848 – Os Estranhos (2008)

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The Strangers


2008 / EUA / 88 min / Direção: Bryan Bertino / Roteiro: Bryan Bertino / Produção: Doug Davison, Nathan Kahane, Roy Lee; Thomas J. Busch (Coprodutor); Joseph Drake, Marc D. Evans, Kelli Konop, Trevor Macy, Sonny Mallhi (Produtores Executivos) / Elenco: Scott Speedman, Liv Tyler, Gemma Ward, Kip Weeks, Laura Margolis, Glenn Howerton


“De acordo com o FBI, são estimados que mais de 1,4 milhões de crimes violentos acontecem nos EUA todo ano. Na noite de 11 fevereiro de fevereiro de 2005, Kristen Mckay e James Hoyt saíram de uma festa de casamento de amigos e foram para a casa de verão da família de Hoyt. Os eventos brutais que ali aconteceram ainda não são de completo conhecimento”.

Assim começa o narrador, ao melhor estilo John Larroquete em O Massacre da Serra Elétrica, contando sobre a tragédia que se abateu ao casal na trama de Os Estranhos. E ah, também dizendo, claro, que é inspirado em fatos reais. Deveria ter dito: inspirado no filme francês Eles, de David Moreau e Xavier Palud, isso sim, já que o plot e o final são os mesmos, e de fato real apenas uma experiência da infância do roteirista e diretor Bryan Bertino, quando um estranho bateu na porta da casa dos pais dele, perguntando por alguém que não morava lá, e na manhã seguinte descobriu que outras casas na vizinhança haviam sido invadidas.

Dito isso, vale dizer que Os Estranhos é um tenso e honestíssimo suspense, muito melhor se você não viu Eles, obviamente. O grande acerto do longa são as máscaras que os personagens, Homem de Máscara, Garota Pin Up e Cara de Boneca, usam, que já meio que virou um clássico do gênero. Afinal, as máscaras servem para afastar qualquer tipo de humanidade residente no comportamento psicopata daquele trio que resolve, sem nenhum motivo aparente (ou porque o casal simplesmente estava em casa…) assustá-los, coagi-los e tortura-los. Aqui, outra influência, dessa vez de Violência Gratuita de Haneke, pode ser conferida em peso.

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Fuja por sua vida!

Bertino sabe muito bem construir toda atmosfera do filme, tanto no processo de slow burning da escalada do suspense desde a primeira batida na porta da afastada casa de campo, até a inaptidão dos personagens em conseguir de fato se livrar da situação – ninguém aqui vira um badass e consegue enfrentar os maníacos, como, por exemplo em Temos Vagas, Você É o Próximo e o recente Hush: A Morte Ouve, longas com a temática parecida, o que o deixa mais crível – e também pela indesejada sensação de colocar o espectador como uma testemunha ocular direta por por optar em gravar todo o longa com câmera na mão ou steadcam.

Outro lance interessante é o drama dos personagens e a forma melancólica como Bertino lida com a situação (e mais uma vez colocando o público como testemunha, muito próximo dos dois em um momento completamente depressivo, o que nos dá uma errada sensação de invasão de privacidade), uma vez que Hoyt (Scott Speedman) resolve pedir a mão de Kristen (Liv Tyler) durante uma festa de casamento e tem o pedido de matrimônio rejeitado pela moça, que não se sente pronta naquele momento, e eles são obrigados, por conta de todo um planejamento que fora para o ralo, passar a noite juntos na casa da família do rapaz, milimetricamente preparada, com champanhe no gelo, velas e pétalas de rosa. Sério, é realmente de partir o coração.

Depois dessa ambientação, Os Estranhos parte fatalmente para as fórmulas bem sucedidas e prosaicas desse tipo de thriller: ameaça psicopata que vai crescendo, tensão calcinante, perseguições, torturas físicas e psicológicas e um final pessimista que já sabemos de antemão, tanto pelo narrador quanto pelo prólogo. O diferencial aqui do jogo de gato e rato entre algozes e vítimas, mais uma vez, são aquelas aterradoras máscaras, principalmente do rapaz (que é acompanhado de duas moças), que lembra um espantalho ou o serial killer de Assassino Invisível, e claro, mais para frente, a descoberta de sua motivação, ou falta de.

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Somente observo…

ALERTA DE SPOILER: Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Há um momento realmente soco no estômago em Os Estranhos, daquele que não dá para se ter outra reação que ficar boquiaberto ou soltar um alto e sonoro CARALHO!, que é quando Hoyt está munido da espingarda de caça do pai, e sem querer, atira na cabeça do melhor amigo, que recebera uma mensagem no celular dizendo para ir busca-lo, uma vez que o pedido de casamento tinha dado errado, pego de supetão. Esse é o tipo de jumpscare autêntico, genuíno e funcional, e não está apenas ali como pobre recurso estético para assustar.

Impossível também não ter empatia com as duas vítimas, assim como não sentir um frio gelado na espinha com aquelas três figuras soturnas mascaradas e sua frieza e falta de apreço pela vida humana. Esse é o grande score do filme, simples e direto, que o tira da vala comum dos suspenses triviais, mostrando-se um bom exemplar dessa safra de thrillers ali do final da década passada e começo desta. Mas como eu disse, o impacto é cortado pela metade se você já assistiu a Eles, que consegue ter um final ainda mais acachapante.

Até hoje, há rumores de uma sequência de Os Estranhos quem vem sendo ventilada há muito tempo, sem sequer sair do papel. Recentemente foi noticiado que o diretor Marcel Langenegger estava negociando para ocupar o cargo, com o roteiro de Ben Kentai, mas nada mais também foi dito em relação a isso. Quanto a Bertino, que poderia construir uma carreira de respeito por conta do resultado (inclusive de público e crítica) ficou pelo caminho, pelo menos por enquanto, passados oito anos, dirigindo apenas mais um filme, Mockinbird em 2014, e atualmente com There Are Monster em pós-produção, com previsão de lançamento ainda este ano. Além de ser produtor do aguardadíssimo e elogiado, February.

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Três é demais!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Leandro Merce disse:

    Filme foda!!! Vi no cinema 8 anos atrás…

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