800 – Crimes Obscuros (2006)

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Sakebi / Retribution


2006 / Japão / 104 min / Direção: Kiyoshi Kurosawa / Roteiro: Kiyoshi Kurosawa / Produção: Takashige Ichise; Nobuhiro Azuma, Yoshikazu Kenmochi, Yukie Kite (Produtores Associados); Ryuhei Chiba, Kazuya Hamana, Yasushi Kotani (Produtores Executivos) / Elenco: KôjiYakuso, Manami Konishi, Tsuyoshi Hirayama, Ikuji Nakamura, Ryô Kase


Dirigido por Kiyoshi Kurosawa (e com a perceptível mão do diretor), Crimes Obscuros é o quarto filma da chamada “hexalogia” J-Horror Theater, idealizada pelo produtor-midas do cinema de terror japonês, Takashige Ichise, que convidou seis diretores diferentes para dar sua visão ao subgênero. Os três primeiros longas foram Infecção, O Terror da Premonição e Almas Reencarnadas.

Kurosawa é diretor de Cure, uma protogênese do J-Horror atual e de Kairo, outro emblemático filme do boom do cinema de terror japonês no começo da década passada. Crimes Obscuros nos traz muito mais do que um “simples filme de terror”, com as suas mensagens subliminares poderosas por trás, misturando já o bom e velho elemento da aparição fantasmagórica vingativa, com doses de filme policial e elementos gritantes de drama e romance.

Na trama, igualmente escrita por Kurosawa, Yoshioka é um detetive encarregado de investigar o assassinato de uma garota afogada em Tóquio, mas a autopsia revela que seu corpo está cheio de água salgada. E o pior é que todas as pistas que ele encontra vão se relacionando a si próprio, apontando-o como o principal suspeito. Só que ele não se lembra de nada e de ter cometido tal crime.

O elemento sobrenatural entra em cena quando uma fantasma em um vestido vermelho passa atormentá-lo (daquele jeito que a gente sabe bem como elas são capazes) e conforme ela se torna mais frequente, aumenta a quantidade de crimes bizarros e com o mesmo modus operandi, com o perturbador detalhe de que  todos os assassinos mataram parentes, amantes ou pessoas queridas, por pequenos problemas (como um pai que afoga o filho por usar drogas e começar a ir mal na escola). A aparição passa a segui-lo, apontar caminhos para que coisas antes esquecidas voltem à tona, e Yoshioka passará a questionar a sua própria identidade (e sanidade, diga-se de passagem).

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A dama de vermelho!

Sabe aquela famosa narrativa maluca, sensação de déja-vu e questionamentos sobre o que é real ou imaginário, misturados com uma contundente mensagem subliminar sobre memória seletiva e esquecimento? Tudo isso com um pano de fundo bizarro e surreal, que só o J-Horror (e Kurosawa é bem mestre nisso) sabe proporcionar? Pois bem, toma forma depois da metade do filme com a junção de peças do quebra cabeça, enquanto conhecemos a perturbada psique do investigador com uma representação experimental sobre a suposta benção do esquecimento, lidando com o conformismo e a mentira, até que literalmente, os fantasmas do passado voltem para atormentá-lo e não há outra saída desse horror do que enfrenta-los, mesmo que isso custe sua lucidez, ou mesmo sua vida.

Além disso, Kurosawa, como de praxe do subgênero (e subtexto) que o filme se encontra, não perde tempo em fazer uma crítica velada a Tóquio moderna, tal qual Hideo Nakata é especialista, ou ele mesmo fizera em Kairo, por exemplo, mostrando-a como um local lúgubre, em eterna construção e mal habitado, e como uma sociedade tende a lidar com os problemas interpessoais entre os japoneses em suas diferentes gerações e suas relações frívolas entre as pessoas, onde erros de julgamento e caráter simplesmente são esquecidos, mas não sem um efeito colateral. É a expressão de um mal social e da máxima culpa. Never forget, never forgive, como diriam os poetas.

Junto com o domínio de Kurosawa sobre sua arte (e seu filme) como um dos mais prolíficos cineastas japoneses de sua geração, tratando-o além da beleza das cenas e cinematografia, quase como um caleidoscópio psicológico, beirando a poesia do tormento, a poderosa atuação de Kôji Yakusho como Yohsioka faz com que seu personagem sempre esteja sob a observação constante do espectador, sob judicie, e você nunca saiba direito, assim como o próprio, o que é real e o que é imaginário, mesmo já lidando com sua “culpa em cartório” logo na metade do longa para frente, mas que subverte as famosas reviravoltas do gênero, já preparando terreno para nada mais lógico (e justo) que um final pessimista.

Não há escapatória para fugir dos seus fantasmas e demônios, e sempre haverá retribuição, na obra de Kurosawa e no cinema de terror oriental no geral. Crimes Obscuros é uma máxima dessa tese sombria e realidade escancarada.

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Mortos que falam



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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