857 – Anticristo (2009)

Antichrist


 2009 / Dinamarca, Alemanha, França, Suécia, Itália, Polônia / 108 min / Direção: Lars Von Trier / Roteiro: Lars Von Trier / Produção: Meta Louise Foldager, Peter Garde (Produtor Executivo) / Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg


Já vou logo dizendo no começo desse post que eu tenho um baita bode de Lars Von Trier. Se quiser, pode atirar as pedras, mas eu não gosto de Dogville, não gosto de Manderlay, eu não suporto Melancolia e principalmente Dançando no Escuro e não vi Ninfomaníaca. Mas Anticristo eu tenho que dar o braço a torcer.

O cineasta dinamarquês chama esse filme de o mais importante de toda sua carreira e é aqui que ele exorcisa todos os seus demônios. E um filme que tem essa conotação pessoal, vindo de um cara cara como Trier, que passou dois anos mergulhado em uma depressão profunda, não poderia ter um resultado mais perturbado, dramático e niilista. E Anticiristo é mais um exemplo claro daqueles filmes que extrapolam o limite do gênero terror e como ele não se resume somente a estereótipos, como muitos ainda pensam.

Trier é filho de pais ateus e desde os 12 anos seu livro de cabeceira é “O Anticristo” de Nietzsche, ensaio anti-cristão do filósofo alemão. Nessa sua produção, o diretor usa e abusa de uma criação estética singular, de uma beleza plástica perfeita, com fotografia de Antony Dod Mantle, para julgar e subverter os valores cristãos e humanos em quatro capítulos: Luto, Dor (Caos Reina), Desepero (Feminicídio) e Os Três Mendigos, além de um prólogo e um epílogo.

Os Três Mendigos

O prólogo é o fio condutor que vai marcar o destino dos dois personagens principais, interpretados por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, em uma das cenas mais lindas e marcantes de toda a história do cinema. Toda filmada em câmera lenta e em preto e branco, o casal está transando (visto como algo moralmente errado e reprovado pela Bíblia) em uma cena de sexo explícito e orgasmo abundante, enquanto acidentalmente seu filho pequeno foge do berço em direção à morte ao cair de uma janela, tudo isso com um trecho da ópera Rigoleto de Händel,  tocando ao fundo. Ver essa cena em alta definição é um verdadeiro desbunde.

Ela, incapaz de conseguir lidar com a dor da perda entra em um estágio de culpa e depressão profunda, e Ele que é terapeuta, resolve transformá-la em sua paciente e tentar ajudá-la a superar a morte da criança. Durante o processo, os dois resolvem se isolar em uma cabana no meio da floresta ironicamente conhecido como Éden. Ironicamente porque o que eles irão passar ali está o mais longe possível do significado literal da palavra. É muito mais próximo do inferno na terra.

Cercado de metáfora e elementos extremamente bizarros e estranhos, como o aborto de um cervo ou uma raposa desgranhenta que olha para a terra e diz em alto e bom som: “O caos reina”, Anticristo desenvolve uma batalha psicológica e tortuosa entre os dois personagens, extrapolando a dualidade entre os opostos, a culpa, a negligência e a repressão sexual e joga o espectador em uma espiral de desconforto e violação das ideias e desapego dos valores, até que em seus dois últimos capítulos, transforma a fita em uma espécie de toture porn sublime, se é que um dia você imaginou que isso fosse capaz de acontecer.

O caos reina…

E tu vai se sentindo mal durante todo o andamento do filme, recheado de cinismo e desilusão, achando que está invadindo a vida e a intimidade daquele casal ao tentar acompanhar com demasiado choque as brutais e realistas conversas e sessões terapêuticas, que vem trazendo à tona percepções sobre a verdadeira natureza do medo e do instinto humano, tudo isso em cenas que deixam um gosto amargo na boca, amparadas por uma beleza singular narrativa e visual e doses cavalares de sexo e nu frontal.

Então vamos presenciado o total descontrole emocional da personagem de Charlotte Gainsbourg, conhecendo um pouco mais sobre a pesquisa de sua tese sobre o feminicídio e como as mulheres eram brutalmente assassinadas por homens, principalmente na Idade Média, por serem uma espécie de semente do mal pecadora. E Ela abraça essa causa e vira refém de seus medos e de suas neuroses numa demonstração atroz de misandria, onde o terror que até então era psicológico, transforma-se em visceral e gráfico graças a contundentes cenas de tortura, mutilação genital e assassinato.

É preciso ter muito estômago para assistir Anticristo. E estar no clima principalmente. É polêmico e pesado, chegando ao ponto mais puro do  horror da psique humana e do condicionamento do medo e do pecado. Causou um imenso bafafá no Festival de Cannes de 2009 (como já é de praxe tratando-se de Lars Von Trier) e foi alvo de vários tipos de críticas, das mais positivas às mais negativas.

Uma coisa é certa: é impossível passar incólume ao filme. Você pode detestá-lo ou você pode odiá-lo. Mas é um mergulho dentro do abismo. E como o próprio Nietzsche escreveu em outra obra: “quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo também olha dentro de você”.

Sai do buraco, meu filho…


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Íris disse:

    Link indisponível para download.

  2. Elvis Machado disse:

    Rigoletto é de Verdi. A Ária no início do filme é da ópera “Rinaldo”, essa sim de Händel, e também fez parte de uma cena memorável onde Farinelli (Farinelli – 1994) canta ao mesmo tempo que reminiscência mostram quando fora castrado. A personagem da ópera é originalmente a bruxa Almira depois readaptada para a ópera citada (Rinaldo). Essa Área aparece denovo em Ninfomaníaca também de Lars Von Trier, novamente com Charlotte Gainsbourg.
    Terrores “freudianos” rsrsrs.

  3. Elvis Machado disse:

    E valeu pelo pelo seu blog. Estou promovendo altas “sessões Malditas” com as suas dicas.
    Valeu!

  4. Papa Emeritus disse:

    Eu não gostei desse filme (assim como eu não gostei de nenhum outro filme do Las Von Trier). Só que o problema é que eu não sei porque eu não gostei. kkkkkkkkkkkkkk.

    Eu “só” não gostei.

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