrei na ora de outro famoso filme australiano sobre desaparecimentos, Piquenique na Montanha Misteriosa de Peter Weir), e perdem a noção do tempo. Ao chegar ao carro que também não liga, são obrigados a passar a noite no local.

O suposto socorro vem na figura de Taylor, que convenientemente aparece pelo local para rebocar o carro deles, sem imaginar que está os levando para uma armadilha mortal. Após um jantar no barracão do sujeito, que já se mostra um cara não muito dentro da casinha, ao adormecerem, o trio é separado, e Liz acorda amarrada, e quando consegue se soltar, vê que o maníaco está torturando sua amiga.

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Tortura pornô

Daí pra frente é a famosa luta pela sobrevivência, enfrentando o perigoso homem, descobrindo seu terrível segredo (e os corpos putrefatos de suas vítimas), num ritmo de suspense, angústia e tortura de causar úlcera nervosa. ALERA DE SPOILER, pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. A tensão só cresce, finalizando com um destino nada bonito para as duas, sendo que Ben, que acorda crucificado com os pulsos pregados, consegue escapar com vida e vaga pelo deserto, até ser encontrado por um casal, mas as informações desconexas do rapaz quanto a história e a localização do covil do assassino, fez com que ele acabasse como principal suspeito e preso por quatro meses, antes de ser libertado por falta de provas. Já Taylor, nunca foi encontrado, até voltar em uma sequência somente em 2013, também dirigida por McLean e Jarratt reprisando seu papel.

O mais interessante, e que talvez explique bastante a pujança de Jarratt no papel do vilão é que ele é um ator metódico e passou semanas vivendo no deserto se preparando para o personagem. Ele também evitou tomar banho antes das cenas, criou uma biografia detalhada para Taylor, sem revelar para ninguém, e não saia do papel entre as cenas.

Originalmente escrito em 1997 como um slasher ozploitation tradicional, Wolf Creek – Viagem ao Inferno foi reescrito por McLean quando o caso Milat vaio à tona, inspirando-o e introduzindo a ideia de um cara supostamente legal e solícito que na verdade é um assassino, e deu no que deu. O longa foi um sucesso na Austrália e seus direitos comprados pela Dimension, onde faturou mais de 27 milhões de dólares no mundo todo (contra 1 milhão de seu orçamento) tornando-se um dos melhores filmes daquela safra da metade dos anos 2000.

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Hey, essa não é a faca do Nick Dundee?



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. leandro disse:

    Filmaço!! Um dos vilões mais fodas!

  2. Fabiano disse:

    Outra ótima produção de horror. Uma pena que o cinematógrafo Will Gibson faleceu prematuramente em 2007, porque a fotografia é uma das melhores coisas nesse filme. E o diretor Greg McLean, muito promissor, é mais um que se prostituiu para Hollywood. O trailer de “Darkness”, seu primeiro filme nos Estados Unidos, é de lamentar, porque não passa de uma costura de clichês que envolvem essa irritante onda de filmes de assombração dos últimos tempos. E parece que o próprio diretor se deu conta disso, porque tratou rapidinho de finalizar um outro longa de horror, “The Belko experiment”. A propósito, esses filmes de assombração, possessão e adjacentes não são mais que uma emulação sofrível de “O exorcista”. Ninguém se dá conta de que não é o roteiro de “O exorcista” que é bom, mas a maneira com que William Friedkin realizou esse roteiro. Se Darren Lynn Bousman tivesse sido o diretor a realizar o roteiro de “O exorcista”, teria sido uma bosta de filme.

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