833 – O Orfanato (2007)

El orfanato / The Orphanage


2007 / Espanha, México / 105 min / Direção: Juan Antonio Bayona / Roteiro: Sergio G. Sánchez / Produção: Álvaro Augustín, Joaquim Padró, Mar Targarona, Belén Atienza e Elena Manrique (Linha de Produção), Guillermo Del Toro (Produtor Executivo) / Elenco: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Mabel Rivera


Um dos principais detalhes que pode até passar desapercebido nos leitores do blog, mas eu espero que não, é a internacionalização, se é que podemos chamar assim, do gênero de terror nesse novo século. Sempre houve produções importantes em diversos países, isso é inquestionável. Mas nessa última década, a globalização do horror atingiu novos patamares, arrancando o controle quase absoluto do cinema americano e nos mostrando verdadeiras obras criativas vindas de outros cantos do planeta, e muito melhores que as hollywoodianas, que se contentaram com remakes e histórias requentadas. Esse é o caso da produção mexicana-espanhola O Orfanato.

Produzido por Guillermo Del Toro, O Orfanato é uma continuação natural do cinema de fantasma espanhol que o próprio mexicano começou em 2001 com A Espinha do Diabo e que atingiu seu auge com o filme de outro espanhol, Os Outros de Alejandro Amenábar. E a grande característica que une o cinema sobrenatural do século XXI são suas conclusões, todas com um toque melancólico e negativo.

Outro detalhe que é muito presente na obra de Del Toro, e evidente depois de A Espinha do Diabo e o aclamado Labirinto do Fauno, indicado a seis Oscar®, é a conotação política e as sequelas da ditadura Franco, presentes em sua obra de forma explícita ou implícita. Há sempre uma necessidade de mostrar para o público espanhol que ele não pode se esquecer do que aconteceu, para que não se repita nunca mais os erros do passado. E é exatamente essa a metáfora de O Orfanato: um filme sobre memórias, perdas e erros.

Além de um excelente filme de terror, o longa de estreia do diretor Juan Antonio Bayona é um poético drama sobrenatural. Laura vive em um orfanato em sua infância, junto com mais algumas crianças que sofrem de algum tipo de deformidade física. Logo no começo do filme a vemos brincando com seus amigos órfãos enquanto está prestes a ser adotada. Passam-se 30 anos e Laura (agora interpretada pela ótima Belén Rueda) e seu marido Carlos, resolvem reabrir o mesmo orfanato e concretizar um sonho de poder novamente habitar o lugar com algumas crianças especiais que ela possa tomar conta.

1,2,3, toca na parede…

O casal possui um filho adotado soropositivo, Simón, que começa a brincar com alguns amigos imaginários. Certo dia, eles vão passear na praia e ao entrarem em uma caverna, Simón conhece mais um novo amiguinho de mentira, Tomás, mostrando o caminho de sua casa deixando conchas para que ele a encontre. No dia da inauguração do orfanato, Simón misteriosamente desaparece, sem deixar nenhum vestígio, após uma briga com sua mãe para que ela veja a casinha de Tomás. Depois de seis meses de buscas frustradas, Laura descobre que algo terrível aconteceu no local pouco depois de ser adotada.

Uma das monitoras tinha um filho deformado, que usava uma máscara de pano para não mostrar a deformidade em seu rosto. Uma espécie de pequeno Jason Voohrees. Os demais que praticavam bullying com o garoto o levaram até a tal caverna na praia e roubaram sua máscara, obrigando-o a sair e mostrar seu rosto ou seria deixado ali. Ao preferir se esconder que encarar as outras crianças sem máscara, o menino acaba morrendo afogado quando a maré sobe e invade toda a caverna. E esse menino era Tomás.

Com a ajuda de uma equipe de parapsicólogos, incluindo o Prof. Leo Bálaban, interpretado pelo eterno Sr. Barriga, Edgar Vivar, Larua descobre que há presença de espíritos de crianças rondando a casa, que podem ter sido responsáveis, junto com Tomás, pelo sumiço de seu filho. Seguindo algumas pistas deixadas a ela como em uma brincadeira, Laura acaba por encontrar os corpos de seus cinco antigos amigos de infância, que causaram a morte de Tomás. Todos foram executados como vingança pela mãe do garoto deformado.

Seu Barriga lá no fundo veio cobrar os 14 meses de aluguel atrasados

Nesse momento até o final do longa fica evidente que os antigos amigos de Laura tinham uma certa fatura a cobrar por ela tê-los abandonados e esquecido deles. O passado vai ecoando no presente, banhando a personagem em um sentimento de culpa e impotência, junto com lembranças da infância que vem à tona. E na ânsia de tentar começar algo novo, acaba cometendo os mesmos erros do passado e não se atentando a pequenos detalhes que vão selar o seu destino e de seu filho de uma maneira trágica.

E em meio a esse drama familiar, há elementos realmente bem assustadores, como o sinistro visual de Tomás e a cena em que Laura começa a brincar de pique-esconde com os fantasmas dos infantes que vão aparecendo, em uma cena magistralmente filmada toda em plano sequência. E mesmo que encontremos todos os clichês possíveis e imagináveis do gênero, como um casarão mal-assombrada, o filho conversar com amigos invisíveis, uma criança deformada e assustadora que é uma espécie de pária e faz desenhos sinistros, e tudo mais, o filme funciona muito bem, com uma excelente fotografia e roteiro. Você não fica incomodado de estar vendo as mesmas coisas mais uma vez.

O Orfanato teve 14 indicações ao Goya e faturou sete, incluindo melhor novo diretor para Bayona, melhor roteiro original, melhor atriz para Rueda e melhor filme. Ainda foi o filme indicado pela Espanha para concorrer ao Oscar® de melhor filme estrangeiro em 2008. Faturou mais de 20 milhões de euros só na Europa e no Brasil foi o terceiro filme mais visto do ano, atrás só de arrasa-quateirões como Piratas do Caribe 3 e Shrek 3.

Fantasia perfeita para uma festa de Halloween



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Íris disse:

    Torrent não está disponível 🙂

  2. Opa!
    Adorei a ideia do site e a sua qualidade notável! Favoritado ;D

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