838 – À Prova de Morte (2007)

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Death Proof


2007 / EUA / 114 min / Direção: Quentin Tarantino / Roteiro: Quentin Tarantino / Produção: Elizabeth Avellan, Robert Rodriguez, Erica Steinberg, Quentin Tarantino; Pilar Savone (Produtora Associada); Shannon McIntosh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein (Produtores Executivos) / Elenco: Kurt Russell, Zoë Bell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Sydney Tamiia Portier, Tracie Thorns, Rose McGowan, Jordan Ladd, Mary Elizabeth Winstead


 

Quentin Tarantino fazendo o Russ Meyer. Essa é a melhor definição para À Prova de Morte, suposta segunda metade do projeto Grindhouse, onde ele e seu parça tex-mex Robert Rodriguez desenvolveram dois filmes com a estética de pagada dos filmes B e expolitation, famosos nos cinemas de drive in e sessões duplas dos anos 70 nos EUA.

Dirigido e escrito pelo queixudo, À Prova de Morte é mais uma daquelas típicas experiências cinematográficas tarantinescas, com todo o aparato já largamente conhecido que o diretor usa e abusa em seus longas – sua marca registrada – com um mix de referências de tudo que o influenciou, principalmente nesse período prolífico do cinema alternativo de gênero americano, criando alguns daqueles momentos, personagens e claro, trilha sonora, icônicos para os cinéfilos.

Afinal aí, quem não paga um pau para o personagem Stuntman Mike, o dublê-piloto psicopata de Kurt Russell que assassina jovens mulheres em acidentes de carro premeditados com sua caranga infernal? E vai, quem mais aí não paga um PUTA PAU para o lap dance da Arlene de Vanessa Ferlito ao som de “Down in Mexico” da banda The Coasters?

Aliás, falando exatamente nisso, À Prova de Morte é dividido em duas partes, sendo que sua primeira metade é em ordem de grandeza, superior a segunda, o que fatalmente já dá uma baita quebra de ritmo no longa, ainda mais que sabemos o quanto Taranta gosta de uma boa prosa e enche de cenas de diálogos, que são quase metralhadoras giratórias sobre cultura pop, em seus filmes.

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Girls night out

Nesse primeiro segmento somos apresentados ao ameaçador Mike – Russell ótimo, como de costume – e a um grupo de garotas que só querem se divertir, tomar umas bebidas no bar e pegar alguns boys, formado pela DJ Jungle Julia (Sydney Tamiia Portier), Arlene (Ferlito) e Shanna (Jordan Ladd). O dublê-piloto dá carona para uma outra moça no bar, Pam (Rose McGowan) e se vangloria de seu carro todo modificado ser 100% à prova de morte, construído para as cenas de acidente e perseguição nos filmes. Só que isso apenas para quem está sentado do lado do motorista!

O lunático então encena uma acidente em que mata sua caronista e depois choca seu carro a toda velocidade com as moças, em uma cena absurdamente sensacional, repetida três vezes para mostrar a carnificina e o impacto da batida de três ângulos diferentes, auxiliado pela sempre campeã maquiagem e efeitos especiais da KNB EFX Group.  A polícia se vê incapaz de condenar Mike pelos crimes, uma vez que não há provas de que foi um acidente com intenção de dolo, até porque as moçoilas estavam sob o efeito do álcool e drogas, e assim, ele é liberado, só para 14 meses depois no segundo segmento, ir atrás de um novo grupo de mulheres, só que dessa vez, nada indefesas.

É exatamente nessa parte que Tarantino faz o Meyer, o famoso diretor independente e transgressor, e homenageia/ se apropria de forma rasgada – como de praxe na sua filmografia onde ainda é considerado por todos os descolados em cinema como criativo, original e gênio – do cult Faster Pussycat, Kill, Kill, sem dúvida um dos longas mais feministas e girl power de toda a história do cinema. E as perseguidas da vez serão Abernathy (Rosario Dawson), Lee (Mary Elizabeth Winstead – LINDÍSSIMA QUE DÁ VONTADE DE PEDIR EM CASAMENTO E OFERECER TUDO QUE ELA QUEIRA NESSE MUNDO E MAIS UM POUCO), e as dublês Kim (Tracie Thorns) e Zoë (Zoë Bell), a quem elas vão buscar no aeroporto, vindo da Nova Zelândia, sem saberem que estão sendo seguidas pelo maníaco.

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Não sei o que dizer, só sentir…

A vinda da moça aos States foi por conta de um anúncio de venda de um Dodge Challenger R/T 1970 branco – ela é viciada nos muscle cars de Detroit – veículo que tem o sonho de dirigir por conta do road movie clássico Corrida Contra o Destino, de 71. Ela consegue engambelar o dono do carro para um passeio com o possante automóvel emprestado, usando a gracinha da Lee como moeda de troca, com Zoë fazendo acrobacias sobre o capô e se divertindo a valer dirigindo no deserto, quando Mike aparece colocando-as em perigo e tentando mata-las.

Mas como sexo frágil é o cacete, as moças decidem revidar e apavoram o misógino, que enquanto na primeira metade se mostra um frio e calculista psicopata, de repente, vira um bundão que fica choramingando e tomando um coro, o que destoa completamente na construção do vilão, apesar da intenção ser bem essa, de enaltecer o poderio e empoderamento feminino, o que está certíssimo, mesmo com tamanha disruptura do personagem.

O problema é que À Prova de Morte, diferente de sua contraparte de Grindhouse, Planeta Terror, é bem inferior, mesmo com todo tom de homenagem e paródia, mostrando-se um filme, que apesar de todas as qualidade inerentes a um longa do Taranta, tem um resultado irregular e um ritmo deficitário e recheado de barriga (ele teria meia hora a menos se lançado em uma sessão dupla com Planeta, talvez mais aceitável), se perdendo principalmente na sua segunda metade, entre um diálogo afiado ou música esperta na trilha sonora.

À Prova de Morte faltou o arroubo de violência, do trash e da inspiração que foram vistos na concepção de zumbis de Rodriguez, e lançado sozinho como feito, chega até a ser um filme bem menor da filmografia de Tarantino, mas que mesmo assim vale a diversão.

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A máquina do diabo



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

1 Comentário

  1. Norberto disse:

    Porra, é disparado o pior filme dele…. perto do Os oito Odiados, mas ainda sim pior…. Agora a parte da porrada de carro que mata as meninas é sensacional! Violento e detalhista. Só vale por isso….

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