808 – Perfume: A História de um Assassino (2006)

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Perfume: The Story of a Muderer


2006 / Alemanha, França, Espanha, EUA / 147 min / Direção: Tom Tykwer / Roteiro: Andrew Birkin, Bernd Eichinger, Tom Tykwer (baseado no livro de Patrick Sünskind) / Produção: Bernd Eichinger; Gigi Oeri (Coprodutora); Julio Fernandez, Andreas Grosch, Samuel Hadida, Manuel Cutomoc Malle, Martin Moszkowicz, Andreas Schmid (Produtores Executivos) / Elenco: Ben Whishaw, Alan Rickman, Dustin Hoffman, Rachel Hurd-Wood, Karoline Hefurth


Perfume: A História de um Assassino é um filme tecnicamente perfeito, visualmente incrível, tanto nos quesitos de design de produção, figurino, reconstrução de época, fotografia, e com um roteiro bem peculiar, baseado no best seller de Patrick Sünskind, incluindo aquele surpreendente terceiro ato e conclusão. Só que tem alguns “mas”, claro. E o principal “mas” é Ben Whishaw, insosso ao extremo, num importantíssimo papel principal.

O livro do escritor alemão, “O Perfume”, é um daqueles suspenses cultuados da história da literatura, e obviamente fazer uma adaptação cinematográfica é pisar em ovos, e sempre digna de imbróglios entre produtores, estúdios e diretores. Martin Scorcese, Milos Forman, Stanley Kubrick, Roman Polanski, Ridley Scott e até Tim Burton já estiveram ligados ou interessados na direção do projeto, que caiu no final caiu no colo de um também alemão, Tom Tykwer. Ou seja, a coprodução europeia entre Alemanha, França e Espanha (com os EUA no meio desse balaio de gato), pelo menos tentou ao máximo se tornar fiel ao clima “velho mundo” da trama, longe dos tentáculos de um blockbuster de Hollywood.

E vale salientar que Tykwer mandou muito bem, exercendo um ritmo completamente diferente do tresloucado Corra Lola, Corra, e primando por takes longos, precisão econômica na edição e o abuso acertado de planos fechados para tentar passar ao espectador uma sinestesia impossível de se captar de uma obra cinematográfica: a quase super-humana habilidade olfativa do personagem principal, Jean-Baptiste Grenouille, capaz de captar e identificar os mais diversos tipos de odores.

Além disso, há toda a pompa e grandiosidade digna de uma superprodução, tendo sido o filme alemão mais caro da história ate aquele ano, contando com 67 papeis com fala, 5200 figurantes e 102 sets de filmagens, além de 520 técnicos empregados por trás das câmeras. Fruto dos seus 50 milhões de euros de orçamento, faturando 135 milhões de dólares em todo mundo (somente 2 milhões nos EUA), e ainda contando com atores do calibre de Dustin Hoffman e Alan Rickman no elenco.

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Ali que a gente faz a magia acontecer

Tykwer também merece total crédito por colocar o público como testemunha ocular do infortúnio da vida do rapaz que nasceu sem cheiro e escapou da morte ao nascer no chão de um fétido mercado de peixe francês, ser enviado para um orfanato, vendido para trabalho escravo em um curtume e depois tornar-se como aprendiz de um mestre perfumista na cheia de vida Paris do Século XVIII. E claro, somos também cúmplices do crescimento perturbador de sua obsessão em capturar o aroma do ser humano, que o levará a se tornar um serial killer de mulheres, na desesperada tentativa de conseguir extrair delas seu almíscar para produzir a essência perfeita.

Daí temos os dois principais problemas de Perfume. A primeira é a duração. O filme possui quase 2h30, o que inevitavelmente forçará a existência de uma barriga no segundo ato, estendendo-se demais nas cenas em que a virtuose de Tykwer em explorar toda a beleza técnica e estética do longa o deixa enfadonho e entediante, até chegar as suas digamos, duas conclusões, do julgamento de Jean-Baptiste em praça pública e sua volta ao mercado de peixes onde nasceu, dignas de nota, pela perfeição, eloquência, anormalidade e exploração do fantástico de forma sensacional, até impactante e visceral para quem o assiste da primeira vez. Mesmo que haja controvérsias.

A segunda, como disse lá em cima, é Whishaw como protagonista. Um papel que merecia uma atuação pungente, com doses de inocência misturada com loucura, maldade e sadismo que irão transpor a obsessiva busca do rapaz, perde-se em um ator nada pronto para a função, com recursos dramáticos bem limitados, reduzindo-o a caras, bocas, choramingos e olhares tanto de maldade quanto de piedade, que não convencem ninguém, subaproveitando as sequências de assassinatos, limadas em prol da masturbação visual em algumas cenas desnecessárias, ou nas sequências de sublimação e epifania, principalmente na fatídica orgia. Mesmo que o terror e o medo não sejam mais forte que o amor, talvez o sentimento mais poderoso desse mundo, segundo o próprio texto, Whishaw é incapaz de nos mostrar ambos.

Perfume: A História de Um Assassino derrapa em alguns pontos que poderiam torna-lo uma experiência cinematográfica completa e salutar, uma grande obra do cinema, mesmo com seu final controverso e até sem pé nem cabeça para alguns, que não conseguiram apertar bem fundo o botão da suspensão de descrença e abraçar o fantástico, uma vez que o filme inteiro foi sendo trabalhado – apesar do “super-olfato” – dentro de um plano crível. Mas ainda assim, é uma experiência única, que atiça não só as sensações imagéticas de quem o assiste, mas também, o olfato, por incrível que pareça, tratando-se de uma obra printada em celuloide.

PS: Garotas, desculpe pelo post de um filme sobre feminicídio e um assassino de mulheres bem hoje, foi só uma questão de que era esse o filme da ordem cronológica/alfabética da minha lista dos 1001 filmes. :/

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Nem um pio…



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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