846 – Encarnação do Demônio (2008)

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2008 / Brasil / 94 min / Direção: José Mojica Marins / Roteiro: Dennison Ramalho, José Mojica Marins / Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Débora Ivanov, Paulo Sacramento; Gabriel Lacerda, Paulo Ribeiro, Patrick Siaretta (Produtores Associados) / Elenco: José Mojica Marins, Jece Valadão, Adriano Stuart, Milhem Cortaz, Rui Resende, José Celso Martinez Corrêa, Cristina Aché


Demorou 41 anos, mas o sonho de José Mojica Marins em encerrar a trilogia de Zé do Caixão, que se iniciou em À Meia-Noite Levarei Sua Alma em 63 e seguiu em Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver, de 67, finalmente se encerrou com a Encarnação do Demônio, com chave de ouro e sangue. Filme melhor para uma véspera de feriado de Corpus Christi não há!

Sádico, violento, gráfico, brutal, herege. Encarnação do Demônio é uma superprodução nacional, dirigida e estrelada por Mojica, cercado de um time dos mais competentes possíveis, como Dennison Ramalho no roteiro e assistência de direção (do obrigatório curta Amor Só de Mãe, de um dos episódios de O ABC da Morte 2 e que hoje está escrevendo a aguardada série de terror, Supermax, da Rede Globo), José Roberto Eliezer na direção de fotografia, Paulo Sacramento na edição, André Kapel nos efeitos especiais, produzida pela Gulane Filmes, distribuída pela Fox, e até Alexandre Herchocovitch criando o figurino, muito diferente do cinema desbravador, independente e marginal de Mojica na Boca do Lixo paulistana nos anos 60 (retratado de forma canhestra em seu recente seriado exibido no Space).

E mais, conseguiu de forma brilhante atualizar o personagem coveiro para o novo século, para uma nova plateia, para um novo tempo, aproveitando exatamente todos os elementos do gênero que faziam sucesso naqueles meados e final dos anos 2000, como o torture porn, o new french extremity e o J-Horror, mas com aquele sempre toque de religião, misticismo e trejeitos tipicamente brasileiros, marca registrada de Mojica.

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Josefel Zanatas visto em seu habitat natural

Mas sem dúvida, uma das grandes importâncias de Encarnação do Demônio, até para o próprio cineasta, é poder retificar o final de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, imposto pela censura da Ditadura Militar. Ao término do longa, Josefel Zanatas, ateu confesso, foi obrigado, por conta da canetada federal, reconhecer Deus como seu salvador antes de afundar no pântano após ser perseguido por uma turba enfurecida. Aqui, descobrimos que o personagem folclórico não morreu, mas esteve preso durante esses 40 anos, solto por conta de um mandado judicial.

Aquele momento fatídico é recriado em flashback P&B, onde Zé, interpretado por Raymond Castile, com uma semelhança física com o jovem Mojica impressionante, deixa bem claro que renega Cristo SIM, e faz mais duas vítimas: assassinando um doutor e deixando o policial responsável pela sua prisão cego de um olho. Esses dois personagens terão importância para o desenrolar da trama, quando o coveiro é libertado e resolve continuar sua busca pela mulher perfeita para gestar seu filho, custe o que custar. O velhinho continua com um baita fogo, beijando as gostosonas sem roupa a rodo, além de recrutar novos discípulos para ajuda-lo no terrível feito (abusando dos mais escabrosos testes de lealdade, como o esperado do personagem).

As duas nêmeses de Zé no filme serão justamente o Estado, na figura da polícia, com Jece Valadão vivendo o Coronel Claudiomiro Pontes (Jece Valadão), o mesmo que ficara cego por culpa do vilão, e representa perfeitamente a autoridade abusiva da Polícia Militar, que não mudou absolutamente nada na questão do uso excessivo de violência nesses quase dez anos – afinal a gestão política do estado continua sendo A MESMA, a diferença é que além de bater em mulheres e pobres (como faz no filme) também bate em professor, estudante e homossexual; e a Igreja, na figura do filho do padre morto por Zé (interpretado por Milhem Cortaz criando um personagem propositadamente forçado), que também enveredou pelo caminho do sacerdócio, só que bem mais Opus Dei, com direito a autoflagelação, com o intuito de matar e condenar a alma do facínora ao inferno.

Visualmente, Encarnação do Demônio é de um impacto grotesco, de um descalabro e ode ao mau gosto, como só Mojica poderia chegar, mantendo toda sua aura de transgressão e sua capacidade impressionante como cineasta genial que é, mesmo sempre subestimado perante artistas e público, ainda mais depois de anos no ostracismo onde ficou reduzido apenas a uma figura caricata que apresentava o Cine Trash na Band e cortava suas unhas em programas de auditório.

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Pedação de carne!

Brutalidade, gore, crueldade e tortura em alto nível se fazem presentes graças a mutilações, castração com direito a canibalismo, perfuração corporal, suspensão, chuva de sangue durante uma cena de sexo em um terreiro, uma garota nua costurada dentro da carcaça de um leitão, aranhas peludas, baratas e uma ratazana enfiada em um órgão genital feminino, emulando algumas das torturas reais usadas pela própria Ditadura, a responsável direta por destruir a carreira de Mojica.

Outro ponto importante é quanto um personagem completamente folclórico e interiorano como Zé, e que se tornou estereotipado no decorrer dos anos enquanto Mojica tentava ganhar uns trocados, não parece deslocado no tempo com esse update, em um país que continua tão místico e religioso, e ainda levantando um forte questionamento político e social implícito no meio de sua selvageria.

Sim, é estranho vê-lo nos século XX, com muita grana para os efeitos especiais e de maquiagem, e se aproveitando do que havia de mais em voga na terror atualmente, sendo exibido nas salas de cinema dos multiplex, première de gala no faraônico Theatro Municipal de Paulínia durante o festival realizado na Róliúde Brasileira, seguido pela abertura tradicionalíssima da fanfarra da 20th Century Fox, pela primeira vez utilizando sua própria voz (os dois filmes anteriores eram dublados) e Mojica falando um português impecável, principalmente na conjugação dos plurais. Mas logo tudo isso se esvai quando o vemos vestido na cartola e capa preta, junto de sua barba característica e unhas longas, e fazendo aquilo que sabe fazer de melhor.

Demorou mais valeu cada segundo de metragem de Encarnação do Demônio, sem dúvida, um dos melhores filmes nacionais de terror de todos os tempos!

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Precisa-se de manicure na prisão



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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