843 – A Capital dos Mortos (2008)

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2008 / Brasil / 87 min / Direção: Tiago Belotti / Roteiro: Tiago Belotti, Mikael Bissoni / Produção: Hermes Barreto, Fernanda Duarte, Rodrigo Luiz Martins, Éverton Rosa / Elenco: Pablo Peixoto, Laura Moreira, Gustavo Serrate, Yan Klier, Jean Carlo, Luísa Viotti


O divertidíssimo brazuca A Capital dos Mortos de Tiago Belotti é uma ode à trasheira nacional em todos os sentidos possíveis e imagináveis. É escracho e tosquice naquele nível que supera todas as expectativas dos fãs.

Desde o início já se percebe, tanto pela qualidade quanto pelo caminho camp que o filme envereda, que ele não se leva a sério – e não se preocupa com isso em nenhum momento. Aquele típico resultado de uma produção concebida numa mesa de boteco, lotada de referências e clichês propositais, atuações amadora, situações ridículas, tão típicas do terror e principalmente do subgênero zumbi, orçamento limitadíssimo, mas o que mais importa, feito com paixão e bravura.

Belotti dirige e escreve o longa (ao lado de Mikael Bissoni), que lá no longínquo ano de 2008, figurava no início de gestação desse “cinema de retomada” do horror nacional que encontramos hoje em uma patamar cada vez mais interessante e evoluído. Misturar Brasília com zumbis e com típicas situações nacionais, apesar dos parcos recursos, foi a boa sacada do time de criadores.

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Vamos saquear Brasília!

Na trama, em 1883, o padre italiano Dom Bosco teve uma profecia à lá Nostradamus: os seres humanos têm sessenta anos após sua morte para se redimir de todas as merdas que vem fazendo, caso contrário, no início da terceira geração, uma grande praga – que teria início em Brasília, epicentro desse apocalipse, vai vendo – condenaria a humanidade ao juízo final por meio de uma hecatombe zumbi. E batata que isso acontece!

Claro que os efeitos especiais são de baixo nível, assim como toda a produção, atuação, maquiagem, e o que valha. Mas os personagens são os mais espirituosos possíveis, assim como os diálogos improváveis! Pense que logo no começo, dois deles estão jogando xadrez e depois Winning Eleven em um PS2 (sdds Brazukas) e tendo nossas versões tupiniquins de diálogos à la Quentin Tarantino, mas decidindo quem é melhor, o Chico Bento ou o Cascão. Genial!

Os personagens vivem, propositadamente, se metendo em todo tipo de clichê, desde a eterna dúvida se deve ficar em casa ou tentar fugir, parafraseando filmes do subgênero, até coisas ridículas, como ir sozinho em um supermercado, só para sacanear esses expedientes batidos. Tem até um sujeito chamado Tio (Jean Carlo), que ninguém sabe o nome verdadeiro, que é o maluco cheio das armas e que diz a lenda que trabalhava no Bope (vale lembrar que aqueles eram tempos em que Tropa de Elite conquistava o público brasileiro).

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Dom Bosco: especialista em profecias e vinhos

Aliás, como bom filme de zumbi que se preze, seguindo a escola George Romero, obviamente o maior homenageado da fita (desde pôsteres de Despertar dos Mortos colados na parede até a hipótese de que os mortos voltaram à vida por não houver mais espaço no inferno) há nas entrelinhas uma crítica social, e principalmente política, com zumbis invadindo o DF e os plantões noticiosos sobre o assunto.

Aliás, A Capital dos Mortos, visto novamente depois de todos esses anos, descontando o trash no mais alto nível e o típico dedo mambembe do cinema nacional, em um momento como esse, em que de fato, parece que os zumbi nefastos – metaforicamente falando – chegaram finalmente mesmo ao Planalto Central e o infestou, parece ter um tom profético, como de Dom Bosco, e conotação política ainda mais forte do que nunca. Até o próprio Zé do Caixão faz uma micro ponta, afinal, estamos falando do cinema nacional, rogando uma praga na cidade, igualmente profética.

A ideia original de A Capital dos Mortos era que se transformasse em uma trilogia. O segundo filme foi lançado no ano passado, inclusive exibido aqui em São Paulo no Festival Boca do Inferno em novembro, com direito a participação do produtor Rodrigo Luiz Martins, falando sobre a dificuldade da produção de ambos os filmes, a demora no lançamento do segundo longa – ainda mais em tempos de The Walking Dead, que elevou o nível do zumbi na cultura pop –  e que provavelmente esse terceiro longa não saia tão cedo. Uma pena!

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Quando não houver mais espaço no Planalto…



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Acompanho o canal do Tiago Belotti no Youtube. Ele é um excelente crítico de cinema. Mas eu ainda não consegui ver os filmes dele.

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