845 – Deixa Ela Entrar (2008)

Låt den rätte komma in / Let the Right One In


2008 / Suécia / 115 min / Direção: Tomas Alfredson / Roteiro: John Ajvide Lindqvist / Produção: Carl Molinder, John Nording, Gunnar Carlson, Ricard Constantinou, Lena Rehnberg, Per-Erik Svensson (Co-Produtores) / Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl


Deixa Ela Entrar é tudo que A Saga Crepúsculo gostaria de ser, se não fosse escrito por aquela mórmon idiota e voltado a um público adolescente acéfalo. Pronto falei. Mas é claro que isso é uma análise extremamente superficial e mesquinha sobre essa poético filme sueco de amor vampiresco, dirigido impecavelmente por Tomas Alfredson.

Com roteiro de John Ajvide Lindqvist, baseado em seu livro homônimo, Deixa Ela Entrar é uma espécie de renovador do gênero, ainda mais se trantando de um momento de reputação terrível que os sugadores de sangue passam ultimamente. A trama de amor e inocência perdida nunca apela para violência ou sangria desnecessária, sempre sendo carregada por um toque sutil de beleza, uma linda fotografia das paisagens geladas de uma Estocolmo ambientada nos anos 80, filmada em cinemascope, e ritmo lento e arrastado, quase usando o próprio vampirismo da protagonista como apenas um efeito narrativo deixado em segundo plano.

Oskar é um garotinho de 12 anos, solitário e tímido, um tanto quanto estranho, podemos assim dizer, filho de pais separados (sendo que o pai trocou sua mãe por descobrir-se homossexual) que sofre bullying constantemente na escola. Cansado de ser um saco de pancadas, vive treinando sozinho com seu canivete em seu quarto ou em árvores no pátio do complexo habitacional em que vive, mas sem nunca ter coragem de dar o revide. E é nesse pátio que ele conhece Eli, a garota que acabou de se mudar para o apartamento ao lado, igualmente solitária e estranha, que só sai durante a noite e aparentemente também possui 12 anos, apesar de sempre enfatizar que não é uma menina.

Ah, que casal fofo!

O relacionamento inocente dos dois, com toda aquela carga de incerteza e medos de um romance pré-adolescente vai crescendo, um apoiado nas necessidades do outro. Eli sabe muito bem do fardo que carrega por ser uma criatura imortal que tem de se alimentar de sangue e isso restringe ao máximo seu contato e afeto com outros seres humanos, exceto pelo seu pai, com quem vive e é uma espécie de capacho. O garoto a recebe de braços abertos sem esboçar qualquer tipo de preconceito ou estranheza, enquanto deseja o poder e confiança da menina para poder enfrentar seus desafetos. Tanto que ao descobrir que a vizinha e paixonite é uma vampira, isso não o afasta, mas sim, aumenta sua curiosidade e aproxima-o mais dela.

As coisas começam a sair do controle quando o pai de Eli, nitidamente cansado e desgostoso dos assassinatos que vem cometendo a tanto tempo, começa a ficar distraído e falhar na tentativa de conseguir sangue para a garota, já que prefere que ela fique trancada no apartamento para não levantar suspeitas e uma possível captura. Com essa falha e passando fome, Eli decide agir por conta própria e ataca um dos moradores do complexo, o que vai desencadear uma espiral de acontecimentos que coloca em risco a identidade e a vida da garota. Paralelo à isso, Oskar começa a se sentir mais valente e confiante, a ponto de enfrentar o garoto que o atormenta na escola e a feri-lo gravemente, o que vai gerar uma retaliação futura na estupenda cena final da piscina.

Um dos lances mais legais do filme é como ele trabalha a mitologia do vampiro precisar ser convidado para entrar em algum local. É sabido que só com esse convite ele pode adentrar ao aposento de outra pessoa. E uma cena em especial mostra uma reação única quando Oskar recusa a convidar a garota e fica a testando para ver se ela entra sozinha e o que vai acontecer. Ao entrar Eli parece entrar em um estado de convulsão seguida por uma forte hemorragia interna, que faz com que seu sangue comece a escorrer pelos seus poros, até que o garoto a convida formalmente para que ela pare de sofrer. É incrível.

Oskar chatiado…

Claro que por se tratar de um film europeu, ainda mais sueco, não tem o ritmo adequado para qualquer um apreciá-lo, ainda mais essa geração blockbuster que gosta do vampirinho asséptico que brilha na luz do sol e sua amada songa-monga. Assim como também é muito contra-indicado para quem quer ver um banho de sangue aos moldes de Vampiros de John Carpenter, Um Drink no Inferno e 30 Dias de Noite. É preciso ter uma boa dose de tato e apreço cinematográfico para entender toda a beleza e a riqueza por trás de Deixa Ela Entrar. E você pode se considerar um cara de sorte quando encontra uma pessoa especial que goste muito desse filme e assim como eu, o considera um dos melhores filmes de vampiros de todos os tempos.

Tanto que faturou mais de 62 prêmios internacionais de cinema mundo afora e foi sucesso de crítica em diversos festivais em que foi exibido por aí. Até foi indicado ao BAFTA, o Oscar Britânico, como melhor filme de língua não inglesa. Em terras tupiniquins ele foi exibido aqui em São Paulo pela primeira vez durante A Mostra Internacional de Cinema de 2008, e no ano seguinte na primeira edição do festival SP Terror (com ingressos esgotados) e só depois estreou no circuito alternativo em um número ínfimo de salas.

E tão certo quando dois mais dois são quatro, os americanos não tardaram em fazer sua versão, batizada Deixe Me Entrar, dirigido por Matt Reeves, o mesmo do filme do post de onte,  Cloverfield – Monstro. Veja bem, não é um filme ruim. Mas o problema é compará-lo com o original, que é uma obra imbatível. Daí fica bem difícil.

Morra de inveja, Saga Crepúsculo!


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. oscar_b disse:

    Já havia assistido o filme e gostei muito (a cena da piscina no final do filme é brilhante).
    Porém na minha singela opinião não considero “Deixe ela entrar” um filme do gênero horror, acho que a história está mais para um drama ou até um romance do que horror em questão.
    Uma curiosidade do filme que eu li em algum lugar é que Eli na verdade é um menino!!! O diretor até pensou em colocar um cena com a castração do personagem, que seria feita com closes de uma castração de um porco. Mas na última hora o diretor ficou com pena do suíno e abandonou a ideia.

    • Oi Oscar. Para você ver como o cinema de terror é um gênero bem mais abrangente. Uma obra como Deixa Ela Entrar, que também é um drama, se encaixa em terror e fantástico por ser um filme de vampiro, e com assassinatos e sangue, e claro!

      Nossa, não sabia dessa história de ele ser menino. Que bacana!!! Obrigado por compartilhar a informação.

      Grande abraço.

      Marcos

  2. Íris disse:

    Ótimo filme.

  3. Popeyescan disse:

    Posta novamente, o link tá inválido.
    Valeu!!!

  4. alexander disse:

    Vlw pelo post,filme muito bom!

  5. alexander disse:

    Aliás pra quem gostou desse, deixo a dica de outro muito bom. “A girl walks alone at home at night” que na tradução ficou “a garota que anda à noite”.Filme ambientado no Irã de uma vampira bem interessante.

  6. Ari disse:

    Um um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. Ele é poético sensível e assustador ao mesmo tempo. A camera capta o fundo dos personagens levando o espectador a uma certa cumplicidade com o casal principal do filme. Poucos diálogos mas um cinema que fala pela imagem, ou seja, o cinema como tem que ser as imagens que falam por si.

  7. Papa Emeritus disse:

    Um dos melhores filmes de vampiro que já vi.

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