809 – Possuídos (2006)

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Bug


2006 / EUA, Alemanha / 102 min / Direção: William Friedkin / Roteiro: Tracy Letts (baseado em sua peça) / Produção: Kimberly C. Anderson, Michael Burns, Gary Huckabay, Malcolm Petal, Andreas Schardt, Holly Wiersma; Michael Ohoven, Jim Seibel (Produtores Executivos) / Elenco: Ashley Judd, Michael Shannon, Harry Connick Jr., Lynn Collins, Brían F. O’Byrne


Taí um obscuro filme de baixo orçamento e independente de William Friedkin, sim, o mesmo diretor de O Exorcista, bastante e indevidamente menosprezado, até pouco conhecido do grande público, mas que para mim é sensacional. Possuídos é uma verdadeira  e perturbadora aula de paranoia, claustrofobia e obsessão, lembrando os bons e velhos filmes do Polanski.

Isso sem contar a atuação ESTUPENDA, assim em letras garrafais de Ashley Judd, e também de Michael Shannon – reprisando o mesmo papel da peça homônima a qual o filme se baseia – completamente viscerais, pungentes, entregues tanto física, quanto emocionalmente, com uma poderosa carga dramática que simplesmente retira o melhor de ambos. Passado quase que exclusivamente em um quarto de motel de beira de estrada e com enxutíssimo elenco de apoio, o filme é sobre os dois, sua lenta descida a loucura, os traumas da Guerra, paranoia e teorias da conspiração absurdas, numa crescente exponencial de tensão até o terceiro ato, além é claro, dos insetos, catalisador daquele apocalipse pessoal.

Vale aqui um adendo da SALAFRÁRIA ideia da querida distribuidora que lançou Possuídos no Brasil, que claro, já que é um filme de Friedkin, o sujeito que dirigiu talvez o mais famoso filme de terror de todos os tempos, vamos colocar esse título. Troféu joinha para vocês, viu! A fita não tem absolutamente NADA a ver com possessão, demônios, ou algo que o valha, e lembrando que o nome original é “Bug”, que simplesmente significa: inseto.

Aliás, os tais insetos, que raios, ninguém NUNCA vê no filme todo, exceto algumas imagens de louva-deus enxertadas como mensagens subliminares e sua estridulação, são os motivos de toda a psicose dos protagonistas. Judd é Agnes White, uma mulher solitária, alcoólatra, que trabalha de garçonete e mora em uma espelunca no meio do deserto, cujo marido acabou de sair em liberdade condicional, com um histórico de violência doméstica e um trauma pelo desaparecimento do filho em um supermercado.

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Não sei se era pulga ou se era percevejo…

Já Shannon, o eterno General-Zod-que-teve-o-pescoço-quebrado-naquela-aberração-do-Zack-Snyder-que-não-tem-nada-a-ver-com-o-que-o-Superman-faria é Peter Evans, um sujeito introvertido, sem nenhum traquejo social, paranoico que serviu o exército e lutou no Golfo, e acredita ter sido objeto de testes e estudos científicos, usado como cobaia em algum experimento militar escuso.

Pronto, a junção dos dois é um prato perfeito para o desespero. Agnes parece não se importar muito com o rumo de sua vida depressiva e Peter é um maluco de pedra obsessivo e cheio das teorias da conspiração. Um pequeno, minúsculo, até invisível inseto para os olhos dos outros, e também do espectador, é o suficiente para servir de gatilho para uma loucura sem limites, que chega a causar todo tipo de dano físico, mental e psicológico nos personagens (e até no público, tamanha é a violência com a qual os dois se rendem às suas atuações) onde ambos atingem todos os limites extremos da sanidade em um tipo de relação nociva e psicótica, que vemos aos borbotões por aí.

O grande mérito de Friedkin em todo o longa, na parte que lhe cabe nesse latifúndio, é exatamente na economia de explicações, e jogar o tempo todo a questão sobre o quanto tudo aquilo que está acontecendo é real ou não. Há mesmos insetos? Peter foi vítima de um experimento militar? É um estresse dissociativo com requintes de esquizofrenia até contagiosa que acometeu os dois cidadãos sem esperança nenhuma nesse mundo hostil? O diretor brinca com a realidade, com a sanidade e com a loucura de forma salutar, tanto por conta do poder da atuação de seus dois atores principais, quanto no uso sábio da edição, glitches e mixagem de som, para deixar, literalmente, o público com a pulga atrás da orelha (com o perdão do trocadilho) até seu final pessimista, que não é nem um pouco bonitinho.

Talvez este frenético tapa na cara que é Possuídos, somado ao exercício de aumento gradual de tensão até a explosão iminente, e a ausência de explicações didáticas, deixando tudo no subentendido para que o filme continue perturbando a cabeça do público quando ele termina, tenha sido um dos responsáveis pela sua baixa aceitação e fracasso comercial, mesmo mostrando um Friedkin em ótima forma depois de tantos anos de resultados cinematográficos medíocres, e nunca chegando nem perto do que entregou em O Exorcista ou Operação França. Mas isso não tira o mérito sombrio dessa pequena e intensa gema, pelo contrário.

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Deixa eu ver se caiu sua obturação



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Leandro Merce disse:

    Filmaço!! William Friedkin é um injustiçado. Bug e Sorcerer mereciam no mínimo mais respeito. Dois filmaços esquecidos (principalmente o segundo) por todos.

  2. Leandro Merce disse:

    Filmaço! William Friedkin é um injustiçado. Bug e Sorcerer mereciam no mínimo mais respeito. Dois filmaços esquecidos (principalmente o segundo) por todos.

  3. leandro merce disse:

    Filmaço! William Friedkin é um injustiçado, pois Bug e Sorcerer, principalmente o segundo, são dois filmaços que mereciam no mínimo mais respeito.

  4. Lucas disse:

    Quando estrear Batman v Superman: Dawn of Justice e se o filme for um sucesso de crítica e público e vou voltar aqui e esfregar na sua cara está me ouvindo ESFREGAR NA SUA CARA.

    • Marcos Brolia Marcos Brolia disse:

      Pode esfregar Lucas! E para mim, sucesso de público e crítica não quer dizer nada não… O que importa para mim é a adaptação dos quadrinhos, fidelidade, roteiro, direção, essas coisas aí.

      • Nisso também vou concordar. Aquele Homem de Aço do Snyder foi uma tremenda aberração com o Super-Homem. E ainda não engulo essa mania besta de matarem o Jhonatan Kent sempre que podem. O personagem é o que é justamente pela influência do pai terrestre dele, e não pelo kryptoniano, ao contrário do que fazem tanta questão de insuflar. Inclusive, essa idéia de que o S no peito significa esperança em Krypton é nova; veio de O Legado das Estrelas, de 2003. Homem de Aço é um bom filme, mas não é um filme do Super-Homem. Fato.

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