816 – Viagem Maldita (2006)

The Hills Have Eyes


2006 / EUA, França / 107 min / Direção: Alexandre Aja / Roteiro: Alexandre Aja, Grégory Levasseur / Produção: Wes Craven, Samy Layani, Peter Locke e Marianne Maddalena, Cody Zwieg (Produtor Associado), Frank Hildebrand (Produtor Executivo) / Elenco: Aaron Stanford, Kathleen Quinlan, Vanessa Shaw, Emilie de Ravin, Dan Byrd


Raríssimas vezes uma refilmagem é melhor do que o original. Dá para contar nos dedos as vezes em que isso aconteceu. Mas claro que há casos como Os Invasores de Corpos (Vampiro de Almas), O Enigma de Outro Mundo (O Monstro do Ártico), A Mosca (A Mosca da Cabeça Branca) e A Bolha Assassina (A Bolha) nos anos 70 e 80, e mais recentes, como é  caso de A Vingança de Willard e Maníaco. Rolou até um TOPE NOVE sobre. Viagem Maldita é mais um que entra nessa seleta lista, remake do clássico de Wes Craven, Quadrilha de Sádicos, de 1977.

Que justiça seja feita, também é um ótimo filme. Mas como tive que escolher um dos dois, minha opção ficou pela versão extremamente sanguinária e violenta do francês Alexandre Aja. Após ter surpreendido o mundo do terror com o neo-cult Alta Tensão, aquele promissor diretor chamou a atenção de Craven que o levou para Hollywood para a refilmagem de um de seus filmes mais icônicos e autorais. Com o roteiro escrito pelo próprio Aja e seu parceiro / comparsa Grégory Lavesseur, e Craven atuando como produtor executivo, o filme segue exatamente a mesma história e narrativa de seu predecessor e inclusive com a mesma tônica: uma implacável crônica de sobrevivência da luta de classes americanas, da suburbana classe média republicana se confrontando contra os “deformados” moradores das colinas que representam a minoria e os socialmente oprimidos.

Tendo como ponto de partida esse simples argumento, o que Aja traz de novo à produção (que é exatamente o que faz um remake se tornar atrativo e não uma simples cópia de carbono do original) é toda a crítica política e social oriunda da saturação dos quase oito anos do governo Bush, visto pelo ponto de vista de um diretor estrangeiro, que não tem o menor pudor de jogar isso na cara do cidadão médio americano, com a benção de Craven.

Os Carters são uma típica família do subúrbio do EUA que estão atravessando o deserto do Novo México em direção à Califórnia, para celebrarem juntos as bodas de 25 anos de casamento de Big Bob (Ted Levine, o Buffalo Bill de O Silêncio dos Inocentes) e Ethel (Kathleen Quinian). Viajam juntos em seu trailer motorizado seus três filhos, os adolescentes Brenda (Emilie de Ravin) e Bobby (Dan Byrd) e a mais velha, Lynn (Vanessa Shaw) que é casada com Doug (um excelente e irreconhecível Aaron Stanford) com quem tem uma bebê pequena. Ah, os Carters também levam um casal de pastores alemães: Bela e Fera.

Nada como um passeio ao sol com o cão…

Pois bem, o patriarca resolve parar em um posto de gasolina no meio da estrada, gerenciado por um tipo realmente estranho que os avisa sobre um atalho que passa pelo meio das colinas, onde poupariam duas horas de viagem à família. Mal eles sabem que esse dono do posto de gasolina está mancomunado (mesmo que já cansado disso) com uma quadrilha de mutantes canibais que vivem no deserto, local utilizado pelo governo americano para testes com armas nucleares no passado.

Através de sabotagem, os maníacos provocam um acidente e deixam os Carters isolados no deserto, à mercê de toda sua crueldade. Big Bob e Doug tentam procurar ajuda, cada um indo para uma direção da estrada. Doug encontra um cemitério de carros abandonados de outras vítimas dos salteadores enquanto Big Bob não tem a mesma sorte e é capturado ao voltar ao posto de gasolina. A coisa fica realmente feia para a família quando os mutantes promovem o primeiro ataque ao trailer, desviando a atenção de todos ateando foto em Big Bob ainda vivo, enquanto invadem o veículo e estupram Brenda, matam Lynn e Ethel e levam a bebezinha como refém.

O que se segue é uma desesperada luta pela sobrevivência dominada pela raiva. Doug que era um completo coió, dono de uma loja de celulares, que vivia sendo espinafrado pelo sogro por ser um democrata e não acreditar em armas como o republicano ex-policial e seu filho doutrinado, vai sendo banhado de sangue enquanto busca por sua filhinha, muito parecido com o que Aja havia feito com a personagem Marie em Alta Tensão, e ficando cada vez mais violento e transtornado, deixando de ser insosso para enterrar um machado na cabeça de um dos mutantes. A mesma degradação psicológica vai acontecendo com os dois adolescentes, principalmente o furioso Bobby, para tentar continuar vivos e sobreviver ao cerco.

Esse cara vai acordar com uma dor de cabeça…

Com a maquiagem feita pela dupla Greg Nicottero e Howard Berger, os mutantes têm uma aparência impressionante. Mutantes que o próprio governo americano, e o “povo de Doug” criaram ao realizar testes em uma região habitada por mineiros, como enfatizado por Big Brain, um dos monstrengos mais deformados. Sem ter para onde ir, esconderam-se nas minas e foram severamente afetados pela radiação e pela geração congênita de sua prole.

Entre uma carnificina e outra, Aja vai destilando seu veneno contra os valores e bons costumes. Ethel, por exemplo, é uma protestante boa cristã que tenta unir sempre a família, inclusive fazendo uma pequena oração antes de Big Bob e Doug irem buscar ajuda. No momento em que seu marido é queimado vivo, ele está pregado em uma cruz como uma afronta a moral judaico-cristã, ardendo em chamas, mostrando que de nada valeu a religião deles e as preces perante a selvageria. Já uma das cenas mais marcantes com uma extrema conotação de crítica política é quando Doug encontra o Big Brain cantando o hino dos Estados Unidos e é atacado por Pluto, um dos mutantes. Depois de muita luta e de perder dois dedos da mão, Doug perfura sua garganta com uma bandeira dos EUA, que estava anteriormente enfincada na cabeça de Big Bob, aquele que tanto acreditava naquele estilo de vida e defendia os conceitos governamentais de seu amado país.

Talvez a grande diferença entre Quadrilha de Sádicos e Viagem Maldita seja na questão da organização dos mutantes. No original eles são uma quadrilha com suas tarefas e posições muito bem definidas, e Papa Júpiter é o líder que os guia com mão de ferro, utilizando táticas de guerrilha para abordar suas vítimas. Já no remake, eles são muito mais selvagens, com o poder descentralizado e agem como uma tribo nômade do deserto. O canibalismo também é mais explícito na fita de Aja do que de Craven.

Mas fora isso, Viagem Maldita é um filme para fã de gore nenhum botar defeito. Todo o clima de suspense e tensão do filme é pontuado com uma alucinada trilha sonora eletrônica distorcida, edição primorosa, fotografia estourada pela luz do implacável sol do deserto, e isso sem contar os litros e litros de sangue derramados no filme, cortesia da insanidade do diretor francês.

Banho de sangue



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Não é um filme ruim, mas, os mutantes me dão um embrulho no estômago.
    É muito sangrento, também.
    Enfim, é legal, mas, tem seus exageros.

  2. Papa Emeritus disse:

    Também prefiro esse remake ao original (que também é muito bom). Viagem Maldita é um dos melhores remakes de filmes de terror que já fizeram.

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