825 – Gritos Mortais (2007)

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Dead Silence


2007 / EUA / 92 min / Direção: James Wan / Roteiro: Leigh Whannell / Produção: Mark Burg, Gregg Hoffman, Oren Koules; Peter Oillataguerre (Produtor Executivo) / Elenco: Ryan Kwanten, Amber Valletta, Donnie Whalberg, Michael Fairman, Joan Heney, Bob Gunton, Laura Regan


 

Rever Gritos Mortais depois de tanto tempo apenas me serviu para diminuir qualquer tipo de estima ou interesse que tive pelo filme em tempos passados, e provar por A+B para mim mesmo como James Wan é um picareta – dos bons, mas picareta – em apenas recauchutar fórmulas fáceis e transformá-las em ação sobrenatural, jumpscares e clichês de horror, entregando de bandeja exatamente o que o público médio do gênero quer ver.

Sim, eu sei que vai ter gente caindo de pau em cima de mim por conta disso, principalmente aqueles que endeusam Wan com um verdadeiro gênio do terror moderno, o que é o mais absurdo dos exageros. Mas paciência, essa é minha opinião, e Gritos Mortais só me fez corroborá-la principalmente pegando toda a estrutura narrativa e aonde estão os elementos de terror e do susto, que seguem exatamente a mesma fórmula utilizada depois em Sobrenatural e em Invocação do Mal, esses os filmes que o condicionou a esse tal status enganador como diretor salvador da pátria do gênero.

Fato é que Wan soube muito bem entender os meandros da máquina do horror mainstream, e isso é um puta mérito do malaio, e utilizá-lo a seu favor, sempre apresentando seu resultado enlatado, sem se permitir colocar um pouco mais de trabalho autoral (como fizera anteriormente no primeiro Jogos Mortais), abusando de fórmulas prosaicas, sustos fáceis, algum recurso de roteiro – geralmente banal, diga-se de passagem – que irá tirar os personagens daquela situação e um terceiro ato exagerado de ação. Gritos Mortais já tem tudo isso, que depois foi elevado a enésima potencia em seus longas posteriores de sucesso. E olha que o cara na verdade é um bom diretor.

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Você perguntou seu eu quero um balão?

O tema da vez é bonecos e ventriloquismo, que por si só, já é de meter medo muito fácil, desde o boneco Hugo de Na Solidão da Noite, dirigido pelo brasileiro Alberto Cavalcanti até o sinistro Fats, réplica de madeira de Anthony Hopkins em Magia Negra. O próprio visual de Billy, o boneco de Gritos Mortais é inspiradíssimo em ambos, numa medonha mistura entre Hugo e Fats, que já dá calafrio só de olhar.

A história, escrita por Wan e seu parceiro Leigh Whannell (a dupla que criou Jogos Mortais e depois trabalhariam juntos na franquia Sobrenatural) não é de toda ruim, e tem lá seus momentos assustadores, e até se mostra mais decente do que muitos dos filmes de terror comerciais do período, e convenhamos é muito difícil fazer um trabalho 100% original, então é aí que a mão de Wan na direção se destaca.

O grande problema é que ele é composto de uma narrativa medíocre, personagens chatos e rasos que carecem de maior profundidade e que não causam empatia ao público e os recursos tacanhos utilizados para se tentar assustar, são dos mais bobos e apelativos, sempre abusando de CGI, e principalmente a forma como se desenrola o “confronto final”  com a entidade sobrenatural da vez até seu plot twist na conclusão.

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Mary Shaw não tinha filhos, só bonecos…

Ryan Kwaten, o futuro Jason Stackhouse de True Blood é Jamie Ashen, sujeito que precisa voltar para sua cidade natal, Ravens Fair, após sua esposa ser terrivelmente assassinada de forma misteriosa, logo depois que o boneco Billy é entregue no apartamento do casal, sem destinatário. Ao voltar, Jamie descobre que seu pai ausente sofreu de uma grave isquemia e está paralisado em uma cadeira de rodas, agora casado com a bela Ella (Amber Valetta).

Revisitando o passado da cidade, Jamie retoma a antiga lenda de Mary Shaw, uma ventríloqua que foi assassinada pela população de Ravens Fair em busca de vingança pela senhora que enlouquecera e matara uma criança. Ela teve sua língua arrancada e enterrada junto de seus bonecos. Depois do acontecido, os moradores da região começaram a sofrer das mesmas mortes de Mary Shaw enquanto seus bonecos passaram a sumir de suas covas. Sua obsessão era na construção de um boneco perfeito e ela ganhou até um poema: “Cuidado com o olhar de Mary Shaw. Ela não tinha filhos, só bonecos. E se com ela você sonhar, lembre-se de jamais gritar (ou sua língua ela irá arrancar)”.

Pois bem, interessado em ir fundo na lenda e descobrir o que estava acontecendo, o personagem de Jamie chega até a reviravolta de roteiro de sua conclusão, que eu acho até bem interessante e assustador, mesmo com a erradíssima decisão de conta-lo com o mesmo estilo narrativo, edição de videoclipe e trilha sonora de Jogos Mortais. Aliás, a tentativa de Wan e Whannel era desde o começo tentar se desvencilhar da série, em que trabalharam ativamente até a terceira parte, lançado no ano anterior, e investir mais no terro clássico, atmosférico e psicológico. Mas a trama nada inspirada e seu desenrolar, além dos vícios de linguagem do diretor (que aqui nos daria apenas sua primeira amostra), jogaram contra o filme.

Aliás, o nome Gritos Mortais (ao invés do literal Silêncio Mortal) também é só mais uma das excelente ideias mirabolantes das nossas distribuidoras em pegar carona no sucesso de Jogos Mortais, e aproveitar a presença dos mesmos realizadores nos créditos.  Óbvio, não fez tanto sucesso quanto o torture porn, resultando em um filme esquecível, mas que serviu para entrar no rol dos bonecos assustadores do cinema de terror.

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New Kids on the Doll


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. André Coletti disse:

    Com exceção de Jogos Mortais, não gosto de nenhum filme do James Wan. E realmente todos são superestimados demais.

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