851 – Mangue Negro (2008)

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2008 / Brasil / 115 min / Direção: Rodrigo Aragão / Roteiro: Rodrigo Aragão / Produção: Rodrigo Aragão / Elenco: Ricardo Araújo, Marcelo Castanheira, Walderrama dos Santos, Markus Konká, André Lobo, Antônio Lâmego, Kika Oliveira, Maurício Ribeiro, Reginaldo Secundo, Julio Tigre


Definitivamente 2008 foi o “ano da retomada” para o cinema de terror nacional, que está hoje aí, quase dez anos depois, em uma de suas melhores fases em muito tempo. Tudo isso por conta de três produções brazucas daquele ano: A Capital dos Mortos, de Tiago Belotti, Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, que finaliza a trilogia de Zé do Caixão, e Mangue Negro, responsável por colocar o capixaba Rodrigo Aragão, o Tom Savini brasileiro, no mapa.

Mangue Negro é SENSACIONAL, na boa. É a versão manguezal de Fome Animal, com praticamente quase a mesma quantidade de gore e escatologia, substituindo a ensolarada Wellington, capital da Nova Zelândia, pelos pântanos lúgubres do interior do Espírito Santo, infestados por uma horda de zumbis.

É o splatstick nacional em seu mais alto nível, pegando todas as referencias possíveis de clássicos como de Peter Jackson já citado, A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante de Sam Raimi, e A Volta dos Mortos-Vivos – tem até uma versão tupiniquim do Tarman por ali – com todo um tempero regional, enfiando, como de praxe no cinema de Aragão, uma crítica social e ambiental, sobre as mazelas do povo brasileiro, o extremo da pobreza e das situações de subsistência daquela população ribeirinha que vive de pescar caranguejo em uma área outrora próspera e agora poluída, e a exploração da situação pelos mais ricos.

Da lama ao caos!

Da lama ao caos!

Ou seja, nisso Aragão também emula o mestre George A. Romero, em simplesmente não entregar um filme de zumbi sem conteúdo, mas com uma poderosa mensagem por trás. E assim somos apresentados ao nosso herói improvável, o Luís da Machadinha de Valderrama dos Santos, a versão capixaba de Lionel ou de Ash, que irá combater aquela hecatombe, não só pelo instinto de sobrevivência, mas pelo amor platônico que carrega pela mocinha, Raquel (Kika Oliveira), o qual fará de tudo para salvá-la, desde ir atrás de um raro baiacu que possui um veneno capaz de reverter a infecção até voltar para a casa dos pais da moça, que nessa altura do campeonato também já se transformaram em monstros canibais da lama.

Mangue Negro é repleto de situações bizarras, personagens caricatos de todos os níveis, mas que representa muito bem as camadas de nosso povão, altas doses de crendice popular e folclore, e completamente straight forward, sem perder tempo dando explicações fajutas de como os zumbis surgiram, eles simplesmente estão lá, surgindo do meio do lodo e dos crustáceos em um excelente trabalho de maquiagem de Aragão, abusando de efeitos práticos de alto nível, onde mesmo a tosqueira proposital, caminha no limite entre o sanguinário, o nojento e o hilário.

Aliás, sangue e nojo é o que não falta! Enquanto Luís da Machadinha vai partindo crânios e decepando zumbis, sendo coberto cada vez mais e mais de vermelho, como manda a cartilha, as putrefatas criaturas são cheias de cancros, pus, pústulas, viscosidades pretas e afins, sem medo de jogar o splatter no meio dos rincões do Brasil. Não é a toa essa comparação de Aragão com Savini, e que talvez, atrevo-me a dizer, ele seja o mais importante cineasta de terror do Brasil!

Caso você nunca tenha assistido Mangue Negro, isso é aula obrigatória de cinema de terror nacional. E não venha dizer que não falta oportunidade, porque o tanto que o filme é reprisado no canal Space na TV a cabo, não está no gibi. Assim como também a trilogia que segue com A Noite do Chupacabra e Mar Negro.

Manguezombie!

Manguezombie!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. kenny disse:

    O título é uma piada com o ”Sangue Negro”, do Paul Thomas Anderson?
    ps: resenha foda, vou correr pra ver =)

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