875 – Cisne Negro (2010)

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Black Swan


2010 / EUA / 108 min / Direção: Darren Aronofksy / Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz, John J, Mclaughlin / Produção: Scott Franklin; Mike Medavoy, Arnold Messer, Brian Oliver; Jerry Frutchman, Joseph Reidy(Coprodutor), Rose Garnett (Produtora Associada); Jon Avnet, Brad Fischer, Peter Frutchman, Ari Handel, Jennifer Roth, Rick Schwartz, Tyler Thompson, David Thwaites (Produtores Executivos) / Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder


E ainda há gente que provavelmente falará que a visceral descida à loucura de Natalie Portman em Cisne Negro não é um filme de terror. Balela.

Todinho o longa de Darron Aronofsky, que rendeu o Careca Dourado – com toda justiça do mundo –  a Portman, apesar das controvérsias levantadas pela sua dublê Sarah Lane, bailarina que afirmou que a atriz esteve em apenas 5% das cenas e muitas foram usadas sobreposição de rostos, é calcado nos mais básicos elementos do gênero.

Vou ser obrigado a dissecar essa informação? Então vamos lá. Começa com todo o conceito do doppelgänger, comumente usado no cinema de terror, no qual todo o filme é pavimentado. Portman é constantemente aterrorizada pelo seu duplo, uma variação de sua própria personalidade, limítrofe e esquizofrênica, alimentada por uma série de desvios psicológicos que vão levando à bailarina a um vórtice de loucura, que lhe rende alucinações, paranoia e a perda da capacidade em não saber distinguir o real do imaginário.

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#foreveralone

Obviamente tudo isso municiado por fatores como a pressão pelo estrelato, o assédio sexual e moral do dono da cia de balé em que ela dança, Thomas Leroy (Vincent Cassel), as neuroses impostas por sua mãe controladora, ciumenta e frustrada em não ter se tornado uma bailarina na juventude por conta da gravidez, e a chegada de um rival, Lily, interpretada por Mila Kunis, que periga lhe roubar seu papel duplo como A Rainha Cisne e o Cisne Negro, na reimaginação do clássico O Lago dos Cisnes, balé em quatro atos de Tchaikovsky.

Nina Sayer, a personagem de Portman, começa a passar por sua própria metamorfose, liberando toda sua repressão, medo e libido, transformando seu lado virginal, inocente, castrado por sua mãe obsessiva, em algo obscuro repleto de inveja, traição, descontrole, chegando até as vias de fato do assassinato (ou não, mais uma alucinação da sua cabeça perturbada). Nina passa a sofrer de um desequilíbrio constante, automutilação, tudo em meio a busca da perfeição, acarretando em seríssimos danos psicológicos.

A sua própria metafórica transformação no Cisne Negro é uma analogia a tudo isso, a libertação do seu id. É como o degringolar da sanidade de qualquer psicopata que vemos nos melhores thrillers por aí. Além do final explosivo, subentendido e metafórico, em que Nina, agora mutada como o Cisne Negro nessa batalha entre superego e id, desce ao abismo e transforma-se em uma vítima de seus conflitos internos.

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A outra

Sem contar o tema balé, que para qualquer fã de horror, irremediavelmente vem a cabeça o suprassumo de Dario Argento, Suspiria, uma vez que a história também tem o balé como pano de fundo, mesmo que em uma proporção muito menor.

Tirando todas essas nuances de Cisne Negro, a decadência da psique de Nina é obviamente interpretada por maestria por Portman, que está um verdadeiro MONSTRO em cena, até fisicamente alterada, e na forma como Aronofsky domina a câmera, tanto nas cenas de dança, como nos momentos mais íntimos, soturnos e decadentes, colocando sempre o espectador no olho do furacão da degradação da personagem, como testemunha ocular da crônica de uma tragédia anunciada.

Cisne Negro é sim, UM FILME DE TERROR, apesar dos puros e castos, membros da Academia, críticos presunçosos e cheios de empáfia que gostam de diminuir o gênero não admitirem nem sob tortura. Claro, também é um drama, um suspense, mas como sempre digo, o horror não é um gênero puro, virgem, ele vive de amálgamas e simbioses com outros estilos cinematográficos, e esse longa é uma das provas cabais do que eu estou falando, se visto por outro prisma, e por outra perspectiva.

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Black Suspiria


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

4 Comentários

  1. Rogério Santos disse:

    Quando assisto este filme, tenho sempre a impressão que apenas Nina vê Lilly, o que pra mim reforça ainda mais o lado paranoico da personagem de Portman.
    P.S.: Muito se fala do Oscar de Natalie Portman, mas Mila Kunis ganhou o prêmio Marcelo Mastroianni no Festival de Veneza, dado a atores e atrizes jovens ou não profissionais.

  2. WILLIAN ALVES GOMES BITENCOURT disse:

    Excelente texto!

  3. Rafael disse:

    Nossa esse e um dos meus filmes favoritos simplesmente por ser perfeito e o modo como a personagem tem dois lados e as loucuras da cabeça da nina são muito legais mila Kunis(Acho ela uma atriz limitada) ta ótima tbm no filme Winona Rider tbm está legal mais a Natalie portman foi o grande destaque ela se entregou ao papel e sem contar que o diretor vinha de um filme ruim e o oscar foi muito merecido

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