90 – Vampiros de Almas (1956)

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Invasion of the Body Snatchers


1956 / EUA / P&B / 80 min / Direção: Don Siegel / Roteiro: Daniel Mainwaring, Richard Collins (não creditado) (baseado na obra de Jack Finney) / Produção: Walter Mirisch (Produtor Executivo – não creditado) / Elenco: Kevin McCarthy, Dana Wynter, Larry Gates, King Donovan


 

Vampiros de Almas é um dos clássicos absolutos do terror / sci-fi dos anos 50. E o auge da paranoia anticomunista e dos sentimentos macarthistas transpostos para a tela do cinema no auge da Guerra Fria. É cinema em forma de metáfora, de propaganda ideológica, mas mesmo assim, tirando todo esse contexto, ainda é um dos mais assustadores filmes que retrata uma invasão alienígena, imensamente superior a todos os filmes B que também utilizam deste tema feitos naquele período.

Dirigido por Don Siegel, Vampiros de Almas só foi ganhar seu reconhecimento de forma tardia, mas acabou sendo selecionado pelo Instituto Americano de Cinema como um dos 10 melhores filmes de ficção de todos os tempos. E grande parte desse menosprezo é exatamente pela subversão que nos salta aos olhos ao assistir a fita e relacioná-la ao período de caça às bruxas comuna em que ela foi lançada.

No longa, uma típica cidadezinha americana é vítima de uma invasão alienígena através de terríveis vagens espaciais que dão origem a cópias perfeitas, substituindo os moradores aos poucos e instalando um clima de histeria em massa. Cabe ao médico local, Dr. Miles Bennell e seu par amoroso, Becky Driscoll, os únicos “sobreviventes”, correr por suas vidas (literalmente) e tentar desbaratar a invasão, sempre lutando contra o sono, já que é ao dormir, que as pessoas são substituídas.

Só que vamos fazer um exercício básico, de trocar os alienígenas e as duplicatas pelos comunistas. No subtexto do filme, os invasores são seres desprovidos de emoções, todos vivem em um mundo igual e sem problemas, só que o custo disso é a perda da individualidade, que é exatamente como os americanos imaginavam a ideia comunista e a vendiam para sua população. Soma isso ao medo de que essa “invasão ideológica” bolchevique contaminasse suas famílias, suas mulheres, filhos e vizinhos, como em determinado momento do filme, um desesperado Dr. Benell grita à beira da insanidade, “eles estão entre nós”, direto para a câmera. Eles quem, cara pálida?

As terríveis vagens alienígenas!

As terríveis vagens alienígenas!

Só que o grande mérito de Don Siegel é que como cineasta e contador de histórias, ele tirou Vampiros de Almas da obscuridade estética de filme B e conseguiu criar um suspense perene, que vai prendendo e realmente metendo medo no espectador. Seja pela crítica política velada e o medo de uma “invasão” que não tem nada a ver com alienígenas, travestida no roteiro, ou seja pela ideia da chegada desses seres no nosso planeta pela porta dos fundos, agindo sorrateiramente em uma pequena cidade para se organizarem através de uma consciência coletiva e dominar o mundo. Isso sem contar a belíssima fotografia de Elisworht Fredericks, o ritmo frenético que o filme vai adquirindo a partir da descoberta das sementes alienígenas e a cena dos nossos heróis pelas ruas da cidade perseguidos por todos os habitantes de Santa Mira, uma das mais icônicas do gênero.

E por incrível que pareça, pode-se empregar em Vampiros de Almas, visto nos dias de hoje, uma linha de raciocínio completamente diferente daquela empregada há quase 60 anos. Agora que a cortina de ferro caiu há tempos, os efeitos especiais evoluíram absurdamente e Phillip Kauffman nos brindou em 1978 com Os Invasores de Corpos, seu remake superior ao original, Vampiros de Almas continua tendo uma mensagem subliminar muito forte, que é o da a zumbificação mental.

A alienação, o consumo em massa, a falta de amor ao próximo e o egoísmo exacerbado que tomaram conta da sociedade nesse século XXI, podem estar ali subentendidos para quem quiser enxergar, o que o transforma em um filme atual, por esse ponto de vista. A sociedade global de 2013, seria o mesmo prato cheio para uma invasão alienígena em grande escala, que uma invasão comunista no subúrbio americano na década de 50. E com certeza demoraríamos muito, mas muuuuuito tempo para descobrir que seu vizinho de porta foi clonado por um alienígena, sendo que estamos sempre preocupados, atrasados, estressados e cada vez mais cortamos nossas relações sociais diárias tête-à-tête com as pessoas.

Isso sim é de meter medo!

Pernas para que te quero!

Pernas para que te quero!


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] original, que diga-se de passagem, é um dos mais influentes filmes de sci-fi de todos os tempos: Vampiros de Almas, de 1956, dirigido por Don Siegel. Selecionado pelo Instituto Americano de Cinema como um dos 10 […]

  2. […] funcionando como uma verdadeira propaganda ideológica macarthista. Junto com o igualmente famoso Vampiros de Almas e O Dia Em Que a Terra Parou, O Monstro do Ártico é um dos filmes que mais ganhou conotações […]

  3. […] vezes em que isso aconteceu. Que eu me lembre assim de cabeça, posso citar Os Invasores de Corpos (Vampiro de Almas), O Enigma de Outro Mundo (O Monstro do Ártico), A Mosca (A Mosca da Cabeça Branca) e A Bolha […]

  4. […] Jack, o Estripador, o Homem-Invisível, um sacerdote vodu, uma bruxa, o Homem-Cobra, um casulo de Vampiros de Almas, um bebê mutante (de Nasce um Monstro), um assassino com machado que é uma lenda urbana […]

  5. […] homenageados, plagiados, inspirados e por aí vai é altíssima. Vai de ET – O Extraterrestre, a Vampiros de Almas (obviamente a maior influência – tirando o discurso da alegoria comunista que não se encaixa […]

  6. […] acompanhando as notícias da invasão pela televisão (ao melhor estilo sci-fi dos anos 50, como Vampiros de Almas), além de colocar os personagens principais em uma situação de verdadeira claustrofobia, […]

  7. […] grande clássico do sci-fi de todos os tempos, Vampiros de Almas, auge da alegoria da paranoia comunista, ganhou uma refilmagem decentíssima nas mãos do diretor […]

  8. Ana disse:

    Esse filme acabou de passar no Tele Cine Cult, assisti por acaso e adorei! É um filme tenso e que te prende até o final, fiquei curiosa para ver o remake.

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