801 – Eles (2006)

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Ils / Them


2006 / França, Romênia / 77 min / Direção: David Moreau, Xavier Palud / Roteiro: David Moreau, Xavier Palud / Produção: Richard Grandpierre; Vlad Paunescu (Coprodutor); Frédéric Doniguian (Produtor Executivo) / Elenco: Olivia Bonamy, Michaël Cohen, Adriana Mocca, Maria Roman, Camelia Maxim, Alexandru Boghiu


Dentro do sensacional começo da nova safra do new french extremity, Eles desponta como um dos seus melhores representantes, porém muito mais calcado na tensão (e coloca tensão na sua potência máxima), no suspense exagerado (sério, daqueles que te dá arritmia cardíaca) e na violência psicológica (sem contar o choque de sua revelação final), do que nos baldes de sangue da violência gráfica total que acabaram por caracterizar o subgênero.

Os jovens diretores David Moreau e Xavier Palud acertam tanto na veia, que acho que deixaria Alfred Hitchcock orgulhoso, afinal uma de suas maiores lições para o cinema foi a importância da teoria narrativa aplicada na força do que mostrar, ou não, e no caso do terror, jogar a tensão para o colo do público, amplificada por estarem tão às escuras quanto os personagens, bem como Stephen King escreveu em seu livro-tese “Dança Macabra”. E tanto quanto o pobre casal Clémentine (Olivia Bonamy) e Lucas (Michaël Cohen), não sabemos (ou vemos) aquilo que os está perseguindo implacavelmente até determinado momento da fita.

O roteiro, escrito pelos cineastas, foi baseado em fatos reais, como alardeia os créditos iniciais, de um incidente ocorrido com um casal austríaco na Romênia em 2002, que chocou a opinião pública por conta da identidade dos autores do crime, levando os jornais a questionar em suas manchetes: “Afinal de contas, quem são eles?”. Se continuasse e perguntassem: “onde vivem”, “o que fazem”, poderia ser chamada do Globo Repórter.

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Só espiando

Enfim, o longa começa à noite em uma estrada isolada perto das florestas romenas, onde mãe e filha sofrem um acidente de carro. A mãe levanta o capô do carro para verificar seu motor, quando para de responder a filha, que ao sair descobre que ela desapareceu. A moça será a próxima vítima em um prólogo que já mostra que o filme não está para brincadeira em mexer com seus nervos.

Corta para o dia seguinte, quando a professora de francês Cleméntine termina uma sexta-feira de labuta e vai para a casa de seu namorado, o escritor Lucas, um antigo casarão embrenhado na floresta (passando pelo guincho e a polícia rebocando o carro acidentado na noite anterior, ou seja…) onde eles ficaram os próximos minutos da metragem naquela típica rotina de relacionamento comum entre casais, para relaxar o público quanto nos identificarmos e criarmos empatia com os personagens.

Tudo para a paulada ser ainda maior quando ambos passam a ser perseguidos dentro de sua própria casa, agredidos, torturados e molestados física e psicologicamente por um grupo que invade sua residência tarde da noite, começando uma intensa luta pela sobrevivência, num terrível ardil com requinte de crueldade e tensão psicológica explícita.

E o que mais faz Moreau e Palud para deixar-nos roendo as unhas? Filma de forma invasiva, câmera na mão, quase tática de guerrilha, escura e tremida, imprimindo até certo ar documental às vezes, colocando-nos de verdade dentro daquele ambiente claustrofóbico, sem luz e perigoso, não jogando luz sobre a situação para o público que está naquela descida na montanha-russa, e tampouco qualquer motivação que não o puro sadismo, ou mesmo até certo momento, a identidade dos atacantes.

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Só no stealth!

O soco no estômago da descoberta no terceiro ato é pesadíssimo! ALERTA DE SPOILER: Pule os dois próximos parágrafos ou leia por sua conta e risco.  Lucas, ao conseguir assassinar um dos agressores, descobre que ele não passa de um adolescente! No momento de escape nos túneis (de longe o mais tenso de todo o longa), um dos garotos pergunta: “Por que você não brinca com a gente?”. Isso para em seu final nos mostrar os garotos numa boa no dia seguinte pegando um ônibus, como se não tivessem feito absolutamente nada demais (e um deles morto), explicando nos créditos finais que os corpos foram encontrados cinco dias depois, e que os assassinos tinham entre 10 e 15 anos, sendo que o mais novo deu exatamente essa explicação para os acontecidos naquela fatídica noite: “Eles não brincaram com a gente”. VRÁ!

É sempre deveras contundente ver a psicopatia infantil ou adolescente nos filmes. Eles é um daqueles em que essa sensação é levada ao limite, assim como a forma que ficamos inconformados e com um gosto horrível na boca com a simples falta de motivação, moral, conduta e empatia com o ser humano que aqueles jovens romenos tiveram, brincando com a vida de duas pessoas inocentes apenas por uma simples vontade e pelo fato deles poderem. Isso é muito mais terrível – e crível – que qualquer monstro, fantasma ou ameaça fantástica do cinema.

Eles é um filme straight forward, assustador, tenso do seu começo até o final, sem dar trégua para o pobre sujeito do outro lado da tela, provando que a falta de gore não significa uma carência de sustos e se mostra um excelente exercício de terror, que mais tarde, inspiraria na CARA LARGA, o filme americano Os Estranhos, com Liv Tyler, e muito mais conhecido que essa gema francesa.

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ACODE!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Lucas disse:

    Gosto bastante desse filme. Meu preferido da nova safra do Horror Frances.

  2. Fabiano disse:

    Muito bom filme de horror, de fato. Como já ocorreu outras vezes, dois anos depois a dupla de diretores se prostituiu para Hollywood e realizou o esquecível “O olho do mal”, que já tinha a reticência de ser uma refilmagem de uma produção oriental. Aí então a dupla se separou, transitando em produções menores que nunca vão chegar até nós. É uma pena o que acontece às vezes com realizadores promissores. O cinema de horror definitivamente é para muito poucos. Para quem gosta do tipo de enredo que “Eles” apresenta, é altamente recomendado o britânico “Sem saída”, feito pelos amigos do Neil Marshall (“Abismo do medo”) e que, assim como essa produção francesa, faz o americano “Os estranhos” ser obra de calouro.

  3. Dani Vidal disse:

    Gosto bastante dos filmes franceses de terror! Ils é sem dúvida um ótimo exemplar e está no mesmo pacote de Martyrs.

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