853 – Pontypool (2008)

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Pontypool


2008 / Canadá / 93 min / Direção: Bruce McDonald / Roteiro: Tony Burgess (baseado em seu livro) / Produção: Jeffrey Coghian, Ambrose Roche; Billie Mintz, Michale Raske, Nick Sobrar (Produtores Associados); Henry Cole, J. Miles Dale, Jasper Graham, Isabella Smejda (Produtores Executivos) / Elenco: Stephen McHattie, Lisa Houle, Georgina Reilly, Hrant Alianak, Rick Roberts, Daniel Fathers


Pontypool definitivamente é um dos mais bizarros, originais e inventivos filmes de zumbi já feitos. Nada, absolutamente nada se assemelha a esse obscuro semiótico filme canadense independente, principalmente no que se refere ao alucinado motivo da infecção espalhada por uma pequena cidade de Ontario.

Sério, o longa do diretor Bruce McDonald, escrito por Tony Brugess, baseado em seu livro, é a semântica encontrando o cinema zumbi e um nível tão surreal, complexo e inteligente, que se encaixa em um milhão de metáforas e críticas sociais possíveis e imagináveis, exala cinema indie completamente fora dos padrões, e fará com certeza sua cabeça explodir exatamente por tratar um subgênero tão batido de forma completamente fora da casinha.

Mais um thriller psicológico que de fato o grosso do cinema zumbi, até porque tecnicamente não estamos falando de mortos-vivos, mas sim de um surto de raiva, Pontypool, nome da cidade onde essa infestação começa, dá uma ar de frescor em uma velha história. Bebe claro, na claustrofobia de Romero em seu A Noite dos Mortos-Vivos, mas vai longe, criando uma espécie de transmissão de rádio de A Guerra dos Mundos por Orson Wells moderna, substituindo os marcianos, por pessoas com raiva e comportamento irracional.

O grande lance de Pontypool, e como McDonald o conduz, é nos colocar exatamente na pele dos poucos protagonistas, três empregados da rádio local, o locutor Grant Mazzy (Stephen McHattie, ótimo!), a produtora Sydney Briar (Lisa Houle) e a técnica, ex-veterana do Afeganistão, Laurel-Ann Drummond (Georgina Reilly), que durante uma manhã qualquer, recebem um boletim do jornalista Ken Loney e seu helicóptero, uma espécie de comandante Hamilton canadense, de uma insurreição de centenas de pessoas em um prédio no centro da cidade, consultório médico do Dr. Mendez (Hrant Alianak).

Don't speak!

Don’t speak!

Uma crescente de tensão e suspense vai se construindo enquanto não saímos absolutamente NENHUM momento daquela estação de rádio e somos bombardeado por informações desencontradas e relatos de desespero tanto de ouvintes quanto de Loney, vivenciando apenas aquilo que as três testemunhas do apocalipse estão, tudo apenas pelas ondas do rádio, sem nenhum imagem dessas revoltas que passam a se espalhar por nenhum motivo aparente e dos ferozes ataques.

Isso por si só já daria um troféu Golden no Hall da Fama para Pontypool, mas ele vai só melhorando, quando a insurreição chega às portas da rádio, Laruel fica “infectada” e o tal Dr. Mendez aparece no estúdio, trazendo a mais inventiva e absurda explicação para uma hecatombe zumbi já dada: o vírus está se espalhando por certas palavras pronunciadas pela língua inglesa, quase como uma sugestão subliminar que ativa o cérebro da vítima e a transforma em um ser raivoso e desprovido de consciência.

Isso é muito sério! Melhor ainda é a forma como se combater essa infecção: desconstruir algumas palavras chaves, que ninguém sabe quais são, mas que preferencialmente são palavras que demonstrem amor ou afeto, e desmantelar as formas de comunicação (falar francês, por exemplo, já que estamos no Canadá, uma vez que o vírus se espalha apenas em sentenças em inglês), em um verdadeiro estudo maluco de semiótica e do campo semântico. Quando você imaginou isso em um filme de terror? Eu também nunca!

De morder os lábios!

De morder os lábios!

Os zumbis, por exemplo, são chamados pelo diretor de “conservadores” ao invés da palavra com Z – mais uma crítica social subentendida – e o vírus possui três estágios de evolução: a primeira quando o infectado começa a repetir uma palavra e se encontra travado nisso, provavelmente essa é a palavra que serviu como gatilho cerebral para o desenvolvimento do vírus; a segunda é que a linguagem torna-se desconexa e confusa e a vítima não consegue mais articular frases e se expressar de forma clara; e a terceira, e mais bizarra de todas, é que ela fica tão perturbada em tentar colocar as palavras para fora e não conseguir, que a única forma que encontra para fazer isso é “mastigar” o caminho através da boca por outra pessoa. Leia-se: canibalismo! Ou ele irá se expelir para fora sozinho de uma forma nada bonita de ser ver. E ah, detalhe que eles são guiados pela fala, então calar a boca é o caminho para sobreviver…

Não bastasse isso, temos lá os momentos viscerais de gore e de invasão (mesmo que contida pelo simples ato de fechar a boca e não falar nada) e toda uma reflexão filosófica sobre comunicação interpessoal, manipulação da massa por meio das palavras e da notícia, sensacionalismo, ética de sobrevivência, tudo misturado com uma dose cavalar de humor negro e situações de nonsense, que só exploram ainda mais o completo apreço ao não-convencional do longa metragem.

Pontypool é um verdadeiro estudo de caso de cinema independente de gênero, com um quê de David Cronenberg, já que estamos no Canadá, aula de horror psicológico subentendido em diversas e complexas camadas, que não tem o menor pudor em ser ousado e correr riscos, quebrando paradigmas, inteligente e maluco ao mesmo tempo, obviamente não recomendado a todo tipo de público e muito menos ao fã médio de terror e zumbis, e aos não iniciados.

Na porta da loja em dia de Black Friday

Na porta da loja em dia de Black Friday



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Luiz Carlos Marcolino disse:

    Têm um número, da HQ, Frequência Global, que uma invasão alienígena acontece da mesma maneira.

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