859 – A Casa do Diabo (2009)

The House of the Devil


 2009 / EUA / 95 min / Direção: Ti West / Roteiro: Ti West / Produção: Josh Braun, Larry Fessenden, Roger Kass e Peter Phok, Derek Curl (Co-produtor), Badie Ali, Hamza Ali, Malik B. Ali e Greg Newman (Produtores Executivos) / Elenco: Jocelin Donahue, Tom Noonan, Mary Woronov, Greta Gerwig, Dee Wallace


Se eu tivesse que escolher dois filmes reponsáveis pelo surgimento da ótima atual cena indie de terror americano e pelo nascimento do movimento mumblegore, seriam O Sinal e A Casa do Diabo, para mim, um filme verdadeiramente divisor de águas!

A Casa do Diabo é uma verdadeira ode aos anos 80. Se você começa a assistir ao filme sem saber nada sobre ele, e isso inclui a data de seu lançamento, é bem provável que você ache que ele realmente foi produzido naquela década. O diretor Ti West procurou realizar uma ambientação impecável, desde o figurino até as mobílias, trilha sonora pontual, zelo na estética de filmagem, em seu ritmo, e desenvolvimento do roteiro, nos caracteres utilizados nos créditos e caprichou na pós-produção para parecer que foi filmado com os recursos disponíveis na época. Chegou até a ser lançado em VHS nos Estados Unidos em uma edição especial que vinha junto com o DVD.

É a mais pura verdade que alguns dos melhores filmes de terror da história foram produzidos nos anos 70 e 80. Eles possuíam um clima, uma narrativa, completamente diferente do que estamos acostumados a ver hoje em dia. Assistir A Casa do Diabo é como uma retrospectiva da retrospectiva e dava o pontapé inicial nesse movimento vintage que tomaria conta do cinema de terror trazendo uma geração de cineastas, como o próprio Ti West, no final dos seus 20 anos, que cresceram assistindo aos clássicos e absurdamente influenciados por ele, para as cadeiras de diretor.

Em algum ano da década de 80, Samantha (Jocelyn Donahue) é uma universitária quebrada que deseja muito alugar uma casa para fugir do alojamento em que vive com uma companheira de quarto promíscua e bagunceira. Ela encontra a casa que parece dos sonhos e a locatária acaba sendo muito boazinha com ela, deixando de lado algumas burocracias habituais e aceitando somente o primeiro mês de aluguel adiantado na próxima semana. E detalhe que a locatária é interpretada por Dee Wallace, uma velha conhecida do cinema dos anos 80, que fez desde E.T. – O Extraterrestre até clássicos do terror como Grito de Horror, Criaturas e Cujo.

Precisando de grana rápido, Samantha aceita um trabalho como baby-sitter de uma noite para a estranha família Ulman, em uma casa afastada da cidade, indo contra todas as advertências de sua melhor amiga, Megan. Um dos motivos do pé atrás é que ao invés de cuidar de uma criança, Samantha deveria tomar conta da velha sogra do Sr. Ulman, algo que não foi dito desde o início. Ele chega a pagar 400 irrecusáveis dólares por uma noite de serviço, apenas porque ninguém mais atendeu ao seu chamado. E detalhe: essa noite em específico irá acontecer um eclipse lunar total. Já viu, né?

Mas pera aí: de que ano é esse filme mesmo?

Enquanto a garota está na casa, um minimalista clima de tensão de roer as unhas vai surgindo, pois você sempre fica se perguntando o que diabos aquela família estranha e a casa escondem e o que irá acontecer afinal. E West faz questão de esticar o ritmo o máximo possível, com arrastados minutos de silêncio e tomadas longas, exatamente como acontecia nos filmes daquela época. Até que quando faltam 20 minutos para o final, você descobre que Samantha terá que lutar por sua vida, já que os Ulman, e nisso inclui além do casal, seu filho (que já havíamos sido apresentados antes, não formalmente) e a tal velha, fazem parte de uma sinistra seita satânica e querem usar a universitária para um ritual demoníaco.

Além de ser uma singela homenagem a década de 80, vê se que West bebeu na fonte de alguns dos principais filmes do gênero, e você consegue muito bem perceber uma influência proposital de produções como O Bebê de Rosemary, As Bodas de Satã, A Profecia e Suspiria (inclusive a semelhança física da atriz principal com Jessica Harper, do longa de Argento). É uma celebração àqueles cinéfilos que como eu e os meus, são mega saudosistas quando se trata dos anos 80, quando víamos esses filmes na televisão aberta ou alugávamos em VHS para assistirmos como nossos amiguinhos depois da escola. E tenho certeza que a mesma coisa vale para Ti West, já que ele nasceu no ano de 1980 e essas fitas com certeza marcaram sua carreira cinematográfica.

Outro ponto louvável é que A Casa do Diabo, apesar de parecer datado sem ser, foi, como disse um filme extremamente revigorante para o cinema atual, ainda mais tratando-se do cinema americano, que pelo menos nos anos 2000, escambava somente para o já saturado torture porn e logo depois, para o found footage batendo na porta.

Por isso, o filme foi tão bem recebido pela crítica e público e colocou Ti West como um dos mais promissores cineastas do gênero, um dos principais nomes do mumblegore, e dos pioneiros dessa excelente leva de filmes independentes americanos que estamos vendo por aí.

Suspiria? Oi?


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Eu ainda não consegui ver esse filme. Assistindo ao trailer fiquei impressionado com a reconstituição de época. Ah, os anos 80… hehehe.

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