826 – Halloween – O Início (2007)

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Halloween


2007 / EUA / 121 min / Direção: Rob Zombie / Roteiro: Rob Zombie / Produção: Malek Akkad, Andy Gould, Rob Zombie; Patrick Esposito (Produtores Associados); Matthew Stein, Bob Weinstein, Harvey Weinsten (Produtores Executivos) / Elenco: Malcom McDowell, Scout-Taylor Compton, Tyler Mane, Brad Douriff, Sheri Moon Zombie, William Forsythe, Richard Lynch, Udo Kier, Danny Trejo


 

Eu queria muito saber quem foi a pessoa que deixou Rob Zombie COMETER esse Halloween – O Início. É uma desrespeitosa ofensa sem tamanho com o original de John Carpenter.  Impressionante como o roqueiro metido a diretor conseguiu, com sua visão limitadíssima de cinema, transformar um dos grandes clássicos do cinema de terror de todos os tempos, em um mero slasher apelativo, porco, mal escrito e mal dirigido, pegando todos os elementos que transformaram o longa de John Carpenter em uma obra prima, e destruindo-os um por um, apenas para satisfazer uma egolatria sem tamanho.

Quando Halloween – A Noite de Terror chegou aos cinemas em 1978, o tamanho impacto que ele causou no cinema de terror independente norte-americano foi tanto, que a quantidade de filmes inspirados por ele, não foi brincadeira. Carpenter foi o responsável por introduzir Michael Myers, o célebre assassino mascarado classudo no cânone do subgênero, criar as diretrizes e regras dos slasher movies e estabelecer a figura definitiva da Final Girl. Mais que isso, diferente dos demais slashers, principalmente pós-Sexta-Feira 13, Halloween é um filme minimalista, pontuado brilhantemente pela sua trilha sonora, com uma alta dose de tensão e suspense crescente, sem apelações, e a figura de Myers sendo um voyeur que espreita meticulosamente Laurie Strode pelas ruas dos subúrbios de Haddonfield, dotado de uma maldade nata, inumana, completamente frio, calculista e prático em seus ataques comedidos. Chega até a ser um vilão meio blasé.

O Michael Myers de Tyler Mane é uma verdadeira afronta ao personagem. Primeiro que Zombie transforma-o em um White Trash anabolizado, todo bollander, mais ou menos seguindo a mesma linha do que já haviam feito com Leatherface no remake de O Massacre da Serra Elétrica. Exatamente também como a estrutura de personagens que o criativo diretor/ roteirista vem utilizado em todos os seus filmes.

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Capeta em forma de guri

Outro dos pontos mais interessantes de Halloween sem dúvida nenhuma é sua abertura, soturna, claustrofóbica, com o jovem Michael Myers matando sua irmã, usando uma máscara de palhaço, e somos testemunhas oculares do fato nos colocando do POV do garoto, vendo exatamente o que ele vê e ouvindo sua respiração. Quando os pais do garoto chegam em casa e ele retira a máscara, com a faca de cozinha em punho, é uma das mais impactantes visões do cinema de terror, mostrando um garotinho normal, um verdadeiro psicopata infantil, que cometera aquela ato de barbárie.

Aqui Zombie resolve justificar a maldade e a insanidade de Myers, explorando sua clichêzaça infância problemática de uma manjadíssima família disfuncional, onde a mãe é stripper (ADIVINHE INTERPRETADA POR QUEM?), o padrasto é abusivo, a irmã é uma vagabunda e por aí vai, com o moleque interpretado por um péssimo Daeg Faerch, capaz de praticar crueldade com animais, matar o companheiro de escola que pratica bullying à pauladas e depois não apenas matar a irmã, mas também seu namorado e padrasto, só pra aumentar a contagem de cadáveres e satisfazer o tesão do Rob na violência gráfica desnecessária. Daquele medo de gelar a espinha da psicopatia infantil, que o guri tenha nascido com esse “gene ruim”, aqui vira uma justificativa das mais formulaicas.

Depois somos levados à infância de Myers em Smith’s Grove, onde Malcom McDowell faz um igualmente péssimo Dr. Sam Loomis tentando desvendar a mente do garoto, que passa a ter uma obsessão por máscaras (!!!???) e fechando-se cada vez mais em seu mundo psicótico. Talvez esse seja realmente o único momento interessante do filme, apesar de mal construído e completamente superficial, presente do roteiro fraquíssimo de Zombie (que não basta ser diretor, também acha que é roteirista, mas beleza).

Agora, a forma como Michael Myers escapa de Smith’s Grove é simplesmente patética! Chega até ser ridículo um recurso de roteiro tão imbecil ter sido utilizado. Bom, naquela altura do campeonato todo mundo já sabia do perigo que o psicopata degenerado representava, sua ausência de humanidade, compaixão e apreço pela vida alheia – até já tendo cometido outros assassinatos dentro do próprio manicômio. Mas eis que outros dois rednecks que trabalhavam no local tem a BRILHANTE IDEIA de estuprar uma garota catatônica DENTRO DA CELA de Myers, algo completamente, convenhamos, sem a MENOR LÓGICA, e zás, obviamente eles são mortos, o vilão deixa uma trilha de corpos, inclusive do seu suposto amiguinho Danny Trejo, mata médicos, seguranças e escapa. E saber que certa vez o arrogante Zombie fez troça com o fato do assassino no original de Carpenter ter fugido da instituição psiquiátrica dirigindo…

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Calma, é só um filme ruim destruindo um clássico, shhh…

Pois bem, depois disso, todo aquele clima que falei lá em cima de construção do suspense minimalista que tornou Halloween famoso e comedido, não é praticado em nenhum momento, com Myers matando um monte de gente à esmo até chegar na Laurie Strode de Scout-Taylor Compton. Toda a apelação de nudez e violência, sem necessidade, apenas para querer fazer um algo mais brutal e Zombie querer pagar de fodão, colocam o filme na mesma vala comum de todos os slasher movies qualquer nota lotado de clichês e fórmulas prosaicas.

E não, não dá para pensar em Halloween – O Início como uma obra independente, porque ele não é. Trata-se de uma refilmagem, e apesar de tentar fazer seu próprio filme, descolando-se do original, o que convenhamos, seria a atitude certa a tomar, Zombie padece mais uma vez de todos seus vícios de direção que irritam e escancaram sua deficiência técnica atrás da cadeira. E aquela maldita mania de usar câmera tremida nas cenas de ação e de ataque de Myers, além de seus closes sem a menor necessidade, também estão todos lá.  Vícios que ele abusou nos outros filmes e parece não ter aprendido a ser um diretor sóbrio, onde às vezes, menos é mais, mesmo tendo tido sucesso em Rejeitados Pelo Diabo.

Zombie sempre quer colocar sua mão “revolucionária” e cheia de empáfia em seus filmes, mas Halloween – O Início é execrável tanto como remake como em qualquer rusga de cinema autoral. É conseguir destruir de todas as formas possíveis um clássico e todos os preceitos e ensinamentos que Carpenter deu ao cinema e ao gênero, apenas pelo excesso de violência gráfica, de sujeira, e de testosterona, o que acaba limitando cada vez mais sua visão cinematográfica de só conseguir fazer um tipo de coisa, e transformar um assassino frio, calculista, pervertido, fetichista e sóbrio, num troncudo bolado cabeludo passivo-agressivo.

Vale também aqui fazer um parêntese sobre a presepada que a PlayArte Pictures fez ao lançar Halloween – O Início nos cinemas, dois anos depois de sua estreia nos EUA, cortando nada menos que VINTE SEIS minutos da projeção, apenas para conseguir uma classificação indicativa de 14 anos e atingir um maior número de salas de exibição, retalhando todo o filme e sua nudez e violência (que eram a ÚNICAS coisas que Zombie tinha a apresentar dentro de sua mediocridade). Foi um verdadeiro ultraje na época, e até hoje, tem gente que boicota lançamentos da distribuidora no cinema por conta disso. Eu já acho que eles (e a Dimension Films) deveriam ter cortado 121 minutos de filme, mas…

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Desconfio que esse blogueiro não gosta de mim…

 

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Raul heros disse:

    Pior que esse filme, só a continuação

  2. Papa Emeritus disse:

    Concordo 100% com você, Marcos. Esse filme é um insulto ao original. Um grande desperdício de dinheiro e de película. E olha que o Zombie iria conseguir piorar as coisas em 2009 com Halloween 2.

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