873 – O Caçador de Troll (2010)

trolljegeren_xlg.jpg

Trolljegeren / The Troll Hunter


2010 / Noruega / 103 min / Direção: André Øverdal / Roteiro: André Øverdal / Produção: Sveinung Golimo, John M. Jacobsen; Lars L. Marøy (Coprodutor); Marcus B. Brodersen (Produção Executiva) / Elenco: Otto Jesperen, Glenn Erland Tosterud, Johanna Mørck, Tomas Alf Larsen, Urmila Berg-Domass, Hans Morten Hansen


Found footage vindo diretamente da Noruega, O Caçador de Troll é uma lição de casa bem feitinha do subgênero (antes da saturação completa, ainda bebendo na fonte dos recentes sucessos de Cloverfield – Monstro, REC e Atividade Paranormal) que mistura cinema fantástico, incorporando a riquíssima mitologia nórdica e humor, funcionando até como paródias dos próprios gêneros nos quais está inserido.

O troll, para quem não sabe, é aquela figura mítica feia, rabugenta, irracional, desproporcional, que se alimenta de carne humana (principalmente se você for um cristão) e é fotossensível a luz do sol, que pode transformar a criatura em pedra quando sua exposição – quem aí não lembra de como Bilbo Bolseiro enganou (ou trollou) até o amanhecer um bando de trolls que queriam cozinha-lo em O Hobbit, livro e filme?

No falso documentário dirigido e escrito por André Øverdal, os trolls existem de verdade e vivem escondidos nas florestas e montanhas ermas da Noruega e sua existência negada e contato com os humanos impedido por uma organização secreta chamada Troll Security Service (TSS), uma espécie de Esquadrão Ultra, dadas suas devidas proporções, e a figura de Hans (Otto Jesperen), o tal caçador do título, que dedicou sua vida a caçar os monstros em uma cruzada solitária e secreta.

bscap0008.jpg

Nada de cozinhar uns hobbits

Um grupo de cineastas estudantes da universidade de Volda resolvem fazer um documentário sobre uma série bizarra de mortes de ursos nas região, que vem sendo abatidos por algum caçador não licenciado, e acaba se deparando com Hans, um taciturno, arrogante e rabugento suposto “caçador de ursos”. Só que ao segui-lo, descobrem a terrível verdade sobre as criaturas.

Após topar participar do documentário (depois de anos e anos de trabalho em segredo), Hans funciona de forma professoral para o grupo e para o público, explicando de forma didática sobre a origem e diferentes raças das criaturas míticas, assim como seus tamanhos, enquanto os caça, tudo captada pela câmera na mão, com uma arma ultra violeta que pode trazer reações diversas aos trolls, desde explodi-los a torna-los estátua, dependendo da idade da criatura.

Todo o absurdo do filme tratado de forma séria, o que o torna ainda mais propositalmente cômico, é amparado também pelos excelentes efeitos especiais, tanto práticos como uso de CGI, dos trolls e seus mais variados biotipos (tem até um de três cabeças!), mas nunca visto como criaturas genuinamente assustadoras, e sim tronchas com seus grandes narizes, peludos e cara feia ao melhor estilo contos de fadas nórdicas.  A fotografia belíssima de Hallvard Braein, das planícies, montanhas e florestas cobertas de neve da Noruega, muito captado em luz natural, é um desbunde que só contribui ao longa.

Troll-hunter-3.jpg

Visão noturna

A cartilha do found footage também está toda ali, remetendo principalmente por Cloverfield – Monstro, no que tange um filme de criaturas, e até mesmo o clássico Cannibal Holocaust, envolvendo um grupo de documentaristas que irão até as últimas consequências para conseguir sua matéria, mesmo que isso possa colocar em perigo sua própria vida. E claro que haverá os momentos de correria desenfreada, visão noturna e tudo mais que se tem direito no subgênero, porém, utilizado como recurso narrativo e não apenas estético, como de praxe.

Jesperen é um show a parte. Forjado como se fosse o resiliente e resignado último herói da Noruega, em sua jornada de toda uma vida, o sujeito que se apresenta como um personagem cínico e emburrado vai cativando o espectador, sempre com sua aparência sisuda e austera, dando um ar de seriedade incomparável em meio a galhofa e a situação rídica, com um elenco de apoio (assim como ele próprio), formado por comediantes de seu gélido país tentando dramatizar o impossível a todo momento.

O Caçador de Troll – que até um tempo atrás era exibido à exaustão no Space, tipo os filmes do Rodrigo Aragão – merece sim aquela conferida por um tema riquíssimo, uma série de fatores escritos acima que valem o espetáculo, e a forma como Øverdal trata o tema e o subgênero, resultando um ótimo exemplar do cinema fantástico recente.

447213.jpg

Grande trollagem



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Esse é um dos poucos found footage que eu gosto (junto com REC e poucos outros).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: