820 – Diário dos Mortos (2007)

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Diary of the Dead


2007 / EUA/ 95 min / Direção: George A Romero / Roteiro: George A Romero / Produção: Sam Englebardt, Peter Grunwald, Ara Katz, Art Spiegel; Paula Devonshire (Coprodutora); Donna Croce (Produtora Associada); Steve Bernett, Dan Fireman, John Harrison (Produtores Executivos) / Elenco: Michelle Morgan, Joshua Close, Shawn Roberts, Amy Lalonde, Joe Dinicol


 George Romero acertou na veia DE NOVO com Diário dos Mortos. Sua nova tentativa de recriar um universo de mortos-vivos, ao fim de sua tetralogia original, visto hoje, quase dez anos depois, não poderia parecer mais atual, em tempos de superexposição na Internet e nas redes sociais, celebridades instantâneas online e vloggers no YouTube, busca por audiência, cliques, shares, etc.

Ainda foi um dos precursores do found footage moderno, antes do gênero virar Brasil (tanto quanto zumbis) seguido de perto pro Cloverfield – Monstro e REC, aquela safra que assim como A Bruxa de Blair, preferiu utilizar o efeito “fita encontrada” e do “falso documentário” como recurso narrativo, e não simplesmente estético.

Claro, Diário dos Mortos é um filme menor, nada tão impactante e pungente quanto seus filmes anteriores dos cadáveres ambulantes comedores de gente, tem suas falhas, baixo orçamento, cara de “feito em casa”, mas Romero sabe como colocar o dedo na ferida de questões sociais em seus filmes como nenhum outro diretor do horror conseguiu. E isso não apenas em seu cinema zumbi.

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Rodando…

A premissa do “se não foi gravado, não aconteceu” é muito pertinente, sendo que o que importa é apenas o que é mostrado através das lentes de uma câmera. Antecipa, de forma precisa e voraz, o que acontece hoje nas redes sociais, no Facebook e Instagram, onde se você não tirou a foto, não fez um check in, não postou sua opinião ou comentário sobre tal assunto, simplesmente você não viveu aquilo. Se todos não ficarem sabendo, não importa e não se tornou factível. Eleva na enésima potência os conceitos de “Simulacro e Simulações” de Baudrillard.

O contexto do zumbi está ali apenas pela fantasia, pelo lúdico do horror, pela representação de uma situação extrema, sem contar que outro subtexto, adorado pelo mestre, ainda se encontra na sua obra, que oras bolas, os humanos, esses são sempre os piores que suas contrapartes putrefatas que se levantam do túmulo. E nos momentos de sobrevivência é que conhecemos nossa verdadeira natureza.

E como disse lá em cima, o mockumentary “A Morte dos Mortos”, projeto que o estudante de cinema Jason Creed (Joshua Close), pego no meio da hecatombe com a câmera na mão, é obcecado – mais que sua própria segurança e de seus colegas – existe como recurso narrativo do longa, escolhido em Romero como forma de uma pessoa registrando e sentindo-se no dever cívico de informar a todo mundo pela Internet do que acontecia durante a insurreição dos mortos. Mas apesar do pretenso altruísmo, sua verdadeira intenção mesmo, como fica claro, também era ganhar milhões de cliques e de views.

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Múmia é zumbi?

Todo o filme captado em DV, handhelds, imagens de circuito de vigilância e aquela pegada de cinema verité já vem editado, com narração da namorada de Jason, Debra (Michelle Morgan), trilha sonora, como a versão final da fita que estamos assistindo, mais ou menos como acontece com Noroi, e não é uma “filmagem encontrada pela polícia de não sei onde…”. Ou seja, recurso narrativo de Romero, importante exatamente para a compreensão total da trama HUMANA, já que zumbis são colocados em segundo plano. Não são alegorias do comentário social do diretor como outrora, e estão lá para o entretenimento e para o gore (a cena do crânio de um deles derretendo com ácido é sensacional).

O ritmo é bastante lento, o que pode obviamente desagradar uma grande parte do público e quando disse o gore lá em cima, não é o gooooooore, e nem pense no splatter zumbi que Tom Savini, junto com o próprio Romero, ajudou a pavimentar em Despertar dos Mortos, mas sim algo comedido para não extrapolar na tela como elemento principal.

Diário dos Mortos também foi o último sopro de vida cinematográfica de Romero no cinema zumbi, sendo que sua continuação direta, Ilha dos Mortos, definitivamente é um dos piores filmes do subgênero, de um diretor cansado e que já enfrentava a superexposição da criatura e dosar a crítica social com o peso do cinema de terror.

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Uma câmera na mão e um desfibrilador na cabeça


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. DDuarte disse:

    Meu sonho é um filme sobre Zumbi dos Palmares dirigido pelo George Romero 🙂

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