877 – Doce Vingança (2010)

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I Spit On Your Grave


2010 / EUA / 108 min / Direção: Steven R. Moroe / Roteiro: Stuart Morse / Produção: Lisa M. Hansen, Paul Hertzberg; Bill Berry, Neil Elman, Daniel Gilboy (Coprodutores); Jeff Klein, Gary Needle, Alan Ostroff, Meir Zarchi (Produtores Executivos) / Elenco: Sarah Butler, Jeff Branson, Andrew Howard, Daniel Franzese, Rodney Eastman, Chad Lindberg


Doce Vingança – nome ridículo em português dado pela Paris Filmes, que mais parece título de uma comédia romântica para o cabulosíssimo I Spit On Your Grave – refilmagem do clássico rape and revenge dos anos 70, A Vingança de Jennifer, ganha uma conotação completamente diferente nesse novo século, e até mesmo durante essa intragável revisita no ano de 2016 para escrever essa resenha.

Mais ou menos a mesma sensação de incômodo que me acometeu ao assistir A Garota Morta para escrever sobre. Principalmente por todo o crescimento do movimento feminista que vem colocando mensagens e ideais importante em nossas cabeças de bagre de home, e a discussão sobre o machismo, a misoginia e a cultura do estupro. Visto por esse prisma, Doce Vingança é um puto soco no estômago.

Os argumentos daquele bando de caipiras que violentam, torturam física e psicologicamente, praticam agressão e sodomizam Jennifer Hills, vivida por Sarah Butler, é simplesmente de deixar qualquer homem que tenha um pouco de sã consciência da sociedade patriarcal nojenta que vivemos, com asco, e sentir-se completamente desconfortável com aquilo tudo. A culpa SEMPRE é da vítima, que era uma esnobe da cidade grande, que ao não dar bola para o hillbilly machão, que sempre tem o que quer, toma a força, com o conluio dos amigos, afinal ela também adorava ficar se mostrando, e mais, o xerife, personagem mais detestável de todos, acreditava também que ela estava pedindo, afinal fumava maconha, bebia, e isso é inadmissível para uma dama.

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Não existe cultura do estupro… Magina…

Aliás, o tal Xerife Storch (Andrew Howard) é a perfeita encarnação do tal homem branco hétero, cidadão de bem, de direita, que segue os preceitos da tradição, família e propriedade, que utiliza do abuso da lei, da sociedade a sua volta que o protege, mente para esposa grávida e filha, se diz um homem temente a Deus que frequenta a missa – a não ser na manhã de domingo que está estuprando uma garota – e não passa de um ser humano desprezível e revoltante. Claro que ele vai levar um dos piores castigos arquitetados por Jennifer.

Aliás, se há uma coisa que pelo menos serve como leve atenuante desse sexploitation, é exatamente esse senso de vingança, de que a aquebrantada, agredida, humilhada e violentada garota apela para a violência da forma mais brutal e cruel possível, saindo do estereótipo do sexo frágil para literalmente acabar com a raças do machos abusadores. Claro que falando para uma nova geração, filha do torture porn, as vinganças aqui fazem Jigsaw ficar corado, mas ao mesmo tempo, também é o calcanhar de Aquiles do filme se você não deixar o botão da suspensão da descrença bem apertado e não parar para pensar em como a garota, uma simples escritora, mesmo que passando por uma situação limítrofe daquelas, conseguiu elaborar aquelas traquitanas todas (sem ter nenhuma noção de engenharia ou física, não que tenha sido comentado, por exemplo).

Mas como isso não vem ao caso, é de se deliciar com o terrível destino dos estupradores, depois de ver todo o mal que eles causam a Jennifer. O abuso e a violência sexual são tão intensos e desconcertantes, que lembro ao ver pela primeira vez o filme com a minha ex, ela ficou extremamente perturbada depois da cena, realmente em choque e não conseguiu assistir o resto do filme até o final, mesmo já ciente do revide que viria. E ainda ficou mal por causa da cena por um mês!

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Só porque eu vim da roça…

Bom, na trama, tal qual do filme de 1978, Jennifer Hill resolve alugar uma casa na beira do lago no interior, para um retiro de dois meses na intenção escrever seu livro. Torna-se alvo de um bando de machos escrotos rednecks, um deles virgem e com retardo mental, e o tal xerife homem de família. Ela escapa com vida atirando-se no lago e tem um mês para arquitetar sua vingança para poder cuspir no túmulo dos desgraçados.

Fica aí o ALERTA DE SPOILER para quem não assistiu, mas Jennifer abusa da criatividade doentia para meter um dos estupradores em uma banheira cheia de bicarbonato de sódio, amarrar as pálpebras do outro com anzóis e passa tripa de peixe em seu rosto para seus olhos serem arrancados das órbitas a bicada por corvos, castrar o líder deles e enfiar o pênis decepado em sua boca e deixa-o sangrando até a morte e, por fim, enfiar o cano de uma calibre doze no ânus do xerife (que a sodomizara dizendo ser um homem louco por rabos).

Doce Vingança (eu já não trabalhava mais lá em seu lançamento, senão teria mantido o nome de A Vingança de Jennifer) é realmente um filme desagradável de se ver, mas que se faz pensar muito na sociedade misógina que vivemos e na cultura do estupro, que existe SIM e não é papo de feminazi, como tipinhos parecidos como os personagens do filme vociferam por aí. Como cinema ele não é absolutamente nada demais, porém ainda assim os produtores tiveram a pachorra em fazer mais dois filmes, estabelecendo aí uma desnecessária trilogia.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

3 Comentários

  1. Maycon do Carmo disse:

    Resenha foda, cara.
    É um filme que te faz ter nojo de ser homem.
    Uma correçãozinha chata, Marcola: o componente na banheira não era bicarbonato de sódio e sim hidróxido de sódio, ou soda cáustica.

  2. barbara santos pinto disse:

    Acho que os comentários deveriam se deter somente sobre os filmes. Não concordo com o que foi colocado acerca da cultura de estupro, feminismo e sociedade patriarcal. Sou mulher e minha posição é bem diferente desta. Não cabe aqui, comentar a respeito. Acho que se o site é sobre filmes, fiquemos no campo dos filmes. A opinião de cada um sobre ideologias etc deve ser proposta em outro canal, não aqui.

  3. Filipe Marcus disse:

    Esse é iradíssimo. Ele e o A Última Casa A Esquerda, mesmo remakes, são bons. Os outros dois do “Doce Vingança” são uma merda. Realmente desnecessários. E ia falar da Soda Cáustica, mas o outro cara já falou.

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